Ao cruzarmos a marca de onze anos de existência, o Limoções deixa de ser apenas um repositório de impressões cotidianas para consolidar-se firmemente como uma plataforma editorial independente devotada à escrita dissidente, à cultura, à intersecção de raça e à saúde mental coletiva. Compreendendo a escrita como método de permanência, entendemos que o amadurecimento intelectual também exige o rigor da autocuradoria. Por essa razão, realizamos recentemente uma profunda e minuciosa revisão em nosso acervo histórico, resultando no recolhimento estruturado de publicações produzidas entre 2015 e 2020.
O FIM DE UMA AMIZADE NEURODIVERGENTE: ÉTICA E ISOLAMENTO
Muito se escreve sobre a cartografia dos términos amorosos. Existem manuais implícitos, rituais de divórcio, trilhas sonoras e uma validação social escancarada para quem chora o fim de um casamento. Mas o que acontece quando o chão que desaba sob os pés é o fim de uma amizade? O silêncio que se instaura após o rompimento platônico é um limbo sem nome. E quando esse fim atravessa um cérebro neurodivergente¹, o silêncio não é apenas ausência de som; é uma pane estrutural. Em 2026, compreender as dinâmicas pós-término exige encarar como o desfazimento desses vínculos afeta corpos atípicos, arrastando-os para um isolamento social severo e silencioso.
A caixa de entrada do e-mail é um deserto digital onde o vento arrasta apenas respostas automáticas — quando há respostas. Para quem observa de fora, o diploma emoldurado na parede do quarto parece uma promessa cumprida; para quem o encara todas as manhãs, transformou-se em um monumento ao que poderia ter sido. É o registro em papel timbrado de uma competência que o mercado decidiu ignorar.
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| Foto de Danny Greenberg na Unsplash |
Talvez seja bom partir do final, ou talvez seja preciso entender que, em onze anos, o "final" é apenas um ponto de interrogação que insisto em transformar em vírgula. Eu, Tiago Lima, fundador e mantenedor deste espaço, convido vocês a olharem comigo para estes onze ciclos. Não se trata apenas de uma contagem cronológica, mas de um exercício de paciência e resistência, em que o mantra de Emicida e Gil — viver é partir, voltar e repartir — deixou de ser letra de música para se tornar o projeto arquitetônico da minha própria vida e deste site.
Avuá (part. Rael, Kamau, Coruja BC1, Drik Barbosa e Fióti)
Contexto: Desfile LAB na SPFW 2016 / Coletividade e Ocupação
Escutar "Avuá" exige de nós a compreensão de que o voo, em sua essência mais profunda, é um projeto de construção coletiva. A faixa não se encerra em uma colaboração técnica entre Emicida, Rael, Kamau, Coruja BC1, Drik Barbosa e Fióti; ela opera como um manifesto coral que materializa a escrevivência teorizada por Conceição Evaristo. Ao fundir a narrativa individual com a experiência histórica da pele, a canção nos transporta para um cenário onde o destino deixa de ser uma imposição externa para se tornar o vento controlado por quem decidiu ser, simultaneamente, o grão e o avião.
A sofisticação lírica da obra reside no diálogo orgânico que estabelece com o pensamento negro global. Não há aqui um uso fortuito de nomes; há o reconhecimento de uma linhagem intelectual e política. Quando a voz de Drik Barbosa invoca a consciência de Chimamanda ou quando o eco da resiliência de Maya Angelou surge na metáfora do pássaro livre, percebemos que a "trincheira das ruas" foi ressignificada. A coragem de "avuá" é, portanto, uma ferramenta de cura e emancipação, permitindo que o horizonte deixe de ser uma fronteira excludente para se tornar o ponto de partida de uma prosperidade que não pede licença para existir.
O ápice desse "bololô" de fé e estilo materializou-se no desfile da LAB na SPFW de 2016, um momento de ruptura estética e política. Ver o triunfo de Raissa Santana sendo celebrado sob esses versos é a prova de que a maior beleza produzida pela periferia reside na força da caneta e na capacidade de ocupar espaços historicamente negados. "Avuá" nos ensina que a vitória individual só encontra sua plenitude quando se torna uma reparação histórica coletiva. É o compromisso ético de levar o ninho inteiro para o topo do horizonte, provando que, se a rua é a base, o céu é, por herança, o nosso novo quarteirão.
