Resenhar álbuns musicais é uma tarefa que gosto de executar com comprometimento e atenção. Não farei uma análise faixa a faixa; prefiro que tenhamos uma conversa. A cantora brasileira, nascida em Araraquara, no interior de São Paulo, que aos 29 anos se encontra em evidência nacional e internacional, é a minha escolha para este texto. Liniker é, por si só, uma imagem de potência. Cheguei ao trabalho da artista ainda no grupo "Liniker e os Caramelows". Sonoramente, o grupo se destacava por composições bastante intimistas, voltadas ao jazz, blues, soul, black music e R&B. Seguindo a tendência do mercado, grupos musicais dificilmente conseguem se manter por muito tempo, tanto que, na última década, assistimos a um movimento de desmembramento de várias bandas relevantes. Enquanto Caramelows, o trabalho da artista era consumido majoritariamente fora do país. Tive que mencionar os Caramelows, mas paro por aqui, pois o tema renderia outra resenha. Aliás, o grupo existiu de 2015 a 2020.
Liniker também esteve em exposição para além da música. Enquanto compunha, cantava e ocupava espaços com seu grupo, definia sua imagem, sua marca, seu gênero e decidia se abriria sua vida particular para representar causas. Não se trata de uma informação meramente técnica sobre o talento da artista, mas é importante pontuar: Liniker é uma mulher trans. Trago essa menção em decorrência do início da visibilidade do grupo, quando Lili — apelido da cantora — ainda fluía visualmente sem grandes cobranças externas. Recordo-me de acompanhar a pressão exacerbada da comunidade para que a artista se definisse publicamente e assumisse uma identidade visual condizente com o gênero que expressava.
LINIKER: "Tudo foi um processo. Àquela altura, sentia que não tinha gênero. Não me identificava nem com “o” e nem com “a”. Até que um dia, li uma matéria sobre a banda e, ao ler “o cantor”, me senti incomodada. A partir de então, entendi que era “a” Liniker, a cantora.¹"
Voltamos ao que interessa: música. Exatamente em 9 de setembro de 2021, foi entregue ao mercado fonográfico brasileiro — como um verdadeiro presente — o álbum "Índigo Borboleta Anil". Antes de seguir, vale mencionar que o trabalho figurou como o Melhor Álbum de Música Popular Brasileira na versão latina do Grammy. Não costumo atribuir muito valor ao que essas premiações definem como "melhor", por questionar os critérios das bancas, mas, no caso de "Índigo", não tive como discordar. Tínhamos uma mulher preta devidamente reconhecida por seu talento, desempenho, cuidado e personalidade.
Quando a carreira solo foi anunciada, Liniker já tinha visibilidade e personalidade definida, o que gerou uma expectativa natural do público e do mercado. "Índigo Borboleta Anil" é um álbum inteiramente técnico, assertivo nas misturas de ritmos e cuidadoso no aspecto da personalidade. De acordo com a cantora, o título do trabalho vem do abstrato e de sua relação com a religiosidade. O abstrato na arte é aquilo que flui, que transita, que se compõe e se decompõe, que explora e não tem medo de ser.
Personalidades pretas e politizadas sempre decidem se vão incluir em suas letras algo além daquilo que poderia ser escrito na impessoalidade. "Clau" abre o álbum com intimismo, saudosismo e cotidiano. O cachorro de estimação, a alegria contida no vínculo entre tutora e Clau. Lembro-me de pensar: "Quem daria musicalidade ao que parece o latido de um cachorro?".
Se restavam dúvidas de que o álbum contaria uma história e teria um conceito, a segunda faixa deixa claro que Lili está musicalizando sua essência sem perder a intensidade. Em "Lili", a artista canta com tons suaves, inclusive em inglês, mantendo o timbre característico. Isso amplia a visão sobre a qualidade da engenharia musical em potencializar a voz marcante da cantora. Com uma letra curta, mas poderosa, ela utiliza um conceito importante na poesia e no audiovisual: a menção à água como renascimento. Se reencontrar, se habitar. O poder de ser.
