Reflexões sobre o ato de escrever, a função da poesia no mundo e a conexão entre autor e leitor
Escrevo porque não sei fazer outra coisa que não seja organizar o caos em palavras. Não escrevo para explicar o mundo, mas para permanecer nele. A escrita nunca me exigiu justificativa, método ou finalidade; ela apenas aconteceu como um gesto de sobrevivência. Escrever sempre foi o lugar onde pude ser aquilo que não fui, dizer o que não disse e sustentar o que não tive coragem de viver em voz alta.
Com o tempo, compreendi que escrever não era apenas um movimento interno. A palavra, quando ganha corpo, deixa de pertencer a quem a escreve. Ela atravessa. Ela encontra. Ela provoca. E é nesse ponto que a escrita deixa de ser somente razão e passa a ser poesia — não como forma fixa, mas como atitude diante do mundo.
A poesia não pede licença. Ela aponta o dedo para a ferida, desmonta o silêncio confortável e transforma sentimento em matéria política, afetiva e humana. A poesia não existe para ornamentar a dor, mas para revelá-la. Por isso ela incomoda, porque não romantiza o que dói: ela expõe. E ao expor, cria vínculo. Autor e leitor se encontram não pelo que concordam, mas pelo que sentem.
E como a escrita constrói a vitória de quem não venceu e entrega o amor para aquele que nem sequer mereceu, escrevo sem me preocupar com as preocupações impostas pela escrita. É algo além da imaginação, algo que transborda o coração, algo que leva e eleva a alma para o outro lado da possibilidade e eterniza as emoções enraizadas no viver do sonhador (LIMA, 2019).
Escrever, então, deixou de ser apenas um gesto íntimo. Tornou-se também uma escolha ética. Usar a palavra como arma não é um ato de violência, mas de presença. A poesia ocupa os espaços onde nada parecia estar vivo. Ela constrói pontes entre experiências distintas, atravessa culturas, tempos e corpos. O poema não explica — ele provoca. E cada leitor decifra aquilo que está pronto para enfrentar. Escrever não é um ato de isolamento, mas de invasão. Minha poética é a estética do encontro: uma estrutura erguida sobre a dor e o desabafo que fala menos sobre mim e muito mais sobre a humanidade de quem me alcança.
Não escrevo para mim. Nunca escrevi. Escrevo porque a palavra precisa circular, porque o mundo é pequeno diante do que sinto e imenso diante do que consigo dizer. A poesia me ensinou que não existe sentimento pequeno demais, nem dor grande demais. Tudo pode ser matéria poética quando existe honestidade no gesto. Mas, entre o estrondo da arma e o silêncio da ferida, a poesia também sabe ser o pouso. Há dias em que a escrita não quer ser invasão, mas apenas companhia; um sopro leve que desorganiza o cabelo e nos lembra que, apesar de tudo, ainda respiramos. Nesses instantes, a palavra não busca o impacto, mas o encontro com o que temos de mais simples: o prazer de ver o mundo sem a urgência de decifrá-lo, permitindo que a vida apenas flua, mansa, entre uma vírgula e outra.
Entre escrever e fazer poesia, aprendi que não há oposição. Há continuidade. Escrevo para existir. A poesia existe para ser usada. E no encontro entre essas duas forças — a necessidade de escrever e a urgência de dizer — nasce um texto que não pede entendimento imediato, mas entrega presença. Porque, no fim, a poesia vai além das palavras. Ela permanece onde alguém, em algum lugar, ainda precisa sentir.


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