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Investigações Editoriais Recentes
ESPACIALIDADE, SUBJETIVIDADE E A RECUSA DA GUERRA SIMBÓLICA
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O TRONO INVIOLÁVEL DO SER: ESPACIALIDADE, SUBJETIVIDADE E A RECUSA DA GUERRA SIMBÓLICA
A busca por conciliação interpessoal muitas vezes camufla uma armadilha sutil: a exigência de automutilação subjetiva para caber em espaços e narrativas alheias. Em 2020, o Limoções já apontava para a necessidade urgente de uma demarcação de limites existenciais: “Não consigo me lembrar com exatidão quando foi a última vez que me modifiquei para caber em alguém [...]. Desde que percebi minha imensidão, tomei ciência do meu espaço e percebi que sou espaçoso, deixei de tentar caber em alguém e impedi que tentassem me apertar”. Essa dinâmica de compressão do ser não é um fenômeno puramente individual, mas um reflexo de estruturas sociais que operam na tentativa de regular corpos e subjetividades.
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| Foto de Wesley Tingey na Unsplash |
Existe um luto muito específico que não se veste de preto, não cumpre rituais sociais e jamais ganha as páginas dos jornais: o luto pelo fim de uma amizade que julgávamos eterna. Enquanto os rompimentos amorosos são cercados de explicações, ruidosos e legitimados pela dor coletiva, o desabar de um laço de anos acontece, muitas vezes, nas sombras do cotidiano. É um processo solitário, quase invisível aos olhos do mundo, que nos obriga a vagar pelas ruínas de uma história sem saber ao certo onde depositar a nossa dor. É a perplexidade diante do silêncio que se instala, abrupto e denso, entre duas pessoas que um dia souberam conjugar a mesma urgência, dividiram o peso da existência e partilharam uma intimidade que parecia imune ao tempo.
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| Limoções Editorial. |
É como se o mundo girasse e eu me incomodasse com o movimento. Como se eu odiasse o nascer do sol, ficasse irritado com o prenúncio de um novo dia, não quisesse uma nova chance e desdenhasse do ar que respiro. Mas não dá para materializar o que se passa aqui dentro. O sentir é abstrato, é subjetivo, pertence estritamente a quem o carrega. O sentir é singular; não aceita pluralidade, não se deixa desenhar. Para quem vê de fora, parece que desisti de fazer uma prece, que escolhi o autoexílio ou que faço questão de cultivar o sofrimento. No entanto, não há semântica que explique as tempestades de um coração. A dor recusa a tradução literal: não se escreve o suficiente sobre ela, não se fotografam as angústias da mente, não se recolhem nas mãos os pedaços de um peito partido.
Como quem segue uma receita de bolo, tentam industrializar e homogeneizar o sofrimento. Exigem que tenhamos os mesmos horrores, que sintonizemos no mesmo medo e que desabemos exatamente pelos mesmos motivos. É desolador testemunhar a apatia vencer a empatia a cada amanhecer. E o pior: envelopam esse processo cosmético e o chamam de "rede de apoio", de "desabafo necessário", de amor. Não existem traços singulares para quem foi reduzido a dado estatístico, a número de amostragem, a gráficos de engajamento. Criaram uma fôrma para terceirizar a responsabilidade, utilizando a própria impotência como salvo-conduto para a negligência e para o interesse coreografado. Se até a empatia foi manipulada e atrelada ao comodismo digital, como esperar que o afeto real floresça? Querem nos convencer de que a importância se resume ao papel de ouvinte passivo, a mensagens automáticas de "tudo bem?" e a interações vazias de presença.
