E eu ainda acho que quero saber o que você quer, o que você quis dizer, o que você queria de mim. Agora que aceitei sua ida, ficou mais fácil criar coragem para dizer que não pretendo voltar. E fica mais fácil de aceitar se você parar para pensar que no fundo tudo já estava definido.
Não vou mudar de opinião ao ler suas mensagens, não vou dissolver a minha decisão ao saber que sente minha falta, não vou deixar minhas crenças serem levadas ao vento quando olhar nos seus olhos e não pretendo deixar que palavras criem poder para dissuadir minha decisão. Eu escolhi permanecer na luz da minha escuridão, junto das certezas que detenho sobre mim, sobre o que espero de mim. As coisas já estão acertadas da forma que estão, então não sei o que você pretende tentando alcançar aquilo que considera ser o meu coração.
Sei quem você é e não tenho medo das suas investidas. Sei como seu poder de bagunçar o meu mundo ainda vive em cada uma das suas palavras. Não tenho medo das suas tentativas de manipular aquilo que sinto, assim como não temo mais a luz que clareia a minha escuridão. Não dependo mais da sua claridade, não dependo mais do seu calor, não dependo mais do seu amor.
Montei em mim um cantinho para a nossa história, pois não posso me deixar esquecer do caminho que tive que trilhar para fora do seu alcance. Ainda vejo a sua escuridão me fazendo pequeno, me fazendo sentir medo, me fazendo contestar meu próprio brilho. Sua imensidão ocupava um espaço grande demais e você sabia do poder que detinha em suas mãos. Não quero mais ter que pensar naquelas palavras carregadas de segundas intenções, saturadas de falsos perdões e munidas de inexistência.
Eu inexisti em você, não passei de objeto de decoração, não fui além de coadjuvante, não tive voz, não tive espaço para clarear a sua escuridão. Não pretendo voltar atrás, não pretendo reescrever a história que deixei de viver para tentar inserir as minhas perspectivas, não pretendo dar uma chance para o amor que não foi nutrido e nem regado.
Encontrei em mim a luz de que precisava para estar de bem com a solidão e, desde então, fui capacitado pelo tempo a coexistir com todas as possibilidades, com todas as cores, com todas as personalidades, com todas as perspectivas e com todos os sentimentos que nascem e vivem em mim. Eu sei quem eu sou agora.
LIMOÇÕES EDITORIAL: MARGENS, TÍTULOS E PERMANÊNCIA
Escritura em Processo
Este ensaio marca a continuidade do compromisso do Limoções com a curadoria de conhecimento e a denúncia institucional. Através da análise sobre o racismo e a docência, reafirmamos que a escrita é, antes de tudo, um ato de permanência e resistência política.
“Articula-se aqui a impossibilidade de neutralidade frente à injustiça. Entre margens e títulos, o corpo docente negro enfrenta a violência simbólica que tenta deslegitimar sua presença no espaço escolar. Este texto é o registro de que não seremos silenciados pelos meandros institucionais.”
— Tiago Lima, 2026.
Margens, Títulos e Permanência: Um Ensaio sobre Racismo, Violência Simbólica e Docência
TIAGO LIMA | ORCID: 0000-0001-6585-8268
RESUMO: Este ensaio analisa o racismo estrutural e a violência simbólica na instituição escolar, com foco na experiência docente. Articula fundamentação teórica à análise institucional para sustentar a responsabilidade ética da escola. Inclui a Carta Manifesto (2025) como anexo de memória e denúncia.
PALAVRAS-CHAVE: Racismo estrutural; Violência simbólica; Docência; Limoções; Escola.
Referência: LIMA, T. Margens, Títulos e Permanência. Limoções Editorial, 2026. DOI: 10.5281/zenodo.18455813.
