CASA IMUNDA


Esvaziei a minha casa para limpar cada canto escuro e mofado. Tive medo de sofrer ao botar tudo pra fora. Fiquei receoso com a possibilidade de encontrar alguma lembrança imunda ou algum sonho perdido. Fiquei bem atento, pois sabia que na minha casa existiam poesias mortas esquecidas pelas sombras.

Naquela doida bagunça, a frustração estava espalhada pelo chão, o amor estava trancado dentro de gaiolas e alguns sonhos estava enfiados em gavetas mofadas. Lembrei-me de cada cena que ali vivi, cada momento que abri meus olhos para escrever uma nova ideia, todas as vezes que me joguei ao chão para vomitar as angustias do meu coração e todas as vezes que escrevi poesias sem rimas. A minha faxina durou tanto tempo exatamente por eu sentir medo de me encontrar, por medo de sair da minha prisão, do meu monte de obscuridade. Os rabiscos nas paredes contavam histórias tristes demais, os porta retratos colocavam em exposição momentos de choro e sofrimento, as cortinas escuras serviam como depósito da fumaça do meu cigarro e haviam muitas garrafas espalhadas por todos os lado.

Eu tive medo de me fazer bem. Evitei colocar pra fora tudo que não cabia mais dentro da minha casa. Atrasei a minha faxina por não querer reviver cada momento meu, cada sonho meu, cada relação minha, cada medo meu, cada anseio meu e cada palavra minha.

Esses dias, uma certa manhã, pensei em tanta bobagem, revivi tantas alegrias, caí em muitos precipícios e decidi me levantar da cama para limpar a minha casa.