Você está vendo a curadoria do eixo:
Café
A pausa como rito. Textos para serem lidos enquanto a fumaça sobe da xícara — um intervalo necessário para o encontro casual entre a pressa do mundo e o fôlego da alma.
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| Limoções Editorial. |
É como se o mundo girasse e eu me incomodasse com o movimento. Como se eu odiasse o nascer do sol, ficasse irritado com o prenúncio de um novo dia, não quisesse uma nova chance e desdenhasse do ar que respiro. Mas não dá para materializar o que se passa aqui dentro. O sentir é abstrato, é subjetivo, pertence estritamente a quem o carrega. O sentir é singular; não aceita pluralidade, não se deixa desenhar. Para quem vê de fora, parece que desisti de fazer uma prece, que escolhi o autoexílio ou que faço questão de cultivar o sofrimento. No entanto, não há semântica que explique as tempestades de um coração. A dor recusa a tradução literal: não se escreve o suficiente sobre ela, não se fotografam as angústias da mente, não se recolhem nas mãos os pedaços de um peito partido.
Como quem segue uma receita de bolo, tentam industrializar e homogeneizar o sofrimento. Exigem que tenhamos os mesmos horrores, que sintonizemos no mesmo medo e que desabemos exatamente pelos mesmos motivos. É desolador testemunhar a apatia vencer a empatia a cada amanhecer. E o pior: envelopam esse processo cosmético e o chamam de "rede de apoio", de "desabafo necessário", de amor. Não existem traços singulares para quem foi reduzido a dado estatístico, a número de amostragem, a gráficos de engajamento. Criaram uma fôrma para terceirizar a responsabilidade, utilizando a própria impotência como salvo-conduto para a negligência e para o interesse coreografado. Se até a empatia foi manipulada e atrelada ao comodismo digital, como esperar que o afeto real floresça? Querem nos convencer de que a importância se resume ao papel de ouvinte passivo, a mensagens automáticas de "tudo bem?" e a interações vazias de presença.
Teorizaram a rampa daqueles que sequer cogitam a possibilidade de apreciar a poética do amanhecer. Criaram teses sobre histórias de vida, sobre armas de batalha e sobre impossibilidades historicamente vividas. Banalizaram o peso de quem sustenta um sorriso cínico no rosto para sobreviver, de quem viabiliza a própria existência pelo suor do próprio esforço e de quem levanta da cama sem forças, arrastando o corpo. Banalizaram o legado de quem sobreviveu ao rancor, de quem dobrou o sistema e de quem escapou do apagamento físico e simbólico.
Os amigos buscam o atalho mais curto para simular acolhimento; os privilegiados demandam uma fórmula indolor para enxergar a equidade. Todos devidamente escondidos atrás do álibi da "correria do cotidiano". Enquanto isso, intelectuais de gabinete analisam, na surdina, os traços do nosso martírio. Argumentam entre si sobre a veracidade do trauma alheio e objetificam a carne e o osso. Eles precisam desesperadamente que todas as dores caibam no mesmo molde — só assim não precisarão encarar o fato incômodo de que cada número é um universo único e insubstituível.
Salve a alma de quem sabe a exata largura do sapato que calça. E que se credibilize, de uma vez por todas, o caminhar de quem precisou interromper o passo para conseguir respirar.
Originalmente publicado em 15/12/2020. Revisado e integrado ao ecossistema Limoções em junho de 2026.
Em 2021, escrevi nestas mesmas páginas — em reflexões que se dividiram entre O que aprendi sobre a solidão e O que concluo sobre a solidão — que mergulhar nesse sentimento havia sido uma imposição compulsória das minhas instabilidades e das curvas que a vida preparou sem considerar minha humanidade. Naquele momento, com as defesas erguidas e o peito cansado de buscar reciprocidades didáticas, fechar as portas para o barulho externo parecia a única via concreta de salvaguarda. A solidão era um refúgio; o distanciamento, uma resposta quase instintiva à dor da rejeição e da exclusão que atravessam nossos corpos e trajetórias.
Foto: Unsplash
Olhando para trás, percebo que aquela não era uma solidão comum, dessas causadas por desencontros cotidianos ou pelo fim de um relacionamento. Era algo muito mais profundo, atrelado à falta de afetividade, à dificuldade de receptividade e a um desinteresse crônico por relações rasas. Com uma personalidade seletiva e incisiva, nunca tive vocação para a popularidade ou para criar vínculos sem critérios. Mas, se me permito o direito à autoanálise hoje, vejo o quanto me esforcei, no passado, para ser bem quisto — uma necessidade que, felizmente, abandonei pelo caminho.
A verdade é que a solidão que eu experimentava carregava marcadores sociais impossíveis de ignorar. Não há como falar desse sentimento sem dar nome aos bois: a rejeição e a exclusão sistemáticas que me empurraram para o isolamento foram ferramentas nítidas do racismo e da LGBTfobia.