PENTAPRISMA — UMA DÉCADA DE ESCRITA, OLHAR E DESVIO
Fotografia e escrita como práticas editoriais de pensamento
Ao longo de dez anos, o Limoções foi e continua a ser a casa da escrita e da fotografia — um lugar onde a experiência do mundo, a reflexão crítica e a produção de imagens convivem como modos de pensamento. Esta trajetória, densa e plural, consolidou-se como arquivo público e dispositivo editorial independente de escrita ensaística autoral.
A transformação do Limoções em um Editorial reconhecido e propositalmente plural e interseccional não é uma simples mudança de nome ou de formato: é a reafirmação de um compromisso ético com a produção de conhecimento que não apagou os atravessamentos culturais, identitários e políticos que nos constituem. Como editorial, o Limoções — agora sob um escopo mais amplo e institucionalizado — reivindica a legitimidade de saberes e práticas que historicamente foram marginalizadas pela rigidez acadêmica e pelos circuitos hegemônicos de circulação.
LIMOÇÕES EDITORIAL: INTERSECCIONALIDADE, PLURALIDADE AUTORIA E O TRABALHO DE UMA VIDA
Limoções: O Trabalho de uma Vida
O Limoções amadureceu. A organização por Eixos Editoriais agora substitui as antigas tags, refletindo nossa evolução para um projeto ainda mais plural, diverso e focado na curadoria de conhecimento.
“Tiago passou longos anos se reafirmando como autor. Com a criação do Limoções reforçou esse local, como escritor capacitado de normas e rotinas – detendo grande maestria em escrita técnica -, permaneceu convicto de seu lugar: escritor. Em um país carregado por meandros e por invalidações – pelo abandono da escrita online – fica registrado que a obra do Caju está sendo curada em duas frentes diferentes: a transformação em artigos científicos e na possível publicação de uma obra literária com um compendio daquilo que o Limoções abriga e trechos e textos inéditos. Para a escrita, não importa as imposições do mercado e da sociedade. Devidamente representado, faremos ao nosso alcance para dar continuidade ao que é e sempre será o trabalho de uma vida.”
— Nota sobre os Trabalhos Intelectuais (2025)
Interseccionalidade como Prática: Quando a negritude canta, escreve e se nomeia por meios próprios
TIAGO LIMA | ORCID: 0000-0001-6585-8268
RESUMO: Este ensaio propõe uma reflexão interseccional sobre escrita negra e identidade. Discute como sujeitos negros constroem formas próprias de conhecimento, utilizando o Limoções como arquivo editorial de escrita crítica e memória viva.
PALAVRAS-CHAVE: Interseccionalidade; Autoria; Eixos Editoriais; Limoções; Memória.
Referência: LIMA, T. Interseccionalidade como Prática. Limoções Editorial, São Paulo, 2026.
Entre a aceitação da dor e a resistência contra o vazio contemporâneo
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| A beleza não exige o sol; há uma verdade profunda que só floresce sob o peso do céu cinzento. |
A Redenção pela Infelicidade
Com o passar do tempo, fui deixando de lado o medo da infelicidade. Deixei de acreditar que minha tristeza conseguiria me descaracterizar, me destruir ou me abafar. De um tempo para cá, tenho preferido viver as minhas dores, sentir cada um dos meus medos e degustar o sabor das minhas mágoas. Talvez eu precisasse mesmo me conformar e aprender a conviver com as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, com as noites em claro pensando nos meus fracassos e com as frustrações que vivo diariamente.
Eu deixei de ver o dia ensolarado e me sentir culpado por não carregar um sorriso no rosto. Cansei de tentar descolorir meus dias para que eles fossem encaixados nas minhas dores e parei de tentar justificar cada uma das minhas mágoas. Não preciso mais buscar alimento para as minhas inquietações porque agora tudo parece devidamente justificado, vivido, absorvido e acertado. Não sou tão feliz quanto ontem e nem sei se serei tão feliz amanhã, mas sei que tenho o direito de viver as minhas aflições sem temer qualquer espécie de discurso encorajador ou a alegria de outrem que sempre me fazia sentir náuseas. Está tudo bem; eu posso caminhar pela vida de mãos dadas com a tragédia, com o desânimo, com o medo, com a angústia e com a insegurança.
