A literatura muitas vezes nos serve como um dispositivo de espelhamento. Ao revisitar a obra de Stephen Chbosky, não encontro apenas a história de Charlie; encontro os ecos da minha própria trajetória de silenciamento e a busca por cores que me foram ceifadas. Este ensaio é um mergulho no que significa deixar de ser apenas um observador da própria dor para se tornar o narrador da própria cura.
O desmonte da rigidez: quando a escrita e a memória permitem que a aquarela borre o preto e branco de uma vida inteira.
"Hoje reparo bem que defendi o preto e branco como a proposta da minha vida, a única maneira de ver, de sentir, de agir e de responder ao mundo. Quando criança, eu vi sendo tirada de mim a chance de enxergar o mundo com suas cores e com todas as suas potencialidades. Há quase 1 ano tento diariamente colorir o preto e branco, tento fazer aquarela, dar vida ao que me disseram que não poderia me pertencer..." (LIMA, 2023).
Tentar colorir o preto e branco após décadas de rigidez não é apenas um ato artístico, é uma reestruturação psíquica exaustiva. Se o preto e branco era a "proposta de vida" — uma moldura que mantinha tudo sob controle — a aquarela surge como o caos do imprevisto. Como pontua Conceição Evaristo, a nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, mas para incomodá-los (EVARISTO, 2017). Para o adulto que sempre performou a perfeição das notas e do silêncio, permitir que a tinta borre é aceitar o incômodo de estar finalmente vivo.
Nesse processo de desmonte, a voz de Hilda Hilst surge como o facho de luz sobre o papel. Como escreve James Baldwin, "a identidade é um cartaz sob o qual se esconde a confusão de viver" (BALDWIN, 2019). Na poesia de Hilst, o abandono das formas rígidas é o único caminho para o ser. Em Do Desejo, ela nos convoca ao essencial:
O traço desse adulto artista é hesitante porque ele está, enfim, despindo-se. Charlie, em As Vantagens de Ser Invisível, descobre que não pode ficar apenas observando a vida da margem; ele precisa aceitar o risco de participar dela. Como afirma Paul B. Preciado, o corpo é um arquivo (PRECIADO, 2020); e o meu arquivo está sendo agora repintado com a coragem de quem decide que o trauma não será o único curador da sua galeria particular.
"Voltei alguns anos no tempo para buscar um garoto tímido, gordo, de cabeça raspada, quase sempre solitário e preso em crenças não suas. Encontrei o garoto, escutei sua voz e até ouvi seus pensamentos. Medo, rancor, insegurança e pavor de ser, como viveu assim aquela jovem pessoa? [...] Eu estou na pele da minha criança e nós dois estamos doentes." (LIMA, 2023).
A crueldade de temer a própria existência é o que nos adoece. O resgate dessa criança exige o reconhecimento de que aguentamos o inferno para chegar até aqui. Como diria Hilda, é necessário atravessar a noite espessa para encontrar o que é vivo (HILDA, 1992).
"Talvez a resposta esteja no perdão que eu ainda não tive a chance de pedir para a criança que hoje consigo claramente observar. Nós tínhamos objetivos em comum, nós compartilhamos o mesmo corpo, nós estamos no mesmo passado, nós simbolizamos aquilo que venceu. Quero pedir perdão e dar afago. Nós fizemos nosso melhor..." (LIMA, 2023).