Quando Abdias Nascimento afirmou, em sua histórica entrevista, que nasceu no exílio por não se ver refletido nas instituições e no sistema de ensino de seu próprio país, ele nos deu a chave para compreender essa dor. O exílio de Abdias1 é o sinônimo exato da solidão que vivi. Não se ver representado, ter sua humanidade questionada de forma velada ou explícita e perceber que seus passos são constantemente vigiados e julgados pela cor da pele, pelo gênero ou pela sexualidade é ser exilado dentro de si2.
Esse exílio me causou traumas e desconfortos que por muito tempo foram difíceis de reviver. Negar oportunidade de diálogo, de aprendizado e de construção social são formas violentas de diminuição da nossa existência. E diante dessa tentativa de apagamento, a resposta nem sempre é linear, bonita ou instagramável.
É aqui que reside a minha maior reconciliação com o passado e o meu pedido sincero de desculpas à minha própria trajetória: eu precisei errar para sobreviver.
Há quem espere que o percurso de cura seja uma linha reta pavimentada por sessões de terapia e meditação. Sim, eu tive problemas psicológicos. Sim, precisei de terapia e de remédios. Mas também precisei da carne, do erro, do excesso. Precisei encher a cara, gritar, fumar e experimentar os meus próprios limites na tentativa desesperada de me fazer inteiro e fugir do peso do isolamento. Se hoje consigo olhar para as minhas mágoas e rancores passados sem o desejo de revivê-los, é porque compreendi que aqueles tropeços e aquela rigidêz defensiva eram as únicas ferramentas que eu tinha em mãos para mapear uma reação contra o mundo que me rejeitava.
A solitude não é universal, tampouco é uma via sacra obrigatória para o autoconhecimento. Ela varia da dor mais lancinante ao contentamento mais pacífico, abrigando abismos de divergências causais. Não há fórmula pronta. Minha reconciliação com o "estar sozinho" foi um processo gerado basicamente na intimidade do meu próprio silêncio, testando erros e acertos. Diante de certos aspectos estruturais da vida, a teoria e as recomendações clínicas perdem o compasso; o que resta é a nossa urgência em legitimar nossa condição humana.
Cinco anos após aqueles primeiros rascunhos, a solidão perdeu o caráter de urgência defensiva. Ela já não dói como doía antes. Deixei de nutrir o ressentimento por aquilo que não pôde ser e limpei a casa dos pesos mortos que só serviam para me manter preso a palcos dos quais eu já havia saído.
Reconhecer as falhas do passado não me diminui; ao contrário, valida a minha caminhada como alguém que, mesmo exilado, insistiu em existir. Hoje, livre da necessidade de aprovação e consciente das minhas rachaduras, sigo pronto para os encontros reais — aqueles que, longe das superficialidades impositivas, saibam respeitar a complexidade de quem aprendeu, na marra, a se acolher por inteiro.
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Notas de Rodapé
1 Abdias Nascimento foi um intelectual, ativista, militante, ator, poeta, artista plástico e personalidade política brasileira. Foi criador do Teatro Experimental do Negro (TEN), produziu inúmeras obras que difundiram o multifacetado pensamento pan-africanista e, como parlamentar, foi responsável pela fomentação de políticas que visaram a diminuição das desigualdades raciais e de gênero.
2 Entrevista retirada do livro "Abdias Nascimento" da coletânea "Retratos do Brasil Negro", com 1ª reimpressão em 2020 pelo Selo Negro Edições. Disponível nas páginas 95 e 96.
RESENHA: AS VANTAGENS DE SER INVISÍVEL | STEPHEN CHBOSKY
Adolescência, trauma e pertencimento em As Vantagens de Ser Invisível
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⚠️ ALERTA DE SPOILER
O romance As Vantagens de Ser Invisível, de STEPHEN CHBOSKY, estrutura-se a partir de cartas escritas por Charlie, um adolescente que inicia o Ensino Médio tentando reorganizar o próprio mundo interno. O recurso epistolar, mais do que escolha estilística, funciona como dispositivo psíquico: ao escrever para um destinatário anônimo, Charlie cria um espaço onde pode existir sem ser interrompido. Ele não fala diretamente ao mundo — ele escreve para suportá-lo.
A narrativa em primeira pessoa mergulha o leitor em uma subjetividade fragmentada. A voz de Charlie parece simples, por vezes ingênua, mas carrega densidade emocional e inteligência simbólica. Ele observa tudo: escuta os amigos, analisa as situações, percebe as dores alheias. Contudo, raramente se coloca. Sua condição de “invisível” não é apenas social — é estrutural. Ele ocupa a margem como quem ocupa um abrigo.
A amizade com Patrick e Sam representa a possibilidade de pertencimento. Pela primeira vez, ele experimenta ser visto — ainda que parcialmente. No entanto, mesmo nesse espaço de acolhimento, sua identidade permanece atravessada por lacunas internas que o leitor só compreenderá plenamente no desfecho.
Os temas abordados — sexualidade, homossexualidade, aoaborto, drogas, abuso, saúde mental — não aparecem como tese moral ou denúncia explícita. Eles surgem como experiência vivida. A força da obra está na naturalidade com que expõe a complexidade da adolescência sem reduzi-la a rótulos.