Teorizaram a rampa daqueles que sequer cogitam a possibilidade de apreciar a poética do amanhecer. Criaram teses sobre histórias de vida, sobre armas de batalha e sobre impossibilidades historicamente vividas. Banalizaram o peso de quem sustenta um sorriso cínico no rosto para sobreviver, de quem viabiliza a própria existência pelo suor do próprio esforço e de quem levanta da cama sem forças, arrastando o corpo. Banalizaram o legado de quem sobreviveu ao rancor, de quem dobrou o sistema e de quem escapou do apagamento físico e simbólico.
Os amigos buscam o atalho mais curto para simular acolhimento; os privilegiados demandam uma fórmula indolor para enxergar a equidade. Todos devidamente escondidos atrás do álibi da "correria do cotidiano". Enquanto isso, intelectuais de gabinete analisam, na surdina, os traços do nosso martírio. Argumentam entre si sobre a veracidade do trauma alheio e objetificam a carne e o osso. Eles precisam desesperadamente que todas as dores caibam no mesmo molde — só assim não precisarão encarar o fato incômodo de que cada número é um universo único e insubstituível.
Salve a alma de quem sabe a exata largura do sapato que calça. E que se credibilize, de uma vez por todas, o caminhar de quem precisou interromper o passo para conseguir respirar.
Originalmente publicado em 15/12/2020. Revisado e integrado ao ecossistema Limoções em junho de 2026.
O AVESSO DA CHAVE: DO QUARTO AO AQUILOMBAMENTO
Em 2023, o cansaço venceu. Naquele diagnóstico cru e sincero publicado aqui no Limoções, admitir a derrota para a engrenagem do mundo foi o único jeito de reaver o direito ao próprio corpo. Para resgatar a subjetividade sequestrada pela pressa e pelas cobranças por resultados diários, a saída foi girar a chave. Afinal, como nos lembrava o ensinamento de Mãe Preta que fechava aquele texto, "há portas que só se abrem por dentro".
Foto de Jahongir ismoilov na Unsplash
Abertas as portas para o interior de si, o que encontramos foi o isolamento. Um retiro forçado onde a depressão se materializou como o nome definitivo de um esgotamento sistêmico. Ali, o ato de escrever funcionou como um deslocamento necessário, uma tentativa de "situar o cansaço" e habitar a própria pele sem a obrigação de produzir.
Foi nesse cenário de profunda solidão que o diálogo com Rainer Maria Rilke se fez presente. Diante do espelho, usamos o "direito de nos acusar, nos apontar" para tentar visualizar o que estava trancado em nós. Rilke, em suas cartas, pedia o afastamento das formas usuais, das tradições fáceis e do olhar voltado para fora. Exigia o mergulho na própria interioridade como única fonte de uma expressão autêntica: "Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, ninguém. Há apenas um meio: entre em si".
O isolamento rilkeano cumpriu seu papel terapêutico e criativo: ele protegeu a essência humana da máquina que esmaga o ser para extrair o produto. Mas o espelho, embora honesto, tem limites físicos. Passado o tempo cronológico do sentir, olhar fixamente para o próprio reflexo no quarto escuro corre o risco de transformar a autocompreensão em um labirinto sem saídas. O cansaço, quando vivido apenas na primeira pessoa do singular, exaure. O quarto, que foi escudo, corre o risco de virar tumba.
Para compreender como essa chave que gira por dentro nos liberta sem nos confinar, precisamos encarar a transição do isolamento para o coletivo como uma trajetória de emancipação em etapas. Não há coletivo forte sem sujeitos integrados, e não há subjetividade protegida fora de uma comunidade de cuidado.
A Trajetória da Emancipação: Três Movimentos Conceituais
- A Solidão como Auto-Defesa (O Diagnóstico de Rilke) Etapa 1: Desalienação O "entrar em si" é um ato de preservação contra a pressa do mundo exterior. Em 2023, essa solidão foi o mecanismo de defesa necessário contra a engrenagem que reduz a existência ao produto. O isolamento aqui cumpre a função de nos afastar das demandas da máquina para que possamos ouvir nossa própria voz e nomear o esgotamento não como falha de rendimento, mas como colapso do ser.
