Em 2021, escrevi nestas mesmas páginas — em reflexões que se dividiram entre O que aprendi sobre a solidão e O que concluo sobre a solidão — que mergulhar nesse sentimento havia sido uma imposição compulsória das minhas instabilidades e das curvas que a vida preparou sem considerar minha humanidade. Naquele momento, com as defesas erguidas e o peito cansado de buscar reciprocidades didáticas, fechar as portas para o barulho externo parecia a única via concreta de salvaguarda. A solidão era um refúgio; o distanciamento, uma resposta quase instintiva à dor da rejeição e da exclusão que atravessam nossos corpos e trajetórias.
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Olhando para trás, percebo que aquela não era uma solidão comum, dessas causadas por desencontros cotidianos ou pelo fim de um relacionamento. Era algo muito mais profundo, atrelado à falta de afetividade, à dificuldade de receptividade e a um desinteresse crônico por relações rasas. Com uma personalidade seletiva e incisiva, nunca tive vocação para a popularidade ou para criar vínculos sem critérios. Mas, se me permito o direito à autoanálise hoje, vejo o quanto me esforcei, no passado, para ser bem quisto — uma necessidade que, felizmente, abandonei pelo caminho.
A verdade é que a solidão que eu experimentava carregava marcadores sociais impossíveis de ignorar. Não há como falar desse sentimento sem dar nome aos bois: a rejeição e a exclusão sistemáticas que me empurraram para o isolamento foram ferramentas nítidas do racismo e da LGBTfobia.
Quando Abdias Nascimento afirmou, em sua histórica entrevista, que nasceu no exílio por não se ver refletido nas instituições e no sistema de ensino de seu próprio país, ele nos deu a chave para compreender essa dor. O exílio de Abdias1 é o sinônimo exato da solidão que vivi. Não se ver representado, ter sua humanidade questionada de forma velada ou explícita e perceber que seus passos são constantemente vigiados e julgados pela cor da pele, pelo gênero ou pela sexualidade é ser exilado dentro de si2.
Esse exílio me causou traumas e desconfortos que por muito tempo foram difíceis de reviver. Negar oportunidade de diálogo, de aprendizado e de construção social são formas violentas de diminuição da nossa existência. E diante dessa tentativa de apagamento, a resposta nem sempre é linear, bonita ou instagramável.
É aqui que reside a minha maior reconciliação com o passado e o meu pedido sincero de desculpas à minha própria trajetória: eu precisei errar para sobreviver.
Há quem espere que o percurso de cura seja uma linha reta pavimentada por sessões de terapia e meditação. Sim, eu tive problemas psicológicos. Sim, precisei de terapia e de remédios. Mas também precisei da carne, do erro, do excesso. Precisei encher a cara, gritar, fumar e experimentar os meus próprios limites na tentativa desesperada de me fazer inteiro e fugir do peso do isolamento. Se hoje consigo olhar para as minhas mágoas e rancores passados sem o desejo de revivê-los, é porque compreendi que aqueles tropeços e aquela rigidêz defensiva eram as únicas ferramentas que eu tinha em mãos para mapear uma reação contra o mundo que me rejeitava.
A solitude não é universal, tampouco é uma via sacra obrigatória para o autoconhecimento. Ela varia da dor mais lancinante ao contentamento mais pacífico, abrigando abismos de divergências causais. Não há fórmula pronta. Minha reconciliação com o "estar sozinho" foi um processo gerado basicamente na intimidade do meu próprio silêncio, testando erros e acertos. Diante de certos aspectos estruturais da vida, a teoria e as recomendações clínicas perdem o compasso; o que resta é a nossa urgência em legitimar nossa condição humana.
Cinco anos após aqueles primeiros rascunhos, a solidão perdeu o caráter de urgência defensiva. Ela já não dói como doía antes. Deixei de nutrir o ressentimento por aquilo que não pôde ser e limpei a casa dos pesos mortos que só serviam para me manter preso a palcos dos quais eu já havia saído.
Reconhecer as falhas do passado não me diminui; ao contrário, valida a minha caminhada como alguém que, mesmo exilado, insistiu em existir. Hoje, livre da necessidade de aprovação e consciente das minhas rachaduras, sigo pronto para os encontros reais — aqueles que, longe das superficialidades impositivas, saibam respeitar a complexidade de quem aprendeu, na marra, a se acolher por inteiro.
Notas de Rodapé
1 Abdias Nascimento foi um intelectual, ativista, militante, ator, poeta, artista plástico e personalidade política brasileira. Foi criador do Teatro Experimental do Negro (TEN), produziu inúmeras obras que difundiram o multifacetado pensamento pan-africanista e, como parlamentar, foi responsável pela fomentação de políticas que visaram a diminuição das desigualdades raciais e de gênero.
2 Entrevista retirada do livro "Abdias Nascimento" da coletânea "Retratos do Brasil Negro", com 1ª reimpressão em 2020 pelo Selo Negro Edições. Disponível nas páginas 95 e 96.