ADOLESCÊNCIA, TRAUMA E NARRATIVA
A adolescência é um período de reorganização identitária, no qual experiências passadas retornam para serem ressignificadas. Quando há trauma não simbolizado, essa reorganização pode ocorrer sob o signo da fragmentação. A escrita, nesse contexto, torna-se mecanismo de integração. Ao narrar, o sujeito tenta dar forma ao que ainda não tem linguagem.
Em Charlie, a carta funciona como contenção emocional: ele escreve para estruturar aquilo que não consegue dizer em voz alta. O romance sugere que a memória reprimida não desaparece — ela infiltra-se nas escolhas, nos afetos e na forma de estar no mundo.
O desfecho reorganiza retrospectivamente toda a narrativa. O que parecia apenas sensibilidade excessiva revela-se como mecanismo de defesa. A invisibilidade deixa de ser traço de personalidade e passa a ser estratégia de sobrevivência. O silêncio não é ausência — é proteção.
A TRILHA SONORA COMO EXTENSÃO EMOCIONAL
Há, ainda, um elemento que amplia a experiência do livro: sua trilha sonora. As músicas não funcionam apenas como referências culturais; elas são extensão da interioridade de Charlie. Elas dizem o que ele não consegue formular. Elas traduzem o que vibra sem nome.
A cena do túnel, ao som de “Heroes”, sintetiza essa dimensão: por alguns segundos, o tempo suspende, o corpo se expande e a sensação de infinitude se impõe. A música não acompanha a cena — ela é a cena.
Talvez por isso este seja, sem exagero, o meu livro favorito no mundo todo. Ele não fala apenas sobre adolescência; ele fala sobre aquilo que permanece não dito dentro de nós. É leve na linguagem, mas estruturalmente profundo. É delicado sem ser raso. É dolorido sem ser espetacular.
No fim, As Vantagens de Ser Invisível não é sobre desaparecer — é sobre sobreviver até o momento em que se torna possível ser visto.
E talvez crescer seja exatamente isso: transformar o silêncio em presença.
TRILHA OFICIAL (YOUTUBE)
▶ “ASLEEP” – THE SMITHS (1985) ▶ “HEROES” – DAVID BOWIE (1977) ▶ “COME ON EILEEN” – DEXYS MIDNIGHT RUNNERS (1982) ▶ “TEMPTATION” – NEW ORDER (1982) ▶ “LANDSLIDE” – FLEETWOOD MAC (1975) ▶ “TIME OF NO REPLY” – NICK DRAKE (1987) ▶ “DEAR GOD” – XTC (1986) ▶ “TEEN AGE RIOT” – SONIC YOUTH (1988) ▶ “COULD IT BE ANOTHER CHANGE” – THE SAMPLES (1991) ▶ “GYPSY” – FLEETWOOD MAC (1982) ▶ “PEARL DROPS” – COCTEAU TWINS (1984)Você viu algum anúncio invasivo durante a sua leitura?
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A CALMARIA DAS DESISTÊNCIAS: O SILÊNCIO COMO FRONTEIRA E A ESCRITA COMO TRINCHEIRA
Originalmente publicado em 24/02/2017. Revisado e integrado ao ecossistema Limoções em fevereiro de 2026.
E eu ainda acho que quero saber o que você quer, o que você quis dizer, o que você queria de mim. Agora que aceitei sua ida, ficou mais fácil criar coragem para dizer que não pretendo voltar. E fica mais fácil de aceitar se você parar para pensar que no fundo tudo já estava definido.
Não vou mudar de opinião ao ler suas mensagens, não vou dissolver a minha decisão ao saber que sente minha falta, não vou deixar minhas crenças serem levadas ao vento quando olhar nos seus olhos e não pretendo deixar que palavras criem poder para dissuadir minha decisão. Eu escolhi permanecer na luz da minha escuridão, junto das certezas que detenho sobre mim, sobre o que espero de mim. As coisas já estão acertadas da forma que estão, então não sei o que você pretende tentando alcançar aquilo que considera ser o meu coração.
Sei quem você é e não tenho medo das suas investidas. Sei como seu poder de bagunçar o meu mundo ainda vive em cada uma das suas palavras. Não tenho medo das suas tentativas de manipular aquilo que sinto, assim como não temo mais a luz que clareia a minha escuridão. Não dependo mais da sua claridade, não dependo mais do seu calor, não dependo mais do seu amor.
Montei em mim um cantinho para a nossa história, pois não posso me deixar esquecer do caminho que tive que trilhar para fora do seu alcance. Ainda vejo a sua escuridão me fazendo pequeno, me fazendo sentir medo, me fazendo contestar meu próprio brilho. Sua imensidão ocupava um espaço grande demais e você sabia do poder que detinha em suas mãos. Não quero mais ter que pensar naquelas palavras carregadas de segundas intenções, saturadas de falsos perdões e munidas de inexistência.
Eu inexisti em você, não passei de objeto de decoração, não fui além de coadjuvante, não tive voz, não tive espaço para clarear a sua escuridão. Não pretendo voltar atrás, não pretendo reescrever a história que deixei de viver para tentar inserir as minhas perspectivas, não pretendo dar uma chance para o amor que não foi nutrido e nem regado.
