Existe um luto muito específico que não se veste de preto, não cumpre rituais sociais e jamais ganha as páginas dos jornais: o luto pelo fim de uma amizade que julgávamos eterna. Enquanto os rompimentos amorosos são cercados de explicações, ruidosos e legitimados pela dor coletiva, o desabar de um laço de anos acontece, muitas vezes, nas sombras do cotidiano. É um processo solitário, quase invisível aos olhos do mundo, que nos obriga a vagar pelas ruínas de uma história sem saber ao certo onde depositar a nossa dor. É a perplexidade diante do silêncio que se instala, abrupto e denso, entre duas pessoas que um dia souberam conjugar a mesma urgência, dividiram o peso da existência e partilharam uma intimidade que parecia imune ao tempo.
Custa caro o fim de uma amizade antiga. Não dessas moldadas pelas esquinas casuais da vida, mas daquelas costuradas à mão, com a linha grossa e tensa da resiliência. Sobrevivemos a invernos particulares, a tempestades que ameaçaram arrancar o teto, a segredos que só as nossas paredes sabiam guardar. Erguemos uma fortaleza que eu julgava sagrada, imune ao esquecimento. Como escreveu Hilda Hilst em seus Cantares, há desejos tamanhos que, se ganhassem a concretude do mundo, estancariam a própria vida em solidão. O nosso desejo, ali, era de eterna permanência.
"Porque há desejos tais Que se fizessem carne Tudo seria deserto"Mas o afeto também é feito de frestas. E, às vezes, de abismos. De repente, a linha foi cortada de um lado só. Sem o ruído de um aviso, sem a chance do abraço que abriga a saudade, sem o direito ao chão firme do diálogo. Uma decisão soberana, tomada na solidão de um julgamento unilateral, onde o veredito foi o sumiço. O outro decidiu, sozinho, que o nosso tempo havia expirado.
A escritora nos lembrava de que é preciso manejar a existência e o outro com uma paciência ancestral, um zelo quase sagrado. Mas como cuidar do humano quando o outro escolhe a retirada abrupta e sem rastro?
"É preciso cuidar do humano com uma delicadeza de milênios."É estranho caminhar por uma ponte que desabou na outra margem enquanto você ainda estava no meio do trajeto. Olhar para a frente e ver apenas a névoa. Fico aqui, com os bolsos cheios de histórias, piadas que perderam o endereço e uma coleção de afetos que já não têm onde morar. O que se faz com o carinho que sobra quando o outro decide que ele não tem mais utilidade?
O silêncio unilateral é uma forma sutil de violência poética: ele nos condena a falar sozinhos com o fantasma de quem ainda respira. Nega-se a chance do acerto, da curva, do perdão ou do Visualizar o último "obrigado".
A resiliência que ontem nos salvou, hoje me pede para acolher o deserto. Resta-me entender que algumas pessoas entram em nossa vida para serem teto, e outras, apenas vento — mesmo que o vento tenha soprado por anos. Olho para o vazio que ficou e, em vez de preenchê-lo com mágoa, escolho deixá-lo ali, como um monumento ao que fomos. Foi real. Foi bonito. E, agora, resta aceitar o desfecho hilstiano onde o excesso de sentido pacifica-se no esquecimento.
"Estarei entre as coisas decifradas E o teu nome será um nome qualquer"Referências Bibliográficas
- HILST, Hilda. Cantares de perda e predileção. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- HILST, Hilda. De amor e anarquia. São Paulo: Globo, 2003.
- HILST, Hilda. Exercícios de linguagem. In: Obra poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