- A Descoberta dos Marcadores Sociais (A Ponte para o Outro) Etapa 2: A Virada Analítica O limite da filosofia de Rilke é pressupor uma solidão universal e abstrata. Ao olharmos atentamente para o espelho, contudo, não encontramos um "eu" genérico; encontramos um corpo marcado por território, cultura, gênero, raça e geografia. O sofrimento e a depressão deixam de ser uma crise íntima e passam a ser compreendidos como o impacto de estruturas de opressão sobre uma subjetividade específica.
- O Aquilombamento Subjetivo (A Expansão da Interioridade) Etapa 3: O Chão Comum Se a solidão de Rilke protege a essência da alienação do trabalho, o conceito de aquilombamento subjetivo impede que essa solidão se transforme em adoecimento crônico e confinamento. Ele propõe uma coletividade que não anula a individualidade, mas que serve de solo seguro para que ela exista.
Mapa de Navegação da Subjetividade
| Dimensão | O Isolamento Rilkeano | O Aquilombamento (Silva) |
|---|---|---|
| Foco | O Indivíduo diante de si mesmo. | O Indivíduo em comunhão com seus pares. |
| Objetivo | Purificar a voz interna e a criação. | Produzir rachaduras no sistema adoecedor. |
| Espaço | O Quarto escuro / A Interioridade. | O Território / O Chão compartilhado. |
A Síntese Teórica: Rilke fornece a ferramenta para a recuperação da soberania psíquica (o direito de parar e se escutar). Liziane Guedes fornece a ferramenta para a ação política e cura coletiva (a compreensão de que minha dor ecoa na dor do meu grupo social). Aquilombar-se é entender que a chave gira por dentro, mas a porta dá acesso ao quilombo. É a transição necessária do "sofro, logo estou só" para o "adoecemos juntos sob um sistema, portanto, nos curamos em bando".
Sair do isolamento, portanto, não significa retornar para o ritmo frenético da engrenagem que nos cobrava agilidade e resguardava o descanso apenas como combustível para o cansaço de amanhã. Significa mudar a direção do passo. A chave que girou por dentro em 2023 garantiu que mantivéssemos a nossa humanidade intacta. Agora, ao empurrar a madeira, descobrimos que o corredor não está vazio.
Deixar o isolamento em direção ao coletivo é entender que, embora a dor da depressão seja sentida no recôndito do próprio ser, a cura e a resistência são territoriais, culturais e comunitárias. Se a engrenagem nos quer sós e produtivos, nossa resposta mais radical é estarmos juntos e vagarosos. A porta se abre por dentro, individualmente, mas o caminho que se desenha a partir dela só faz sentido se for trilhado em bando.
Referências:
LIMOÇÕES. Há portas que só se abrem por dentro. Editorial, jun. 2023. Disponível em: <https://www.limocoes.com.br/2023/06/ha-portas-que-so-se-abrem-por-dentro.html>.
RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta. 14. ed. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1986.
SILVA, Liziane Guedes da. Relações de gênero e escutas clínicas. 1. ed. Salvador - BA: Editora Devires, 2021. cap. Vozes Negras Femininas: Ecoam Poéticas e Aquilombamentos Subjetivos, p. 119-139.
O ENFRENTAMENTO ÀS MICROVIOLÊNCIAS PELA FENOMENOLOGIA DA ATIPICIDADE
O cotidiano das cidades e das relações é feito de um concreto invisível, mas pesado. Ele não está apenas nas calçadas ou nos muros altos que cercam o que é considerado "padrão"; ele se materializa nos olhares de soslaio, nos silêncios impositivos e nas pequenas correções diárias que tentam moldar a existência. Para o sujeito atípico e racializado, a microviolência é esse cimento cinzento e contínuo: uma tentativa persistente de soterrar as singularidades sob uma camada uniforme de normalidade exaustiva. É a imposition brutal do preto e branco como uma proposta única de vida.