Encontrei em mim a luz de que precisava para estar de bem com a solidão e, desde então, fui capacitado pelo tempo a coexistir com todas as possibilidades, com todas as cores, com todas as personalidades, com todas as perspectivas e com todos os sentimentos que nascem e vivem em mim. Eu sei quem eu sou agora.

punição¹
substantivo feminino
1.qualquer forma de castigo que se impõe a alguém, ger. uma criança, por falta cometida."p. demasiado severa não educa"
2.pena determinada por um juiz a quem cometeu um crime."o juiz pode determinar como p. sentenças alternativas"
3.figuradoalgo penoso ou desagradável que alguém é obrigado a suportar."ir às compras é uma p. para ele"
Começo esse texto com a definição da palavra que, pelo menos atualmente, performa como prática cotidiana na minha vida, nas linhas da minha história. Não é de hoje que esbarro com a punição na possibilidade de suas três definições. Desde criança - e vou descrever essa criança nas próximas linhas -, recebo apontamentos de reprovação e de "correção". Esquisito e diferente - palavras que podem até parecer sinônimos. A criança que me recordo, que está nítida na minha lembrança, foi o oposto da criança "planejada" e, supostamente, "desejada". Teoricamente, eu deveria performar aquilo que estava imposto ao meu gênero. Deveria me familiarizar com aquilo que era comum entre os meninos. Infelizmente, não me recordo de soltar pipa, de jogar fubeca, de ter uma coleção de cartas, de assistir Pokémon, de jogar futebol, futsal, vôlei ou qualquer outro esporte ou ocupação disponível e terrivelmente definida como masculina.
Hoje, pelo menos ainda exploramos em terapia, buscamos fortalecer a minha lembrança subvertendo aquilo que ficou na minha memória como traumático. Punição. Quando você não se encaixa, não performa, não corresponde às expectativas, não sobra nada além da punição. Falo abertamente, pois a criança que fui viveu e conviveu em espaços disfuncionais, com adultos disfuncionais e com práticas baseadas em letramento religioso, em vergonha social, em incapacidades de acolhimento, em práticas de demonização daquilo que fugia do controle ou se apresentava fora daquilo que estava pré-estabelecido. Nesse momento, eu poderia citar protagonistas desse inferno em que estive e vivi, mas deixo que você - leitor - identifique os responsáveis.

Uma criança calma. Na maior parte do tempo, calada. Uma criança seletiva. Uma seletividade que se caracterizava na escolha dos seus pares, nas brincadeiras e na maneira de se observar o ambiente em que estava inserida. Apesar de estar presa na disfunção do entorno, a minha criança combatia a absorção daquilo que já era identificado como opressor e limitante, usando recursos como os questionamentos persistentes. Eu era uma pedra no sapato dos adultos que estavam ao meu redor, pois questionar e exigir respostas é uma característica que ouço nos relatos daqueles que me assistiram. Tímido. Como existiam regras severas, a timidez, por vezes transformada em medo, limitava vontades e ceifava oportunidades. Quando o vizinho, um senhor idoso, me convidou a aprender a tear, não tive a chance de escolher. A partir daquele momento, daquela proibição, começou a definição de atividades masculinas e femininas - o inferno na minha história. Uma criança referência em aprender, cria de escola pública, diplomada como melhor, escolhida para participar de eventos com autoridades da cidade de origem. Uma criança obrigatoriamente temente ao que se definiu como Deus: "você obedece, você se comporta, você seja bom, você seja homem e Deus estará com você".
Enquanto criança, me recordo de seguir algumas das regras por obediência e outras por medo. O medo não constrói, ele pode servir de proteção e até mesmo para reflexão, mas o medo não constrói. E quando o medo se relaciona ao desenvolvimento de personalidade, características emocionais e afetivas, ele culmina na disfunção. Minha criança não reproduziu o que viveu. Minha criança experimentou as consequências daquele viver.
"A criança que me recordo, que está nítida na minha lembrança, foi o oposto da criança "planejada" e, supostamente, "desejada"."
Vamos nos situar, nomear lugares e seguir esse parágrafo. Qualificação é a palavra que vou usar para definir a minha passagem pela a educação. Devidamente qualificado, referência, profissionalmente capaz, carregado de atributos e perícia sobre os assuntos que me cabem e/ou me couberam. E na condição de aptidão e competência, me escorei para exercer o que me cabia: transmitir, partilhar e construir. Obviamente, de maneira jamais inquestionável, ser qualificado nunca será uma condicional sobre certificados e/ou diplomas. Cada um de nós está qualificado, possui seus atributos, suas competências - cada um no seu devido lugar, com seu domínio. Entretanto, para a formalização de ocupação de alguns espaços, a alforria será obrigatória. Alforria é um diploma, um certificado e uma chance de ser e de existir para muitos de nós.
