Para a realização deste ensaio, nos deslocamos até o sul do Estado de Minas Gerais, mais especificamente até a cidade de Extrema. Em meio ao calor intenso da primavera, as imagens foram captadas em um bairro de zona rural situado nos arredores de um entreposto comercial frequentemente ocupado por caminhoneiros. Um território de passagem, onde o fluxo constante convive com a permanência silenciosa da paisagem.
A proposta do ensaio nasce de uma ideia simples: uma igreja ao fundo, um corpo em primeiro plano, um chapéu, gestos livres e poses deliberadamente despojadas. Não há encenação rígida nem narrativa fechada. O que se estabelece é a ocupação do espaço — física e simbólica — por um sujeito em estado de reflexão, atravessado pelo tempo e pela memória.
A igreja, elemento fixo da composição, não atua como símbolo religioso explícito, mas como marco histórico e cultural. Imóvel, observa. Diante dela, o corpo se move, hesita, se inclina, se perde e se encontra. Entre o que permanece e o que se desloca, o ensaio constrói sua tensão central.
O diálogo com o poema Poética (I), de Vinicius de Moraes, surge por afinidade estrutural. No poema, o autor subverte a linearidade do tempo e dos pontos cardeais para afirmar uma existência guiada pela contradição e pela antítese: “Meu tempo é quando.” Assim como no texto poético, este ensaio não se ancora em uma cronologia narrativa, mas em estados — de presença, de inquietação, de suspensão.
Os contrastes atravessam toda a construção visual: luz e sombra, campo e corpo, permanência e deslocamento, vida e esgotamento. O sujeito retratado não se apresenta como herói, mártir ou confissão direta. Trata-se de uma figura em trânsito, que ora resiste, ora se entrega, ora observa — quase sempre no limiar entre o desejo de viver e o peso do fim do dia.
Sereno Contraste é, assim, um ensaio sobre o intervalo. Sobre aquilo que se forma entre o corpo e o espaço, entre o agora e o antes, entre a imagem capturada e a imagem lembrada. Um trabalho que se sustenta na economia de elementos e na recusa do excesso, afirmando que o sentido, muitas vezes, não está no que se resolve, mas no que se tensiona.
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Olivia Vieira
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