Eixo:

A CALMARIA DAS DESISTÊNCIAS: O SILÊNCIO COMO FRONTEIRA E A ESCRITA COMO TRINCHEIRA

Por Tiago Lima - 9.2.26
Fotografia em tons frios de uma pessoa solitária em um barco pequeno, navegando por águas calmas sob um céu nublado, simbolizando o distanciamento e a introspecção descritos no ensaio.
Dessa vez você está me deixando velejar para longe, e isso definitivamente não é ruim, mas eu gostaria de saber se em algum momento você aparecerá para me dizer que estou longe demais. Não pelo controle, não pela posse, mas pela confirmação de que ainda existe um ponto de retorno reconhecível entre nós. Eu não quero que você me deixe ir simplesmente por se sentir esgotada das minhas decisões arbitrárias, nem por estar cansada de sempre ser vitimada pela minha austera incapacidade de lidar com sentimentos. Há uma diferença profunda entre permitir o afastamento e desistir da travessia, e é exatamente nesse intervalo que me perco.

Eu não tenho certeza absoluta de nada — e talvez essa seja a única honestidade que ainda me resta —, mas te vejo a cada dia mais distante, mais fria, menos entusiasmada com aquilo que um dia nomeamos como construção. O que foi erguido parece agora apenas lembrado, nunca revisitado. Daqui onde estou, já não consigo mais te ver nem te ouvir. A distância não é apenas geográfica ou afetiva, é também simbólica: o silêncio se impôs como idioma comum. Portanto, se você também decidir ir para longe, que seja assim — não como abandono, mas como constatação. Vamos juntos, mesmo que separados.

Tenho velejado por um mar relativamente calmo desde que você aceitou que eu iria me afastar, mas a calmaria engana. O corpo segue, mas o fôlego falha. Tenho tido dificuldades para respirar por não ter te falado tudo o que sentia, por ter deixado palavras acumularem-se como sal no peito. A cada nova tempestade que enfrento, sufoco com tudo aquilo que você nem fez questão de saber — não por crueldade, talvez, mas por cansaço. E o cansaço, quando se instala, também escolhe o que merece escuta.

Sei que você decidiu aceitar a minha partida e sei também que isso não mudou muita coisa em sua vida. O mundo seguiu, os dias se organizaram, as rotinas se recompuseram. Mas será que eu não merecia mais ser contrariado? Será que não merecia resistência, fricção, conflito? Há ausências que só existem porque ninguém tentou impedir que elas acontecessem. Meu silêncio e o seu podem até coexistir, podem até se harmonizar na aparência, mas isso só se sustenta se houver um gesto que rompa a distância. É necessário que você venha me buscar — não como resgate, mas como prova — e me mostre que estarmos longe não é, de fato, inevitável. Sei que talvez seus melindres prefiram me ver sufocar longe de você, e sei também que, se isso acontecer, tudo continuará exatamente igual. A indiferença tem essa habilidade: conservar a ordem enquanto corrói o sentido.

Aposto que, se eu ainda tivesse algum valor, não estaria nesse mar frio e deserto que você deixou que eu me aventurasse. Não quero que a culpa desse afastamento recaia sobre alguém específico, porque culpas individuais são atalhos fáceis para problemas estruturais. De maneira certa ou errada, eu sempre tentei lidar com as suas idiossincrasias, compreendê-las, acomodá-las dentro do que eu conseguia sustentar. Você parece ter se cansado de não poder ver o que acontece dentro de mim — e talvez isso seja intolerável: lidar com aquilo que não se traduz facilmente em gestos ou certezas. Esse cansaço te colocou contra a parede quando minhas dores começaram a escapar pela boca.

Sei que dei tiros e facadas para todos os lados. Palavras também ferem, e eu não nego isso. Não peço que aceite nada de peito aberto, nem que normalize a violência do excesso. Ainda assim, tudo agora me parece deslocado, fora de eixo, e é por isso que escrevo. Digo exatamente como estou me sentindo porque a escrita se tornou o único espaço onde consigo existir sem pedir licença. Faço uso dessas construções textuais porque tenho certeza de que você lê — e ler, mesmo em silêncio, ainda é uma forma de presença.

Você poderia, aí mesmo do seu barquinho, me dar algumas respostas. Ou simplesmente responder a alguns desses textos. Não como solução, mas como reconhecimento. Também fui esfaqueado e baleado dezenas de vezes. Ainda assim, quando valia a pena, eu permanecia. Eu lutava para tentar entender os porquês de tudo estar acontecendo, insistia em decifrar os ruídos, em não reduzir o outro ao erro. Portanto, peço a você que tente fazer um pouco disso. Mesmo que para você já não valha mais a pena. Mesmo que seja apenas para ouvir — não para concordar, não para ficar —, mas para reconhecer que ainda há algo sendo dito.

Originalmente publicado em 24/02/2017. Revisado e integrado ao ecossistema Limoções em fevereiro de 2026.

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