E podemos seguir na linha de qualidade. Todos temos qualidade? As qualidades são iguais? As qualidades permanecem isoladas? Não, não são. Qualificar para ser qualificado. Se pensarmos numa educação que constrói, vamos encontrar uma grande lacuna e teremos que questionar a palavra qualificação. Não podemos e - eu não farei - retirar a definição de qualificação da condicional de qualidade, pois valido a qualificação e valido os processos necessários de verificação da qualidade. Entretanto, quando estamos avaliando o ser humano, o profissional, os desafetos, o gênero, as características inatas e tantas outras coisas que deturpam o processo avaliativo - aquele processo que busca validar sua qualificação por meio da avaliação da qualidade. A esta altura estamos discorrendo sobre qualificação profissional, desconectada da partilha, presa em processos unilaterais de avaliação de desempenho e que destituem potencias. Vamos, de maneira bem radical, trazer para o texto o que considero a palavra apropriada para a educação: replicar. É necessário que a qualificação - ou o qualificado - entenda que ser e/ou estar na educação, torna-se indissociável o ato de replicar.

Quero que essa reflexão seja feita de maneira bem técnica, sendo propositalmente afastada de qualquer possibilidade de recursos poéticos ou vieses emocionais. Falar de educação nesse momento, considerando a bagagem que carrego e os aprendizados que foram apreendidos, falo com toda convicção que já não estamos mais falando sobre educar. Estamos falando de um espaço reaça que foi afundado no conceito de "linha de produção", visando a entrega compulsória de resultados, indicadores, números e tantas outras cobranças que fazem o educar - ou o educador - replicar repressão, angústia, depreciação e suspeição. Iniciamos falando sobre qualificação, permeamos o meu conceito de alforria com o diploma/certificado como objeto de validação, mas agora podemos falar sobre como os senhores de engenho da educação, a classe dominante, manipula, maltrata, incutir terror e adentra campos de qualificação que não são de sua autonomia profissional.
"igualdade, liberdade, democracia e qualidade"
(LDB – Lei nº 9.394/1996)
Estudantes desconhecem os princípios, não são apresentados ao processo de estruturação, não reconhecem - na maioria dos casos - o seu papel nos processos de igualde e democráticos. Nas salas dos professores das unidades escolares em que estive, nos espaços destinados aos profissionais qualificados, a insatisfação toma espaço e, quando não direcionada ao que importa, vitimiza o principal ator do processo de ensino: o ser humano estudante. Não é algo difícil de se ouvir e ver - e estou falando do levante profissional contra adolescentes e jovens que são sistematicamente silenciados, rechaçados, desqualificados e subalternizados. A máquina precisa funcionar e não pode esmagar os profissionais qualificados, então o alvo se torna a fragmentação dos processos éticos e humanos, expondo crianças, jovens e adolescentes ao descrédito, ao aprendizado robotizado e afastado do diálogo.
Se esse local de entrega de resultados culmina na opressão dos profissionais e no medo de perder cargos, serem transferidos de unidade ou serem demitidos/exonerados, a luta deveria ser para a reversão de políticas opressoras. No entanto, a política cumpre seu papel tornando o oprimido o mais cruel opressor. Nesse ponto, inevitavelmente, já não falamos mais sobre educação.
“É necessário que os oprimidos, em sua luta pela libertação, não se tornem, por sua vez, opressores, mas restauradores da humanidade em ambos.”Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido

Uma frase bem comum que eu tenho utilizado é: estou sentado numa cadeira de pertencimento. O uso dessa frase também se aplica aos relacionamentos que vivenciei. Sendo bem sincere, me levantei de algumas cadeiras, deixei algumas mesas e fui convidade a me retirar de alguns espaços. O fato é que não fui seletivo e/ou rígido a ponto de finalizar vínculos ou coisa do tipo. Tenho comigo o valor do respeito e da dignidade - coisas que não podem ser feridas. Também trago um comportamento que atrelo ao valor de humanidade que reforço todos os dias: se alguém me diz que dói, então dói. Aprendi a não questionar a dor do outro, mas, pelo menos no meu contexto, não existe recíproca para isso. Vai parecer repetitivo, se você estiver acompanhando os textos, mas os adjetivos ainda estão presentes - e eles preenchem a linha do tempo do meu existir. No presente sou o mesmo de ontem - e serei o mesmo do futuro. No meu caso, não existe abertura para a expectativa de encontrar evolução, transformação e potencialidade. Estou sujeito a permanecer aprisionado nos meandros que foram experenciados por quem esteve ao meu lado, mas não consigo mais combater perspectivas e leituras que se escondem atrás de tratamentos que me ferem.
Queria que os olhos de outrem me dessem a chance de ser aquilo que já foi uma expectativa. Tivemos a chance de retomar o meu local de algoz e também tivemos a chance de tentar compreender papéis, situações e locais (está no plural por terem existido outras pessoas). Não posso permitir que me aprisionem no ontem. Batalhar constantemente para transcender o que doía em mim e em quem despontava como auxílio, ponto de segurança e referência de cuidado. Hoje, na mesma solidão que me enche, recebo com carinho uma frase importante que fora lançada: "eu não preciso de ninguém e caibo na minha solidão". Frase poderosa e que não se permite ser questionada ou tirada de contexto - pois é simples e direta. Quem se reafirma nesse local, se enche de poder para proferir algo desse tipo, sabe o que está dizendo e os porquês. Algo poderoso: se bastar. Com essa frase entoada, o mundo te vê com poder, e estar com poder é para poucos.