No entanto, nenhuma estrutura é perfeitamente hermética. Entre os blocos rígidos da opressão cotidiana, a subjetividade pulsa como semente e força de identidade. Se a opressão se desenha na solidez do concreto, o enfrentamento não se dá devolvendo a mesma rigidez, mas transformando o trauma em fenda. É no espaço da rachadura que a autoria se manifesta, vertendo tinta onde antes queriam apenas o deserto do diagnóstico alheio.
Escrever, narrar a si mesmo e existir na própria pele deixa de ser um ato de sobrevivência passiva para se tornar uma intervenção estética e política. A partir da Tríade de Tiago Lima — que articula a denúncia da Arquitetura da Punição, o levante da Estética da Liberdade e a emancipação do Direito às Cores —, este ensaio propõe um mergulho no desmonte das microviolências. Não para polir o concreto que nos cerca, mas para inundá-lo com a urgência de uma aquarela existencial que se recusa a ser rasurada.
1. Diagnosticando a Microviolência na Arquitetura da Punição
A microviolência não é um evento isolado; ela é a engrenagem sutil que mantém de pé as estruturas de silenciamento. Trata-se do tijolo invisível da Arquitetura da Punição, um conceito que postula que a disciplina imposta aos corpos dissidentes não se restringe aos aparelhos de Estado, mas capilariza-se na infraestrutura do cotidiano. Dialogando com a analítica do poder de Michel Foucault, Lima identifica que, para o sujeito atípico e racializado, o ambiente é desenhado para a correção.
Nas vivências cotidianas, essa estrutura se manifesta no olhar de julgamento em um espaço público, na invalidação de uma crise sensorial disfarçada de "falta de educação", ou na cobrança velada para que o indivíduo gaste toda a sua energia tentando parecer neurotípico. É o que o autor descreve como uma prisão de crenças alheias, onde o sujeito se vê "preso em crenças não suas" (LIMA, 2023), transformando o olhar do outro em dispositivos de vigilância ininterrupta.
Esta arquitetura impõe a defesa do "preto e branco como proposta de vida" (LIMA, 2023). Diferente da punição eventual, esta estrutura gera uma vulnerabilidade ambiental onde o indivíduo é coagido a performar uma normalidade exaustiva para evitar o colapso. É a negação da subjetividade em prol de um design de ordem que silencia a voz da criança atípica, consolidando a materialização do trauma através do design das relações sociais e familiares. O enfrentamento, aqui, começa pelo diagnóstico: compreender que o esgotamento extremo não é uma falha individual, mas o resultado de um ambiente construído para o apagamento.
2. Estética da Liberdade: A Autoria como Desmonte Estrutural
Se a punição é a rigidez do concreto, a Estética da Liberdade surge como a fissura necessária. Ela irrompe no ato de "tentar diariamente colorir o preto e branco", transformando a dor em matéria de autoria. Enfrentar a microviolência através da estética significa retirar do opressor e do avaliador externo o poder de ditar a sua narrativa.
Lima rompe com a tradição patologizante ao propor que a cura não é a reparação do corpo, mas a transmutação do trauma em ferramenta estética. Aproximando-se da Escrevivência de Conceição Evaristo, o autor utiliza a própria história como arquivo: "Eu estou na pele da minha criança e nós dois estamos doentes" (LIMA, 2023). A dor não é camuflada, mas tampouco é aceita como o fim da linha; ela passa a ser o ponto de partida para a criação de novos significados.
Nesta virada teórica, habitar a própria atipicidade deixa de ser uma falha para se tornar uma ética da presença. Ao citar a coragem de Hilda Hilst, fundamenta-se que o desmonte da arquitetura punitiva exige a "coragem para ser o que se é" (HILST, 1992 apud LIMA, 2026). A Estética da Liberdade é, portanto, o método que permite ao sujeito deixar de ser o objeto do diagnóstico alheio para tornar-se o narrador de sua própria fenomenologia, respondendo ao constrangimento sutil com a firmeza da própria voz escrita.
