A SOBERANIA DO SER SOB O RÓTULO DO NARCISISMO: UMA CRÍTICA À PSICOPATOLOGIA COLONIAL

Por Tiago Lima - 12.4.26

Crítica técnica à patologização da autoestima preta e atípica, sob a ótica de Frantz Fanon e da ética do cuidado diante da violência clínica médica.

Fotografia da série PERMANECER: Imagem expressiva capturando a essência da resistência e permanência subjetiva.
Série PERMANECER, Limoções, 2026.

No exercício da clínica e na gestão da própria existência, aprendemos que o diagnóstico raramente é um campo neutro. Recentemente, em um espaço destinado ao cuidado, deparei-me com a classificação de "narcisista"1 emitida por um médico psiquiatra. A justificativa residia na minha segurança, na capacidade de me priorizar e no reconhecimento do meu próprio valor. Para um homem preto, adulto atípico e especialista em Saúde Mental, esse episódio evidencia a atuação direta da Violência Simbólica no espaço terapêutico.

O Ego como Zona de Resistência

Frantz Fanon, em Peles Negras, Máscaras Brancas, ensina que o sistema colonial opera por meio da despersonalização. O projeto de dominação exige que o corpo negro habite uma "zona de não-ser", na qual a afirmação do Eu é interpretada como desvio. Ao declarar que "o negro não é um homem" no imaginário do opressor, Fanon aponta a recusa estrutural da humanidade e da autoestima à população negra.

"Permanecer em si mesmo diante das dificuldades constitui uma estratégia de manutenção da vida."

O percurso desde a infância atípica até o autoperdão consolida uma fortaleza subjetiva. Para o adulto atípico e preto, a segurança atua como tecnologia de sobrevivência. Quando o olhar clínico rotula essa conquista como "narcisismo", busca-se restabelecer a "máscara branca" da submissão.

A Iatrogenia do Olhar Colonial

A crítica técnica sobre a Ética do Cuidado exige reconhecer os determinantes sociais e históricos que moldam a psique. A patologização de quem recusa a fragmentação psíquica configura iatrogenia2: o uso do saber médico para a imposição de um novo trauma.

A psicopatologia clássica utiliza o conceito de grandiosidade para caracterizar o narcisismo. Na clínica decolonial, compreende-se que essa postura expressa a estatura necessária para manter a integridade de um corpo politizado. Diante de um paciente que domina o referencial teórico e possui consciência de sua atipicidade, o clínico recorre ao rótulo diagnóstico para reaver a assimetria de poder na relação.

Fenomenologia da Atipicidade e a Liberdade

Minha existência é atravessada pela atipicidade e pela negritude, dois vetores frequentemente alvo de tentativas de correção pela psiquiatria tradicional. A firmeza demonstrada resulta da Proposição para uma Fenomenologia da Atipicidade: o direito de permanecer em si mesmo, sustentando a complexidade do próprio funcionamento e a clareza da voz.

A Ética do Cuidado fundamenta-se na prática do reconhecimento. A recusa clínica em aceitar a autonomia de um homem preto que conhece seu valor reflete as limitações do olhar de quem diagnostica. Conforme assinala Fanon, o objetivo central da luta abrange a libertação do ser humano da alienação. Essa segurança afirmada constitui uma expressão concreta de liberdade.

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1 Narcisista: No contexto clínico tradicional, refere-se a um padrão de grandiosidade e necessidade de admiração. Aqui, o termo é criticado por ser usado para patologizar a autoestima e a imposição de limites por indivíduos de grupos minorizados.

2 Iatrogenia: Estado de doença, efeito adverso ou complicação causado pelo próprio tratamento médico ou pela intervenção de profissionais de saúde, seja por ação, omissão ou erro de diagnóstico.

Referencial Teórico:

FANON, Frantz. Peles Negras, Máscaras Brancas. Rio de Janeiro: Fator, 1952.
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989.
LIMA, Tiago da Silva. Proposições para uma fenomenologia da atipicidade. Limoções, 2026.

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