Entretanto, não estou mais no local de ser cuidade, pois o que me sobra é a lembrança rígida de quem não soube ser cuidade, não aproveitou e não cultivou. Logo, pensando nas minhas responsabilidades, se não fui capaz de ser cuidado, de demonstrar gratidão, também não mereço ter a chance de cuidar. Eu costumo explanar o cuidar e ser cuidade de um ponto de vista bem lógico: "a gente é ajudado ou ajuda quando fala". Se o silêncio é o recurso terapêutico de alguns, posso dizer que não foi meu caso.
Retomo o autoperdão. Me perdoar é uma ação tão exaustiva, mas importante para o continuar, pois sei que não performei de maneira satisfatória muitas coisas que estavam colocadas como expectativas que permaneciam projetadas sobre mim.
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E eu também descobri que posso chorar e não ter medo de ser olhado ou considerado exaltado demais. Sempre li minhas humanidades como potenciais desequilíbrios que precisavam ser mantidos contidos. Ninguém espera que uma pessoa preta de quase dois metros de altura demonstre certas emoções, sentimentos, comportamentos ou qualquer outra coisa que alguém sem minhas características poderia mostrar. Ainda não estou livre de determinados estereótipos ou de reações desproporcionais ao meu tom de voz, por exemplo. É maluco pensar que eu evitava ser por ter medo das consequências do meu existir. Porém não posso e não consigo ser na totalidade, não consigo pela reatividade dos ambientes em que estou ou pelos olhares de desconfiança que sempre são lançados sobre mim. A gente fica ressabiado e recuperar a autoestima, a confiança e o posicionamento requer tempo - e o tempo decorre diferente para cada um de nós. Passar despercebido, não dizer o que penso, não me ponderar, não me defender e não agir para que minha dignidade permanecesse intacta - esse foi e sou eu. Eu sou gente como qualquer outra, mas foi recentemente que tive coragem para tomar esse lugar. Tem sido um processo solitário com pitadas de companhias transitórias de pessoas, de leituras, de músicas. Ainda aprendo sobre ser humano. Ainda tem que tente capturar de mim a humanidade, diariamente, inclusive.
Não use esse tom de voz. Não diga a verdade.Não seja sincero.
De onde eu venho? Do local de onde eu não deveria sair. Vou evitar conceituar a minha realidade social e vou expor a minha realidade emocional. Eu não fui educado para me sentir, me entender ou me compreender e, por consequência, também não fui educado para me acolher. Quando a gente não se acolhe, a gente se escolhe. Quando a gente não se acolhe, a gente não se defende. Quando a gente não se acolhe, não consegue transformar solidão em solitude. Quando a gente não se acolhe, dá voz ao outro sobre aquilo que somos. Quando a gente não se acolhe, não aprendemos a nos posicionar. De onde eu venho? Do local de onde eu primeiro precisei sobreviver para encontrar na sobrevivência - em tempo - a possibilidade de aprender aquilo que ninguém me ensinou. Foi terapia? Foi. Foi escrita? Foi. Foi escutando o outro? Foi. Foi tentando ser, tentando permanecer, tentando estar, tentando me expressar, tentando construir pontes, tentando estabelecer diálogos e foi apenas sendo eu, cru, sem viés, sem manipulação ou articulação. Foi me enchendo de adjetivos negativos? Foi. Foi me expondo sem necessidade? Foi.
Vai demorar e vai custar energia, mas eu e você iremos deixar claro para todos que a humanidade compreende tudo que somos. Também pode custar algumas coisas, mas você e eu vamos aprender a dizer "tchau". A gente vai aprender que não se volta atrás em algumas situações e que não é possível desfazer aquilo que foi feito, dito ou lançado sobre nós e de nós para o outro.
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"Arrogante expressa uma característica negativa de um indivíduo que carece de humildade, que se sente superior aos outros. Ser arrogante significa ser altivo, prepotente, ter a convicção que é expert em vários assuntos e, por isso, não ter interesse em ouvir outras opiniões." (www)
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"A palavra assertividade deriva de "asserto", que significa uma proposição decisiva. Uma pessoa que demonstra assertividade é autoconfiante que não tem dificuldades em expressar a sua opinião.Assertividade é uma competência emocional que determina que um indivíduo consegue tomar uma posição clara, ou seja, não fica "em cima do muro". Uma pessoa assertiva afirma o seu eu e a sua autoestima, demonstra segurança e sabe o que quer e qual alvo pretende alcançar." (www)
Sabendo do meu lugar, dos meus locais de domínio - sejam eles profissionais, emocionais ou psicológicos - existo para aprender, para desfazer saberes e reconstruir saberes, para me mudar e transmutar, para estar certo daquilo que sou, acredito e defendo. A grandeza de alguém não deve ser medida, assim como não deve causar medo ou incômodos. Desconfortáveis sempre estão aqueles que me ouvem. O tom da minha voz é um problema. Posso ser cordial, posso ser educado, posso ser culto e respeitoso, mas o tom da minha voz - aliado às características de mim - causam repulsa. Eu levei um tempo para compreender que consigo me comunicar claramente, mas não depende de mim a recepção e interpretação daquilo que comunico. Faz um tempo que não absorvo mais determinados apontamentos, mas, quando sinalizam que fui adjetivado negativamente, ainda me dou o trabalho de fazer uma retratação. Eu poderia me sentir humilhado, ter meu ego afetado, mas a leitura daquilo que sou é subjetiva. Nunca, jamais, me desculparei pela existência de quem sou, mas, no quesito comunicação, compreendo que é uma questão bilateral. Recentemente, um dos meus alunos apontou:
"Professor, o senhor é direto. Isso não é uma coisa ruim."
