'VOCÊ NÃO É PROBLEMA MEU': NEURODIVERGÊNCIA E DESCARTE

Por Tiago Lima - 17.7.26
[ acervo vivo : 11 anos de limoções ]
Este ensaio integra a cartografia comemorativa de 11 anos do Limoções, constituindo um exercício de escavação, arqueologia textual e releitura crítica dos arquivos da plataforma. Ao tensionar a memória e cruzar os escritos de 2024 com o tempo presente, a palavra se reafirma enquanto território de permanência histórica. Para percorrer as ruínas e as construções dessa jornada, visite a página do Acervo Histórico.

Quinze anos de escrita representam o arquivamento contínuo de ausências e a conversão do desterro em literatura. Para quem opera sob a lógica da intensidade, em que o sentir recusa os amortecedores da normatividade e assume a crueza da atipicidade, a existência sofre tentativas compulsórias de asfixia. Sujeitos chegam, transitam pela história, assustam-se com a voltagem do ser e retiram-se. O contorno dessas partidas guarda uma perversidade cirúrgica: o abandono se consolida como um castigo colonial por meio de violências aplicadas para delimitar o sujeito. Diante da recusa da escrita e da mente em aceitar a domesticação, a autonomia aterroriza e o outro escolhe a renúncia do afeto.

Fotografia em preto e branco de alto contraste e com forte desfoque de movimento, registrando a silhueta borrada de uma pessoa vestindo casaco escuro, que caminha por um ambiente urbano confuso, cercado por estruturas sombrias e uma luz branca intensa estourada ao fundo.
Imagem conceitual: O trânsito das ausências e a crueza do estado invisível. Foto de Li Lin na Unsplash.
"Eu penso no meu local hoje como um grande vale tomado por neblina. Não vejo direito e não quero que me vejam. Como não sei quem e/ou o que caminha/transita pelo meu vale, vou me defender de tudo que puder. Essa é a palavra: defesa. Quando a gente caminha o suficiente para se perceber vulnerável, a gente também se torna capaz de perceber o que a vulnerabilidade causa..." , Diálogos com o Arquivo: "Deve ser uma questão sensorial" (2024)

As partidas foram precedidas por tentativas explícitas de fratura. Antes do afastamento, foram lançadas violências destinadas a delimitar a existência: domesticação afetiva, silenciamentos morais e punições disfarçadas de bom senso, mobilizados para cercar o território e podar excessos. O ápice desse processo materializou-se no veredito colonial de recusa: "Você não é problema meu". Nessa formulação, o outro exime-se da responsabilidade relacional e decreta a desumanização do sujeito atípico. O abandono se efetivou diante da constatação de que o corte não provocaria a mutilação definitiva do ser.

A soleira da porta estabelece um limite político. Impedir o retorno de quem optou pela partida constitui a aplicação direta do conceito de Lélia Gonzalez sobre assumir o próprio falar em primeira pessoa. Trata-se da demarcação do território da existência contra a expectativa do descarte estrutural. A estrada da partida encerra o caminho de volta, uma vez que o tempo da resistência recusa afetos sazonais e conveniências normativas.

O Medo do Espelho e o Silêncio dos Pares

A dimensão mais severa do abandono reside no silêncio daqueles que partilhavam o cotidiano e temiam a caneta. Os relacionamentos interpessoais eram marcados pelo receio de que as dinâmicas fossem registradas e de que as máscaras caíssem sob o gume da palavra. A estrutura racista e neuroformada opera negando o direito à complexidade e à autoria, esperando a manutenção do monólogo domesticado, da passividade ou do mutismo. A escrita dissidente gera pânico quando se recusa a ser palatável ou ornamental.

O temor do espelho inviabilizou a leitura e a compreensão por parte daqueles que alegavam afeto. O acolhimento recuava exatamente no ponto em que a autonomia literária e intelectual começava, priorizando o desconhecimento seguro em detrimento da revelação provocada pelo olhar historicamente relegado à periferia. A psicanalista Neusa Santos Souza demonstra que a recusa em corresponder às expectativas alheias resulta em isolamento afetivo sistemático1. A aceitação da presença permanece condicionada a que a palavra não ameace a condescendência colonizadora.

O Desterro como Extensão do Genocídio Simbólico

O pensamento de Abdias do Nascimento nomeia essas agressões. A tática de asfixiar o transbordamento, cercar, patologizar e empurrar o indivíduo para a margem após o fracasso da domesticação integra a engrenagem do genocídio simbólico. A estrutura social e as subjetividades por ela capturadas atuam para desorganizar mentes e vínculos afetivos. Lançam-se ferramentas de delimitação moral e, diante da integridade do sujeito, o desterro surge como punição. A engrenagem busca projetar a solidão como adequação ou derrota, encobrindo o fato de que ela decorre da recusa consciente à colonização.

Frente ao projeto de soterramento, a escrevivência teorizada por Conceição Evaristo orienta a produção. A escrita emerge das fraturas, das marcas atípicas e da memória coletiva de sobrevivência. Registrar a própria vida a partir da neurodivergência e da negritude afirma-se como insurreição estética e política. A frase "você não é problema meu" permanece na literatura como a atestação da falência moral de quem a proferiu.

Manter a produção no Limoções há mais de uma década confirma que a escrita atua fora da validação daqueles que partiram. Se a intensidade afugentou os que temiam o espelho, restou-lhes o deserto escolhido. As linhas permanecem povoadas pela própria presença, fincadas na ancestralidade e impermeáveis aos que se retiraram.

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1. A articulação dialética entre a perda do afeto e a recusa à submissão identitária dialoga com a tese de Neusa Santos Souza sobre o esforço do sujeito negro em estruturar sua autonomia em uma ordem que condiciona a aceitação ao silenciamento de suas especificidades existenciais e mentais. Voltar ao texto.

Referências Bibliográficas
  • EVARISTO, Conceição. A escrevivência de Conceição Evaristo: entre nós e nós. In: BARBOSA, Lúcia Regina (Org.). Escrevivências: identidade, gênero e raça na obra de Conceição Evaristo. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
  • GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
  • LIMOÇÕES. Deve ser uma questão sensorial. Ensaio publicado em 27 de junho de 2024. Disponível em: <https://www.limocoes.com.br/2024/06/deve-ser-uma-questao-sensorial.html>. Acesso em: 2026.
  • NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
  • SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Graal, 1983.

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