O PESO QUE NÃO PRECISAMOS ENTREGAR: A INFÂNCIA, O TRAUMA E A ÉTICA DA INTERRUPÇÃO
O PESO QUE NÃO PRECISAMOS ENTREGAR: SOBRE AS CRIANÇAS QUE FOMOS E A ÉTICA DA INTERRUPÇÃO
Crescer, para muitos de nós, não foi um processo gradual de individuação, mas um imperativo de adaptação. Aprendemos cedo demais a ler a atmosfera de uma casa, a decifrar a geometria dos silêncios, a recalcar o choro e a sustentar papéis que excediam a nossa capacidade psíquica. A infância, que na formulação de Donald Winnicott deveria ser o território protegido do brincar e da ilusão necessária para a construção de um self autêntico, converteu-se em um exercício precoce de autopreservação e maturidade compulsória.
Para Winnicott, a saúde psíquica do sujeito depende de um ambiente "suficientemente bom", capaz de oferecer sustentação (holding) e acolhimento à vulnerabilidade original do ser¹. Quando esse ambiente falha ou se torna ostensivamente hostil, a criança é forçada a reagir prematuramente às pressões externas, interrompendo o seu próprio tempo natural de integração.
Essa ferida ganha contornos ainda mais profundos quando tensionada pelo pensamento de Grada Kilomba: a violência e o trauma não elaborados não permanecem estáticos no passado; eles se tornam fantasmas que habitam o presente, modulando as nossas relações afetivas². Quando o adulto impõe a linguagem da rigidez sobre a necessidade de ternura da criança — o que Sándor Ferenczi nomeou como a assimetria da confusão de línguas³ —, ocorre um golpe duplo. A criança aprende que, para sobreviver, precisa enrijecer-se, construindo uma carcaça de autossuficiência defensiva para proteger um núcleo psíquico extremamente vulnerável.
À medida que envelhecemos, somos confrontados com os vestígios dessa infância atropelada. O perigo ético surge no momento em que a dor do passado deixa de ser elaborada e passa a ser naturalizada como método pedagógico ou trunfo moral.
"Ter tido uma infância dura ou uma maturidade compulsória não deveria ser um manual de instrução sobre como tratar a geração seguinte, mas um lembrete do que nunca mais deveria se repetir. A maturidade emocional do adulto se mede justamente pela capacidade de oferecer a paciência que ele próprio não teve. Projetar a raiva dos nossos sentimentos reprimidos nos mais jovens não é 'educar para a vida', é só perpetuar um ciclo de rigidez que a gente não teve coragem de estancar em nós mesmos." (Tiago Lima)
II. O MITO DA "RIGIDEZ FORMADORA" E A PUNIÇÃO COMO HERANÇA
Existe um discurso social profundamente enraizado que tenta converter a aridez afetiva em virtude pedagógica. É o mito da "rigidez formadora", que confunde a casca defensiva com solidez de caráter e a obediência pelo medo com respeito autêntico.
É aqui que o pensamento de bell hooks encontra e ilumina a psicanálise winnicottiana. Em Tudo Sobre o Amor, hooks nos alerta que fomos socializados em uma cultura dominada pelo autoritarismo e pelo patriarcado, onde o conceito de amor é frequentemente pervertido e confundido com dominação e controle⁴. hooks argumenta que a dor e a coerção impostas aos mais novos são quase sempre racionalizadas como sendo "para o próprio bem deles". Trata-se de uma pedagogia da violência que nega à criança o direito à dignidade e ao cuidado integral que Winnicott considerava essenciais para o desenvolvimento do ser humano.
Quando o adulto exige da criança uma dureza antecipada sob o pretexto de "prepará-la para o mundo real", ele está exercendo a lógica analisada por Frantz Fanon em suas críticas sobre a alienação⁵: a reprodução das estruturas de dominação internalizadas. O sujeito que foi moldado pela severidade passa a acreditar que a única forma de conferir valor ao outro é submetendo-o à mesma violência que o marcou.
A cobrança implacável sobre os mais novos revela-se, assim, como uma cobrança ressentida contra a nossa própria história. É como se o direito da criança ao brincar, ao erro e à leveza agredisse a memória da nossa dor não chorada.
III. O AMOR COMO PRÁTICA DE LIBERTAÇÃO E A INTERRUPÇÃO HISTÓRICA
Romper essa herança exige aquilo que bell hooks conceitua como o amor como ética e prática de libertação. Amar uma criança, sob essa perspectiva, não significa ausência de limites ou permissividade ingênua, mas a garantia de um espaço seguro onde o ser possa se manifestar sem a ameaça constante do abandono ou da punição violenta. É traduzir o holding winnicottiano em ação política e afetiva consciente.
Sigmund Freud assinalou que aquilo que não é lembrado e elaborado é fatalmente atuado na forma de repetição⁶. Interromper o fio condutor da rigidez exige a coragem de suportar o luto pela infância que nos foi roubada, sem exigir que as gerações futuras paguem o pedágio pelo nosso desfalque emocional. Restituir aos mais jovens a possibilidade da espontaneidade, da imaginação e do tempo dilatado é uma recusa ativa da barbárie.
IV. O ABRAÇO TARDIO
Honrar a história que nos trouxe até aqui não significa santificar a dor que atravessamos, mas recusar categoricamente a sua transmissão. A verdadeira força e autoridade do adulto não se afirmam na imposição do medo ou na projeção do ressentimento, mas na capacidade ética de oferecer a sustentação e o afeto que faltaram no seu próprio percurso.
Que a gente consiga olhar para os mais jovens e enxergar neles não o pretexto para a repetição, mas a oportunidade de restauração. Ao oferecer a eles a paciência, a escuta e a ternura que nos foram negadas, não estamos apenas educando para a liberdade: estamos, finalmente, oferecendo um abrigo seguro e um abraço tardio à criança que ainda habita em nós.
- ¹ Holding (Sustentação): Conceito winnicottiano que descreve a função do ambiente em prover suporte físico e psíquico contínuo à criança, permitindo a integração do self.
- ² Fantasmas da Memória: Na formulação de Grada Kilomba, refere-se ao modo como as memórias do trauma não elaborado reaparecem e se encenam no cotidiano.
- ³ Confusão de Línguas: Formulação de Sándor Ferenczi para caracterizar o choque traumático entre a linguagem da paixão/rigidez do adulto e a linguagem da ternura infantil.
- ⁴ Amor como Prática de Liberdade: Tese de bell hooks que define o amor não como mero sentimento, mas como uma ação consciente de escolha e compromisso ético contra a dominação.
- ⁵ Dominação Internalizada: Análise de Frantz Fanon sobre como o sujeito submetido à violência reproduz as dinâmicas do opressor nas suas próprias relações.
- ⁶ Compulsão à Repetição: Conceito freudiano que explica a tendência do psiquismo em repetir experiências traumáticas não elaboradas.
- FANON, Frantz. Peles negras, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Fator, 1983.
- FERENCZI, Sándor. A confusão de línguas entre os adultos e a criança (1933). São Paulo: Martins Fontes, 2011.
- FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
- HOOKS, Bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Todavia, 2021.
- KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
- WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Indexação Científica
Este ensaio foi revisado, chancelado e indexado de forma permanente no repositório científico Zenodo.
DOI → 10.5281/zenodo.21726071Como citar este ensaio
LIMA, Tiago da Silva. O peso que não precisamos entregar: a infância, o trauma e a ética da interrupção. Limoções, Campinas, v. 1, n. 1, p. 1-5, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.21726071.
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