Direto. Sempre claro. Não gosto de deixar espaços para o imaginário de outrem confabular a respeito daquilo que estou transmitindo, mas reconheço o direito de cada um em interpretar da maneira que é possível, que lhe cabe. Volto a falar sobre a grandeza. Meu aluno foi tão grande quanto eu. Eu estou rodeado pelos adjetivos negativos - eles até determinaram ações e interferiram na escrita da minha história. Hoje, sinceramente, eu consigo me adjetivar.
Se perceber como ser humano nos dias atuais é exercer a tarefa constante de compreender a nossa própria humanidade e aprender a delimitar espaços em razão da humanidade do outro. Estamos todos os dias aprendendo, mas não lembramos todos os dias que alguns de nossos valores, limites, crenças e regras não podem ser transgredidos. Memória. Volto a conceituar a memória como instrumento importante de validação de consciência. Vamos definir:
memória¹ - substantivo feminino
1. faculdade de conservar e lembrar estados de consciência passados e tudo quanto se ache associado aos mesmos.
3. aquilo que ocorre ao espírito como resultado de experiências já vividas; lembrança, reminiscência.
13. função geral que consiste em reviver ou restabelecer experiências passadas com maior ou menor consciência de que a experiência do momento presente é um ato de revivescimento.
14. termo geral e global que designa as possibilidades, as condições e os limites da fixação da experiência, retenção, reconhecimento e evocação.
Cada um de nós incide a vida de acordo com aquilo que temos disponível, mas também traçamos planos, almejamos metas e colecionamos sonhos. Tudo que parece potencial vai acontecendo enquanto aquilo que é inábil se desenvolve. E seguimos caminhando como se a potencialidade fosse uma consequência da nossa real existência - é isso que eu acredito. A consciência que a memória nos traz, sobre a luz daquilo que vivemos, nos capacita a não tolerar aquilo que não deve ser tolerável. A gente não nasce sabendo de limites e, geralmente, somos condicionados a replicar, a reproduzir - esse é o nosso primeiro aprendizado: reproduzir.
Chegamos na parte que desfazemos o primeiro ensinamento, ou atribuímos outro significado. E se a vida apresenta testes, provocações e desconfortos para que sejamos melhores que ontem? Eu, no meu local de existência, tenho uma única certeza: a vida não deveria doer, mas usar a partilha para ensinar e moldar quem quer que seja. Se a gente aceita a dor para acreditar que estamos nos tornando fortes, a gente vai se aprisionando no passado. O que é aceitável é uma lição e não um trauma. Não podemos esquecer das injustiças da vida. Podemos ser vitimas ou podemos escolher não tomar o lugar de vitimas, mas aquilo que ferir nossa dignidade tem que ser exterminado. Essa é a culminância da história.
Talvez agora sejamos capazes de assistir alguns propósitos queimando, enquanto limpamos a fuligem de outros que já terminaram seu ciclo de destruição pelas chamas. Reconhecer o fracasso ou o redirecionamento de rota dói pra caramba, mas a verdade é que ninguém deixou claro que essas são coisas inerentes ao ato de viver. É sempre esse o caminho: aprendemos depois de velhos. Não uso o envelhecer para nomear o conceito fisiológico da coisa. Envelhecer inclui a sagacidade colhida pelo caminho - e isso independe da idade de uma pessoa -, assim como inclui as ruinas e/ou construções deixadas na estrada. A gente é tão travado com essa história de frustração que evitamos até mesmo falar sobre o que não deu certo - como se a vitória fosse algo que estivesse exclusivamente relacionada com nossas habilidades existenciais.
E tem quem enterra seus próprios fracassos, não os queima para não chamar a atenção. Tem quem simplesmente escolhe fingir que um sonho não vai rolar, não tendo a atenção para ponderar a respeito de fatores que poderiam ter influenciado. O fato é que não é o caminho da vitória encarar o êxito como um mérito exclusivo para o sentir-se bem. Rico Dalasam cantou: "ser encontrado é o pior na guerra, mas se encontrar é melhor na paz!". As preocupações e as frustrações, assim como os temores e terrores, buscam todos que ainda idealizam a vida como uma obra de arte altamente protegida por sensores de presença, faixas de segurança, vidros de segurança e alarmes. Gosto de pensar no percurso em que guerreamos pela nossa história e não pela vitória. A vida é o conjunto da obra, mas alguns não precisam guerrear, então a gente precisa sempre exercitar nossa habilidade de retomar o olhar cuidadoso para tudo aquilo que chamamos de derrota.
