MARGENS, TÍTULOS E PERMANÊNCIA: UM ENSAIO SOBRE VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E FORMAÇÃO

By Tiago Ferreira - 21.1.26

Sobre trajetórias acadêmicas, exclusão e permanência

Silhueta humana refletida atrás de janelas opacas, sugerindo isolamento, invisibilidade e permanência em um espaço institucional.

A permanência em espaços institucionais nem sempre é visível.

"Para Zaluar e Leal (2001), a violência que ocorre no ambiente escolar possui duas dimensões: a primeira, representada pela violência física e a segunda, representada por palavras ou atos que negam, oprimem ou destroem psicologicamente o outro. Dessa forma, embora a violência física tenha uma materialidade incontestável, é importante atentar para a dimensão moral das agressões que ocorrem entre os muros da escola e em seu caráter essencialmente simbólico e imaterial, bem como para o fato de que as práticas violentas no ambiente escolar não estão circunscritas às regiões precárias ou escolas públicas, atingindo também as escolas particulares em áreas privilegiadas (OLIVEIRA, 2008; SPOSITO, 2001)."


Grupos marginalizados e pessoas com características diferentes daquelas consideradas normais são destaques em espaços e figuram papéis importantes, viabilizando a interpretação e/ou leitura de outrem com base nos conceitos de rejeição ou aceitação. A aceitação do marginalizado é a forma menos comum dentro das convenções sociais, pois características marginalizadas são características questionáveis. A rejeição, comum e corriqueira, pauta e conduz a passagem e/ou permanência dos marginalizados dentro das convenções sociais e de espaços específicos. A lógica é sempre muito clara: marginal precisa permanecer às margens. Portanto, vamos usar uma das definições de:

"marginal
adjetivo
[Figurado] Que foi excluído da sociedade ou prefere viver fora dela." 

O marginal como figura socialmente regulada

Não se enquadrar ou ser destaque. Quem está às margens vive extremos importantes sobre competências profissionais, acadêmicas, emocionais e psicológicas. A meta é sempre ser melhor que outrem — essa é uma condição estabelecida veladamente para aqueles que precisam cumprir o percurso do viver e almejar os méritos, as notas, os reconhecimentos e tudo aquilo que se faz necessário para possibilitar um futuro junto daqueles que não estão às margens. E é por esse prisma que se enxerga o marginal, pois ele precisa se empenhar mais, se entregar mais, se envolver mais e, por fim, ser mais testado, provocado e colocado em exposição. É uma ambivalência: é preciso se destacar, mas, quando se está em destaque, é necessário desocupar o palanque para alguém que naturalmente deveria estar ali.

Meritocracia, títulos e o mito da escolha universal

Graduação. Aquele que se gradua recebe o diploma, se forma, ganha um título. Título. De que mais se basearia a vida? Os títulos, vistos como méritos, anunciam uma pessoa com intelecto sobre determinado assunto e, quanto mais títulos, mais intelecto se presume ter. Eles viabilizam a ocupação de espaços, a evidenciação de prestígio e colocam — aquele que se prova — em cargos, funções e patamares valorizados. Locais. Pertencimento.

A graduação — palavra que inaugura este parágrafo — é uma experiência. Em uma lógica simplificada, existe a ideia de que se pode escolher o que se quer ser, planejar como será e fazer acontecer. Pode-se graduar em uma instituição pública ou privada, dedicar-se a estar em locais almejados, sonhados, projetados como parte de um percurso de vida.

Percursos marginais no acesso à formação superior

Falar sobre escolhas retoma a visualização das perspectivas do marginal conceituado no início deste texto. Sonhar, planejar, querer e fazer acontecer não são possibilidades universais. Nem todo sonho pode ser realizado. O marginal pode estar na potência da realização, mas o corre e o peso são outros.