A Ética da Realidade Interna
Não quero mais me dedicar integralmente ao fardo pesado de ter que me encontrar, me reconstruir ou me descaracterizar. Só preciso conviver com a escuridão que reside em mim, com as podridões que tentam me fazer pequeno, com os receios que querem me ver longe do caminho, sozinho e desamparado. Parece ser possível ser filho da aflição, ter um coração quebrado, ter energias negativas rondando cada uma das minhas esperanças e incertezas tentando devorar meus sonhos. Não parece mais errada a opção de aceitar conviver com o pior da vida, o pior de mim e com todos os piores pesadelos que atrapalham minha fé de funcionar.
Escolho caminhar com os pés no chão, sentindo o medo, a dor, a tristeza, a mágoa, a angústia e a aflição por ter cansado de comprar a ideia da transcendência feliz, da harmonia plena e da paz de espírito forjada por quem precisa provar que é feliz. Escolho ser o sentimento que me alcança hoje por ter me cansado de tentar engolir a mentira de que a felicidade e a tristeza são inimigas naturais. Sou triste. Sou infeliz. Sou uma pessoa normal.
O Vitrinismo da Atualidade
Desde que fui apresentado ao mundo da leitura, passei a me preocupar com o enriquecimento do meu vocabulário. Gosto de buscar palavras e significados; gosto de acrescentar sinônimos que quase não são utilizados em poemas e escritos. A língua, pelo menos no meu ponto de vista, não pode perder sua capacidade de ultrapassar gerações. Mas o que fazer quando todos ao seu redor parecem desinteressados com relação ao fato de que o mundo tem se tornado cada vez mais monossilábico?
Essa foi a pergunta que me alcançou certo tempo atrás. Não sei se de fato vivo no tempo certo, mas me incomodo muito com a superficialidade dos discursos e com o empobrecimento da língua como meio de diálogo. Já é sabido que as metamorfoses linguísticas e os jargões regionais também formam a dialógica em contextos sociais e culturais, mas será que sabemos ao certo o que tudo isso significa? O mundo parece estar caminhando para a criação de um novo dialeto: algo mais prático, que não demande tanto esforço mental e nem sequer careça de interpretação. As abreviações, os emojis e as opiniões sem embasamento roubam o espaço da leitura e do pensar. A língua vai perdendo valor, sentido e significados.
A Resistência pelo Pensamento
Neste mundo cheio de frieza, imediatismo e abreviações, tem se tornado escasso o interesse pela leitura e pelo simples desejo de possuir um livro em mãos. Na era do digital, a única coisa que parece tentar conduzir ao pensar são meia dúzia de produções audiovisuais que surgem pela necessidade de questionamento. Ainda vemos as inúmeras tentativas de diálogo levantadas por aqueles que acreditam no poder da fala serem derrubadas pela maior parcela da população, que não está disposta a viver o empoderamento do leitor, do interpretador, do pensador. As pessoas não parecem mais querer ter sobre o que falar, transparecendo uma necessidade sobrenatural de apenas "mostrar" algo. O vitrinismo da atualidade é vazio e sem valor; o desejo de compartilhar é cinza e frio.
Desde que fui apresentado ao mundo da leitura, passei a ler, a escrever, a fotografar e a criar maneiras de não me perder no imediatismo do mundo superficial em que tenho vivido. Sou colecionador de grandes desabafos, importantes poesias e sou escritor de textos importantes demais para serem abafados pela superficialidade do contemporâneo. Fica o questionamento: será que é possível viver enquanto a língua morre e a superficialidade cresce?
LIMA, Tiago. VIVA A INFELICIDADE. Limoções, 2019.