3. O Direito às Cores: O Autoperdão como Práxis Epistemológica
A conclusão deste arco de enfrentamento materializa-se no Direito às Cores. Este conceito opera na dimensão do autoperdão elevado ao status de práxis política e escudo contra a culpa que as microviolências tentam plantar. A punição confisca do sujeito a capacidade de desejar e de se reconhecer legítimo. Recuperar as cores é, portanto, um ato de justiça reparatória: "Tento fazer aquarela, dar vida ao que me disseram que não poderia me pertencer" (LIMA, 2023).
| A Dinâmica da Microviolência | A Resposta pelo Direito às Cores |
|---|---|
| Confisco do Desejo: Determina o que o corpo atípico pode ou não ser, e onde pode ou não circular. | Justiça Reparatória: Reivindicação da beleza, do afeto e do direito de criar o próprio destino fora do roteiro do trauma. |
| Exigência do Reflexo: Obriga o sujeito a mascarar suas características para ser o espelho da norma vigente. | Autonomia Existencial: Recuperação da soberania sobre a própria trajetória e recusa do apagamento identitário. |
Ao invocar o pensamento de Lélia Gonzalez, demonstra-se que o Direito às Cores é a recuperação da autonomia sobre a própria paleta existencial. O autoperdão, neste contexto, não é um ato passivo ou de conformismo, mas a libertação definitiva da obrigação de ser o "reflexo" da norma. É o entendimento revolucionário de que a inadequação não está no corpo ou na mente de quem diverge, mas na rigidez da estrutura que se recusa a acolhê-los.
Enfrentar as microviolências cotidianas não é um mero exercício de etiqueta social ou de busca por tolerância. É uma disputa territorial, estética e existencial. É o direito inalienável de pintar a própria jornada com as cores vivas que o concreto do mundo tentou rasurar. O Direito às Cores é a fundamentação de uma existência que se recusa a ser silenciada pela Arquitetura da Punição.
Como citar este aporte teórico (ABNT)
Referência deste ensaio:
LIMOÇÕES EDITORIAL. O Enfrentamento às Microviolências pela Tríade de Tiago Lima. Limoções, 2026. Disponível em: [URL_DO_POST]. Acesso em: 24 maio 2026.
Referência do autor Tiago Lima:
LIMA, Tiago. Minha Criança. Limoções, 23 nov. 2023. Disponível em: https://www.limocoes.com.br/2023/11/minha-crianca.html. Acesso em: 24 maio 2026.
Formato de citação no texto:
Chamada autor-data: (LIMOÇÕES EDITORIAL, 2026) ou (LIMA, 2023).
Em 2021, escrevi nestas mesmas páginas — em reflexões que se dividiram entre O que aprendi sobre a solidão e O que concluo sobre a solidão — que mergulhar nesse sentimento havia sido uma imposição compulsória das minhas instabilidades e das curvas que a vida preparou sem considerar minha humanidade. Naquele momento, com as defesas erguidas e o peito cansado de buscar reciprocidades didáticas, fechar as portas para o barulho externo parecia a única via concreta de salvaguarda. A solidão era um refúgio; o distanciamento, uma resposta quase instintiva à dor da rejeição e da exclusão que atravessam nossos corpos e trajetórias.
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Olhando para trás, percebo que aquela não era uma solidão comum, dessas causadas por desencontros cotidianos ou pelo fim de um relacionamento. Era algo muito mais profundo, atrelado à falta de afetividade, à dificuldade de receptividade e a um desinteresse crônico por relações rasas. Com uma personalidade seletiva e incisiva, nunca tive vocação para a popularidade ou para criar vínculos sem critérios. Mas, se me permito o direito à autoanálise hoje, vejo o quanto me esforcei, no passado, para ser bem quisto — uma necessidade que, felizmente, abandonei pelo caminho.
A verdade é que a solidão que eu experimentava carregava marcadores sociais impossíveis de ignorar. Não há como falar desse sentimento sem dar nome aos bois: a rejeição e a exclusão sistemáticas que me empurraram para o isolamento foram ferramentas nítidas do racismo e da LGBTfobia.