"mas se encontrar é melhor na paz", quando nos tornamos capazes de assistir alguns propósitos queimando, perdemos parte daquilo que falta para alguns de nós como humanidade: dignidade. Mas alguns de nós só é capaz de perceber a paz do batalhar quando se encontra no desenvolvimento da sua própria história, quando se vê, finalmente, como o escritor do seu próprio livro. Quando fracassamos em conquistar, em construir, em assegurar, em simplesmente ter, questionamos o nosso local no passado, no presente e no futuro. A gente pega aquele acumulado de lições retiradas da derrota, mas sem qualquer espécie de chance de não parecer um derrotado, e quase que compulsoriamente precisa ressignificar, recriar, dar continuidade. Não, não acho justo que tenhamos que normalizar determinados fracassos, mas o que a gente faz com eles?
Se hoje eu pudesse escrever sobre vulnerabilidade, pudesse destrinchar a possibilidade de apenas estar vulnerável, me retiraria todos os adjetivos, recolheria adjetivo por adjetivo para analisar o que sobrou. A gente passa tempo o bastante para aprender a filtrar determinadas características, aceitar meia dúzias de defeitos, receber com afeto menos do que deveríamos de qualidades e assim seguimos sempre questionando o não estar vulnerável. Os adjetivos reforçam, colocam poder, revestem de possibilidades quem busca potencialidades, mas, na mesma intensidade, podem caminhar para uma perspectiva duvidosa se não aprendermos a alinhar seus devidos lugares.
O sentido da vida poderia se justificar se fôssemos capazes de reconhecer certas características. Pondero hoje sobre como tem sido difícil olhar para alguém ou para algo e pensar em um adjetivo, num sentido de qualidade. Somos treinados para o oposto das qualidades - tanto ao desenvolvê-las ou ao reconhecê-las. Não, não tenho as respostas certas para justificar os porquês de estarmos cerceados pela prática coletiva de reconhecer aquilo que não classificamos como bom, antes mesmo de conseguir enxergar o contrário. Suponho que tenha algo relacionado às expectativas que cultivamos, aos desejos que guardamos e aos projetos falhos de nós que sempre buscamos descartar em projeções sobre outrem. Parágrafo sincero e honesto que verdadeiramente me inclui, pois só estou amadurecendo o bastante para reconhecer e a valorizar adjetivos hoje.
Voltando ao parágrafo inicial e retomando a minha curiosidade em saber como seria estar despido dos adjetivos, questiono se você é capaz de nesse exato momento reconhecer uma qualidade e contrapor essa característica a um defeito, consegue? Sou uma das pessoas mais críticas que conheço, logo desfilo por aí cheio de meandros e até mesmo inseguranças. Minha visão crítica das coisas me ajuda com os limites que preciso permear para estar onde devo e para agir de acordo com os meus valores. Ser crítico não é sobre criticar, como se essa característica ecoasse apontamentos e ações de repressão diante da natureza de algo, do estado de algo ou só do existir das coisas. Me ver sem meus adjetivos hoje não me torna um ser humano atento aos seus próprios defeitos e que reconhece suas próprias qualidades, pois os adjetivos que coleciono hoje não me foram entregues na maternidade. Não me despirei daquilo que me tem por qualidade.
A queda - é assim que podemos nomear - faz parte da trajetória de alguns. Esse tombo é esperado para todes que estão no nível de visibilidade que a maldade taxa como inapropriada. A queda espera quem tem ramos floridos em todas as estações, quem tem voz em todos os discursos, quem tem posicionamento para ponderar a respeito da vida e de seus atravessamentos. Por fim, a queda espera quem tem na consciência o despertar da memória para simbolizar a passagem pelo mundo. A sensação é que a queda evita todes que se fazem se sonsos, de surdos e mudos. A gente quer garantir espaços seguros para ser, para estar, para simplesmente andar. A vida não nos apresenta a maldade, mas a maldade está intrínseca aos significados da vida - tomando formas e utilizando recursos ao seu próprio modo.
Rastejar também é caminhar, mesmo que isso signifique estar preso em desconfortos e assombros. Somos treinados para imaginar caminhos verticais, caminhos com uma única característica, caminhos padronizados e hegemônicos. Estar em pé é uma simbologia implantada no imaginário daqueles que precisam horizontalizar seus passos para atravessar aqueles obstáculos diários, para significar existências e para conseguir atribuir lucidez aos marcadores de causas, marcadores de vida. O que é estar em pé? Podemos responder a pergunta com tantas respostas, mas eu prefiro responder que estar em pé é ter a capacidade de continuar independentemente daquilo que tenta nos aprisionar. Para além do imaginário de outrem, para além das referencias que distorcem nossos corpos, nossos sonhos e nossos lugares no mundo, estar em pé é continuar com seus recursos próprios.