LIMA, Tiago. O VITRINISMO DA ATUALIDADE. Limoções, 2019.
PERMANECER NÃO É SORTE: IMAGEM, AGÊNCIA E A ÉTICA DA RESISTÊNCIA
Imagem, agência e a ética da resistência
O ensaio também se constrói a partir do reconhecimento de uma experiência de invisibilização relacional, na qual o sujeito foi reduzido à função decorativa, à coadjuvância afetiva e ao silêncio. Contudo, essa constatação não se converte em confissão nem em denúncia espetacularizada. Ela se transforma em método. As imagens recusam o excesso de dramatização e optam pela contenção, pelo gesto mínimo, pelo enquadramento que não implora leitura. Essa escolha dialoga com a ética da opacidade defendida por Édouard Glissant, para quem o direito de não ser totalmente decifrado é condição fundamental de dignidade.⁴A permanência, portanto, não é imobilidade. É sustentação. Sustentar uma escolha diante das tentativas recorrentes de reapropriação simbólica do passado. Sustentar um corpo que não se explica mais. Sustentar um olhar que não busca convencer. O tempo, nesse percurso, não apaga — ele capacita. Capacita a coexistir com a solidão sem carência, com a memória sem submissão e com a multiplicidade sem fragmentação.
Este ensaio não documenta um afastamento. Ele institui um limite. E é nesse limite — firme, silencioso e ético — que a imagem se torna linguagem de resistência e a escrita, exercício de agência.
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Referências conceituais (implícitas no texto)
² Fanon, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas.
³ Mbembe, Achille. Crítica da Razão Negra.
⁴ Glissant, Édouard. Poética da Relação.
Reflexões sobre o ato de escrever, a função da poesia no mundo e a conexão entre autor e leitor
Escrevo porque não sei fazer outra coisa que não seja organizar o caos em palavras. Não escrevo para explicar o mundo, mas para permanecer nele. A escrita nunca me exigiu justificativa, método ou finalidade; ela apenas aconteceu como um gesto de sobrevivência. Escrever sempre foi o lugar onde pude ser aquilo que não fui, dizer o que não disse e sustentar o que não tive coragem de viver em voz alta.
Com o tempo, compreendi que escrever não era apenas um movimento interno. A palavra, quando ganha corpo, deixa de pertencer a quem a escreve. Ela atravessa. Ela encontra. Ela provoca. E é nesse ponto que a escrita deixa de ser somente razão e passa a ser poesia — não como forma fixa, mas como atitude diante do mundo.
A poesia não pede licença. Ela aponta o dedo para a ferida, desmonta o silêncio confortável e transforma sentimento em matéria política, afetiva e humana. A poesia não existe para ornamentar a dor, mas para revelá-la. Por isso ela incomoda, porque não romantiza o que dói: ela expõe. E ao expor, cria vínculo. Autor e leitor se encontram não pelo que concordam, mas pelo que sentem.
E como a escrita constrói a vitória de quem não venceu e entrega o amor para aquele que nem sequer mereceu, escrevo sem me preocupar com as preocupações impostas pela escrita. É algo além da imaginação, algo que transborda o coração, algo que leva e eleva a alma para o outro lado da possibilidade e eterniza as emoções enraizadas no viver do sonhador (LIMA, 2019).
Escrever, então, deixou de ser apenas um gesto íntimo. Tornou-se também uma escolha ética. Usar a palavra como arma não é um ato de violência, mas de presença. A poesia ocupa os espaços onde nada parecia estar vivo. Ela constrói pontes entre experiências distintas, atravessa culturas, tempos e corpos. O poema não explica — ele provoca. E cada leitor decifra aquilo que está pronto para enfrentar. Escrever não é um ato de isolamento, mas de invasão. Minha poética é a estética do encontro: uma estrutura erguida sobre a dor e o desabafo que fala menos sobre mim e muito mais sobre a humanidade de quem me alcança.