Até aqui, temos uma artista cuidadosa nos detalhes. Essa é a característica que sempre espero em primeiros álbuns: preocupação com a técnica e a demonstração de referências. Escolhido como primeiro single e apresentado com um trabalho audiovisual deslumbrante, chego na faixa "Psiu". Tenho memórias afetivas com essa música como trilha sonora, além de o visual ter me despertado a analisar a preocupação do mercado com a iluminação da pele negra retinta.
Como acompanhei o lançamento do álbum, posso afirmar que "Psiu" pode ter sido incluída em "Índigo Borboleta Anil" de última hora. A produção do disco ganhou um pacote gráfico robusto, incluindo os chamados "visualizers". De todo modo, à primeira vista, a canção soa como uma balada romântica, mas a letra apresenta uma reflexão sobre a coragem, a vontade de explorar e de externalizar a nossa própria força.
Baby 95
Fecho nossa conversa sobre "Índigo Borboleta Anil" com o que considero a cereja do bolo e um prenúncio do que viria a seguir na vida artística de Liniker. O jeito de amar, visceral, ganha ritmo de balada romântica, remetendo à música preta de décadas passadas. A canção, criativamente, toma uma invertida e nos leva para outro gênero musical pelo qual a cantora é apaixonada.
Ao escutar CAJU, percebemos que aquela promessa feita em Baby 95 — de apresentar uma Liniker que talvez não conhecêssemos — não era apenas uma frase de efeito, mas o prefácio de uma nova era. Se em Índigo ela buscava o reencontro e a consolidação de sua voz e de seu corpo, em CAJU a artista se permite a experimentação sonora com uma liberdade que beira o desbunde.
A faixa "Tudo", escolhida como o principal single de estreia do álbum, estabelece o tom dessa transição. Com um arranjo que transita entre a sofisticação e uma certa crueza, a música funciona como um cartão de visitas de um trabalho que não tem medo de ocupar o espaço. É uma canção que equilibra a vontade de ser grande com a intimidade lírica, funcionando como o perfeito elo de ligação entre o que conhecíamos de Liniker e o que ela propõe agora: uma artista total, dona de si e de suas escolhas.
A faixa "Caju", que dá nome ao álbum, reforça esse movimento. Aqui, Liniker não está mais se definindo para o outro; ela está se celebrando. A sonoridade é solar, com arranjos que remetem à música brasileira de pista, mas com a sofisticação vocal que se tornou sua assinatura. É um convite para habitar o corpo com alegria, algo que, liricamente, ela vinha construindo desde o Anil, mas que aqui atinge seu ápice de leveza.
Outro momento de destaque é a colaboração "Negona dos Olhos", com o BaianaSystem. Essa parceria é um encontro potente de identidades musicais. A força percussiva característica do BaianaSystem se funde perfeitamente à voz de Liniker, conferindo à faixa uma textura densa, quase telúrica, que contrasta com a leveza solar de outras partes do álbum. A canção demonstra a maturidade da artista em transitar por gêneros, provando que sua versatilidade não é apenas técnica, mas também relacional, construindo pontes entre diferentes expressões da negritude brasileira.
A transição entre os dois trabalhos nos mostra uma Liniker que não apenas habita o palco, mas que agora domina a curadoria do seu próprio desejo e da sua sonoridade. O Anil foi o mergulho; o Caju é a colheita, o sabor ácido e doce de quem já não precisa pedir licença para ocupar nenhum espaço.
O trabalho de Liniker hoje, portanto, funciona como um espelho para quem a acompanha desde os tempos dos Caramelows. Ela deixou de ser apenas a "voz" para se tornar a arquiteta de um universo estético onde a negritude, a transgeneridade e a música popular brasileira convergem sem esforço. Ela nos ensinou que, quando se cuida do coração e se ama a alma, o resultado é uma obra que não apenas reverbera, mas que permanece.
Fica aqui o convite para que, ao ouvir o CAJU, o leitor busque as nuances deixadas pelo caminho. Liniker não tem fórmula, e é exatamente nessa ausência de receita que reside a sua genialidade.