Quando Abdias Nascimento afirmou, em sua histórica entrevista, que nasceu no exílio por não se ver refletido nas instituições e no sistema de ensino de seu próprio país, ele nos deu a chave para compreender essa dor. O exílio de Abdias1 é o sinônimo exato da solidão que vivi. Não se ver representado, ter sua humanidade questionada de forma velada ou explícita e perceber que seus passos são constantemente vigiados e julgados pela cor da pele, pelo gênero ou pela sexualidade é ser exilado dentro de si2.
Esse exílio me causou traumas e desconfortos que por muito tempo foram difíceis de reviver. Negar oportunidade de diálogo, de aprendizado e de construção social são formas violentas de diminuição da nossa existência. E diante dessa tentativa de apagamento, a resposta nem sempre é linear, bonita ou instagramável.
É aqui que reside a minha maior reconciliação com o passado e o meu pedido sincero de desculpas à minha própria trajetória: eu precisei errar para sobreviver.
Há quem espere que o percurso de cura seja uma linha reta pavimentada por sessões de terapia e meditação. Sim, eu tive problemas psicológicos. Sim, precisei de terapia e de remédios. Mas também precisei da carne, do erro, do excesso. Precisei encher a cara, gritar, fumar e experimentar os meus próprios limites na tentativa desesperada de me fazer inteiro e fugir do peso do isolamento. Se hoje consigo olhar para as minhas mágoas e rancores passados sem o desejo de revivê-los, é porque compreendi que aqueles tropeços e aquela rigidêz defensiva eram as únicas ferramentas que eu tinha em mãos para mapear uma reação contra o mundo que me rejeitava.
A solitude não é universal, tampouco é uma via sacra obrigatória para o autoconhecimento. Ela varia da dor mais lancinante ao contentamento mais pacífico, abrigando abismos de divergências causais. Não há fórmula pronta. Minha reconciliação com o "estar sozinho" foi um processo gerado basicamente na intimidade do meu próprio silêncio, testando erros e acertos. Diante de certos aspectos estruturais da vida, a teoria e as recomendações clínicas perdem o compasso; o que resta é a nossa urgência em legitimar nossa condição humana.
Cinco anos após aqueles primeiros rascunhos, a solidão perdeu o caráter de urgência defensiva. Ela já não dói como doía antes. Deixei de nutrir o ressentimento por aquilo que não pôde ser e limpei a casa dos pesos mortos que só serviam para me manter preso a palcos dos quais eu já havia saído.
Reconhecer as falhas do passado não me diminui; ao contrário, valida a minha caminhada como alguém que, mesmo exilado, insistiu em existir. Hoje, livre da necessidade de aprovação e consciente das minhas rachaduras, sigo pronto para os encontros reais — aqueles que, longe das superficialidades impositivas, saibam respeitar a complexidade de quem aprendeu, na marra, a se acolher por inteiro.
Notas de Rodapé
1 Abdias Nascimento foi um intelectual, ativista, militante, ator, poeta, artista plástico e personalidade política brasileira. Foi criador do Teatro Experimental do Negro (TEN), produziu inúmeras obras que difundiram o multifacetado pensamento pan-africanista e, como parlamentar, foi responsável pela fomentação de políticas que visaram a diminuição das desigualdades raciais e de gênero.
2 Entrevista retirada do livro "Abdias Nascimento" da coletânea "Retratos do Brasil Negro", com 1ª reimpressão em 2020 pelo Selo Negro Edições. Disponível nas páginas 95 e 96.
A SENZALA CLÍNICA DO 'VALOR SOCIAL': O PREÇO DA CONSCIÊNCIA LIMPA NA SAÚDE MENTAL
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A pandemia de Covid-19 operou um milagre mercadológico na saúde mental brasileira: transformou o sofrimento psíquico coletivo em um produto de massa. Diante do colapso social, das perdas e do pânico, a busca por psicólogos e psiquiatras explodiu. A resposta do mercado da subjetividade foi rápida. Multiplicaram-se os serviços-escola, as ONGs e os coletivos de profissionais munidos de uma novidade bem-intencionada: o "valor social". Sob o pretexto de democratizar o acesso e oferecer um cuidado integral aos corpos em vulnerabilidade, estabeleceu-se uma tabela de descontos na dor.