Não escrevo para mim. Nunca escrevi. Escrevo porque a palavra precisa circular, porque o mundo é pequeno diante do que sinto e imenso diante do que consigo dizer. A poesia me ensinou que não existe sentimento pequeno demais, nem dor grande demais. Tudo pode ser matéria poética quando existe honestidade no gesto. Mas, entre o estrondo da arma e o silêncio da ferida, a poesia também sabe ser o pouso. Há dias em que a escrita não quer ser invasão, mas apenas companhia; um sopro leve que desorganiza o cabelo e nos lembra que, apesar de tudo, ainda respiramos. Nesses instantes, a palavra não busca o impacto, mas o encontro com o que temos de mais simples: o prazer de ver o mundo sem a urgência de decifrá-lo, permitindo que a vida apenas flua, mansa, entre uma vírgula e outra.
Entre escrever e fazer poesia, aprendi que não há oposição. Há continuidade. Escrevo para existir. A poesia existe para ser usada. E no encontro entre essas duas forças — a necessidade de escrever e a urgência de dizer — nasce um texto que não pede entendimento imediato, mas entrega presença. Porque, no fim, a poesia vai além das palavras. Ela permanece onde alguém, em algum lugar, ainda precisa sentir.
MARGENS, TÍTULOS E PERMANÊNCIA: UM ENSAIO SOBRE VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E FORMAÇÃO
Sobre trajetórias acadêmicas, exclusão e permanência
"Para Zaluar e Leal (2001), a violência que ocorre no ambiente escolar possui duas dimensões: a primeira, representada pela violência física e a segunda, representada por palavras ou atos que negam, oprimem ou destroem psicologicamente o outro. Dessa forma, embora a violência física tenha uma materialidade incontestável, é importante atentar para a dimensão moral das agressões que ocorrem entre os muros da escola e em seu caráter essencialmente simbólico e imaterial, bem como para o fato de que as práticas violentas no ambiente escolar não estão circunscritas às regiões precárias ou escolas públicas, atingindo também as escolas particulares em áreas privilegiadas (OLIVEIRA, 2008; SPOSITO, 2001)."
Grupos marginalizados e pessoas com características diferentes daquelas consideradas normais são destaques em espaços e figuram papéis importantes, viabilizando a interpretação e/ou leitura de outrem com base nos conceitos de rejeição ou aceitação. A aceitação do marginalizado é a forma menos comum dentro das convenções sociais, pois características marginalizadas são características questionáveis. A rejeição, comum e corriqueira, pauta e conduz a passagem e/ou permanência dos marginalizados dentro das convenções sociais e de espaços específicos. A lógica é sempre muito clara: marginal precisa permanecer às margens. Portanto, vamos usar uma das definições de:
"marginal
adjetivo
[Figurado] Que foi excluído da sociedade ou prefere viver fora dela."
O marginal como figura socialmente regulada
Não se enquadrar ou ser destaque. Quem está às margens vive extremos importantes sobre competências profissionais, acadêmicas, emocionais e psicológicas. A meta é sempre ser melhor que outrem — essa é uma condição estabelecida veladamente para aqueles que precisam cumprir o percurso do viver e almejar os méritos, as notas, os reconhecimentos e tudo aquilo que se faz necessário para possibilitar um futuro junto daqueles que não estão às margens. E é por esse prisma que se enxerga o marginal, pois ele precisa se empenhar mais, se entregar mais, se envolver mais e, por fim, ser mais testado, provocado e colocado em exposição. É uma ambivalência: é preciso se destacar, mas, quando se está em destaque, é necessário desocupar o palanque para alguém que naturalmente deveria estar ali.
