A SOBERANIA DO SER SOB O RÓTULO DO NARCISISMO: UMA CRÍTICA À PSICOPATOLOGIA COLONIAL
Crítica técnica à patologização da autoestima preta e atípica, sob a ótica de Frantz Fanon e da ética do cuidado diante da violência clínica médica.
No exercício da clínica e na gestão da própria existência, aprendemos que o diagnóstico raramente é um campo neutro. Recentemente, em um espaço que deveria ser de cuidado, fui confrontado com o rótulo de "narcisista"1 por um médico psiquiatra. A justificativa? Minha segurança, minha capacidade de me priorizar e o reconhecimento do meu próprio valor. Para um homem preto, adulto atípico e especialista em Saúde Mental, esse episódio não foi um equívoco clínico isolado, mas uma manifestação nítida da Violência Simbólica.
O Ego como Zona de Resistência
Frantz Fanon, em Peles Negras, Máscaras Brancas, nos ensina que o sistema colonial opera através da despersonalização. O projeto de dominação exige que o corpo negro habite uma "zona de não-ser", onde qualquer tentativa de afirmação do Eu é lida como desvio. Quando Fanon afirma que "o negro não é um homem" no imaginário do opressor, ele está apontando para o fato de que a humanidade e a autoestima nos são negadas por princípio.
"Permanecer em si mesmo diante das dificuldades não é um ato de vaidade; é uma estratégia de manutenção da vida."
Portanto, o caminho que percorri como criança atípica até alcançar o autoperdão não foi uma busca por vaidade. Foi a construção de uma fortaleza subjetiva. Para o adulto atípico e preto, a "segurança" não é um traço de personalidade herdado; é uma tecnologia de sobrevivência. Quando o olhar clínico rotula essa conquista como "narcisismo", ele está, na verdade, tentando restabelecer a "máscara branca" da submissão.
A Iatrogenia do Olhar Colonial
A crítica técnica que se impõe aqui diz respeito à Ética do Cuidado. Uma clínica que se pretende ética não pode ignorar os determinantes sociais e históricos que moldam a psiquê. Chamar de narcisista aquele que se recusa a ser fragmentado pelas dificuldades é uma forma de iatrogenia2 psíquica: o uso do saber médico para infligir um novo trauma.
A patologização da autonomia na psicopatologia clássica utiliza a "grandiosidade" como critério para o narcisismo. Contudo, na clínica decolonial, entendemos que o que o médico lê como grandiosidade é, na verdade, a estatura mínima necessária para que um corpo politizado não seja esmagado. Diante de um paciente que domina o referencial teórico e possui consciência de sua atipicidade, o clínico recorre ao rótulo para reaver a simetria de poder que ele julga perdida.
Fenomenologia da Atipicidade e a Liberdade
Minha existência é marcada pela atipicidade e pela negritude, dois vetores que a psiquiatria tradicional constantemente tenta "corrigir". A segurança que demonstro é o resultado da minha Proposição para uma Fenomenologia da Atipicidade: o direito de permanecer em mim mesmo, sem pedir desculpas pela complexidade do meu funcionamento ou pela firmeza da minha voz.
A Ética do Cuidado deve ser, antes de tudo, uma prática de reconhecimento. Se o clínico não consegue suportar a visão de um homem preto que conhece seu valor e se prioriza, o problema não reside na estrutura de personalidade do paciente, mas na patologia do olhar de quem diagnostica. Como nos lembra Fanon, o objetivo final da luta não é apenas a libertação da terra, mas a libertação do homem de sua própria alienação. Minha segurança é, portanto, o meu grito de liberdade.