A partir desse ponto, apresenta-se um percurso vivido. O ingresso ocorreu em uma universidade particular, após prova classificatória em 2º lugar, com obtenção de bolsa de estudos. Não fazia parte das possibilidades daquele contexto custear o ensino superior. Mesmo com a bolsa, os gastos persistiam. A bolsa de 50% foi mérito. Relembrar esses detalhes faz parte da ressignificação positiva da memória. Marginal. Periférico. Curso técnico concomitante à graduação, trabalho para custear estudos e contribuir em casa. Aluno. Filho. Estudante. Trabalhador. Marginal. Um percurso que não singulariza, mas aproxima de muitos outros semelhantes.

Diferença, não pertencimento e poder

Ser diferente. Divergir. Não estar na pluralidade, mas na singularidade. Quem se é não coube no espaço acadêmico. Aprende-se desde cedo sobre o próprio lugar e sobre como tratar as figuras que vestem o poder sobre corpos, presentes e futuros. Lélia Gonzalez foi referência fundamental para o reerguimento dentro da graduação.

“Identidade não é uma política. A política começa quando você descobre que sua própria experiência não é a única.”
Haider, 2018, p. 23

Quando se fala em queda no ambiente acadêmico, fala-se de derrubada. Não há preparo institucional para acolher quem não se encaixa nos parâmetros das convenções sociais. A trajetória na graduação se aproximou de experiências vividas no ensino fundamental: bullying, perseguição sistemática e o ego ferido de alguns docentes produziram tensões e desconfortos constantes. Ser bom ou comprometido não constitui falha de caráter, mas parte da própria natureza.

Deixando desafetos de lado, chama-se atenção para quem deveria ser referência. Após a experiência de tornar-se professor, ser reconhecido como tal e ter valor afirmado por quem importa, o olhar se torna crítico e desconfiado diante de muitos que ocupam cadeiras na docência, na gestão e na direção.

Permanecer como gesto político

O percurso acadêmico narrado não se apresenta como exceção, mas como sintoma. Sintoma de um sistema que se afirma meritocrático, mas seleciona, exclui e hierarquiza corpos, vozes e trajetórias a partir de critérios racializados, classistas e normativos. O marginal, ao adentrar espaços formativos, não é avaliado apenas por desempenho, mas testado em sua permanência, legitimidade e direito de existir naquele território.

A universidade, enquanto instituição que deveria operar de forma crítica e emancipatória, frequentemente reproduz violências simbólicas. A negação do pertencimento, o silenciamento das diferenças e a patologização de trajetórias não normativas impactam diretamente a saúde mental de sujeitos marginalizados. Lélia Gonzalez já apontava o racismo como estrutural, cotidiano e institucional, operando exclusões naturalizadas nos espaços de poder e saber.

Nesse sentido, a permanência de sujeitos negros e periféricos na academia não se dá como concessão, mas como enfrentamento. Permanecer, concluir, ensinar e produzir conhecimento a partir dessas experiências constitui gesto político: reinscrever corpos historicamente marginalizados nos circuitos de produção de saber.

Ao deslocar o olhar da exceção para a estrutura, reafirma-se que a presença desses sujeitos não deve ser tolerada como benevolência institucional, mas reconhecida como direito. Não há neutralidade onde hierarquias raciais organizam a vida social. Há disputa de narrativas, de espaços e de legitimidade. Mais do que ocupar lugares, é preciso transformá-los — mesmo quando os muros já foram atravessados.

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ZALUAR, Alba; LEAL, Maria Cristina. Violência extra e intramuros: o caso das escolas públicas do Rio de Janeiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 16, n. 45, p. 145–168, 2001.

OLIVEIRA, Dalila Andrade. A violência nas escolas e suas implicações. Educação & Sociedade, Campinas, v. 29, n. 104, p. 539–560, 2008.

SPOSITO, Marília Pontes. Um breve balanço da pesquisa sobre violência escolar no Brasil. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 27, n. 1, p. 87–103, 2001.

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

HAIDER, Asad. Armadilha da identidade: raça e classe nos dias de hoje. São Paulo: Veneta, 2018.

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Nota editorial:
O presente ensaio dialoga com debates sobre educação, marginalidade e pertencimento, articulando experiência social e reflexão crítica como método de escrita.

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