Meritocracia, títulos e o mito da escolha universal
Percursos marginais no acesso à formação superior
Diferença, não pertencimento e poder
“Identidade não é uma política. A política começa quando você descobre que sua própria experiência não é a única.”— Haider, 2018, p. 23
Quando se fala em queda no ambiente acadêmico, fala-se de derrubada. Não há preparo institucional para acolher quem não se encaixa nos parâmetros das convenções sociais. A trajetória na graduação se aproximou de experiências vividas no ensino fundamental: bullying, perseguição sistemática e o ego ferido de alguns docentes produziram tensões e desconfortos constantes. Ser bom ou comprometido não constitui falha de caráter, mas parte da própria natureza.
Deixando desafetos de lado, chama-se atenção para quem deveria ser referência. Após a experiência de tornar-se professor, ser reconhecido como tal e ter valor afirmado por quem importa, o olhar se torna crítico e desconfiado diante de muitos que ocupam cadeiras na docência, na gestão e na direção.
Permanecer como gesto político
O percurso acadêmico narrado não se apresenta como exceção, mas como sintoma. Sintoma de um sistema que se afirma meritocrático, mas seleciona, exclui e hierarquiza corpos, vozes e trajetórias a partir de critérios racializados, classistas e normativos. O marginal, ao adentrar espaços formativos, não é avaliado apenas por desempenho, mas testado em sua permanência, legitimidade e direito de existir naquele território.
A universidade, enquanto instituição que deveria operar de forma crítica e emancipatória, frequentemente reproduz violências simbólicas. A negação do pertencimento, o silenciamento das diferenças e a patologização de trajetórias não normativas impactam diretamente a saúde mental de sujeitos marginalizados. Lélia Gonzalez já apontava o racismo como estrutural, cotidiano e institucional, operando exclusões naturalizadas nos espaços de poder e saber.
Nesse sentido, a permanência de sujeitos negros e periféricos na academia não se dá como concessão, mas como enfrentamento. Permanecer, concluir, ensinar e produzir conhecimento a partir dessas experiências constitui gesto político: reinscrever corpos historicamente marginalizados nos circuitos de produção de saber.
Ao deslocar o olhar da exceção para a estrutura, reafirma-se que a presença desses sujeitos não deve ser tolerada como benevolência institucional, mas reconhecida como direito. Não há neutralidade onde hierarquias raciais organizam a vida social. Há disputa de narrativas, de espaços e de legitimidade. Mais do que ocupar lugares, é preciso transformá-los — mesmo quando os muros já foram atravessados.
NOTA SOBRE OS TRABALHOS INTELECTUAIS DE TIAGO LIMA
“O Limoções é um projeto editorial independente no qual parte dos textos é publicada sob pseudônimos, como estratégia de escrita e experimentação autoral. Para fins de circulação acadêmica, os textos analisados são atribuídos a Tiago Lima, autor responsável pelo projeto editorial.”

Historicamente, pessoas pretas, LGBTQIA+, dissidentes ou
fora da academia sempre usaram pseudônimos como estratégia de:
- · proteção
- · liberdade
estética
- · sobrevivência
simbólica
- · circulação
sem vigilância
O problema não é o pseudônimo.
O problema é a rigidez acadêmica que finge neutralidade, mas exige rastreabilidade apenas de certos corpos.
CARREIRA
Seu trabalho dialogou diretamente com:
- sofrimento
psíquico
- racismo
estrutural como determinante social da saúde
- linguagem,
música e cultura como dispositivos de cuidado
- produção
simbólica como forma de resistência
Compatibilidade com:
- Saúde
Mental
- Saúde
Coletiva
- Determinantes
Sociais da Saúde
- Práticas culturais e cuidado em saúde
Educação / Estudos Culturais
- educação
antirracista
- formação
crítica
- leitura,
escrita e identidade
- música como prática pedagógica e cultural
Escritos em áreas diversas:
- professores
da educação básica
- pesquisadores
independentes
- profissionais da saúde dialogando com educação
Estudos
Interseccionais / Humanidades
- raça
- linguagem
- identidade
- autoria
- produção
cultural negra




