A SENZALA CLÍNICA DO 'VALOR SOCIAL': O PREÇO DA CONSCIÊNCIA LIMPA NA SAÚDE MENTAL
Unsplash. Licenciada.
A pandemia de Covid-19 operou um milagre mercadológico na saúde mental brasileira: transformou o sofrimento psíquico coletivo em um produto de massa. Diante do colapso social, das perdas e do pânico, a busca por psicólogos e psiquiatras explodiu. A resposta do mercado da subjetividade foi rápida. Multiplicaram-se os serviços-escola, as ONGs e os coletivos de profissionais munidos de uma novidade bem-intencionada: o "valor social". Sob o pretexto de democratizar o acesso e oferecer um cuidado integral aos corpos em vulnerabilidade, estabeleceu-se uma tabela de descontos na dor.
No entanto, por trás da fachada humanitária e do discurso da empatia de tela, esconde-se uma engrenagem perversa. É preciso dar o nome correto às coisas: o "valor social", na maioria das vezes, não passa de uma autorização burguesa para a prática de uma clínica de segunda categoria.
Não se pode confundir acessibilidade com condescendência. O que o boom da saúde mental pandêmica consagrou não foi a democratização do cuidado, mas a institucionalização de uma iatrogenia de baixo custo. Criou-se uma espécie de "senzala clínica", onde corpos atravessados pela vulnerabilidade socioeconômica, pelo racismo e pela atipicidade são mantidos sob vigilância e tutela, recebendo um atendimento domesticador disfarçado de acolhimento.
Essa dinâmica reproduz, de forma barata, a violência que já denunciamos no ensaio UMA CRÍTICA À PSICOPATOLOGIA COLONIAL. Se na alta clínica do saber-poder tradicional o diagnóstico é utilizado como arma para enquadrar o sujeito — como no episódio em que o olhar colonial de um psiquiatra tentou rotular a segurança de pessoas periféricas e corpos marginalizados como "narcisismo" —, na clínica do "valor social" a violência ganha contornos de caridade.
Assimetria do Saber e o Cativeiro Clínico
O verniz filantrópico do "valor social" esconde uma barreira intransponível: a profunda assimetria de informação. O sujeito que chega a esses serviços, muitas vezes empurrado pelo limite do desespero e pela total negação histórica de direitos básicos, desconhece os parâmetros científicos e éticos que regem uma prática clínica legítima. Ele não sabe o que é uma abordagem baseada em evidências, o que configura uma quebra de sigilo ou onde termina o acolhimento e começa a imagem moral e religiosa do profissional.
Essa falta de letramento em saúde mental — que é um projeto político de exclusão, e não um fracasso individual — transforma o paciente na tempestade perfeita para o abuso institucional. Ele se torna refém de dois mecanismos principais:
A Gratidão Compulsória: Como o tratamento custa "pouco" ou cabe no orçamento espremido, instala-se no paciente o imperativo da gratidão. Questionar o direcionamento técnico, confrontar uma leitura preconceituosa ou apontar um desconforto passa a ser lido como incompreensão ou soberba. O sujeito aceita o diagnóstico torto porque "foi o que deu para pagar".
O Laboratório de Práticas Questionáveis: Sem fiscalização e sob o manto da caridade, o "valor social" vira o terrain perfeito para a iatrogenia experimental. É ali que profissionais recém-formados sem supervisão adequada, ou clínicos apegados a dogmas ultrapassados, exercem suas neuroses e preconceitos de classe. Se o tratamento falha ou violentou, a culpa é jogada na "resistência" do paciente ou na complexidade de sua vulnerabilidade.
"O clínico detém o monopólio do saber; o paciente, o monopólio da necessidade. Quando esses dois polos se encontram sob a égide do 'favor', a clínica passa a operar como um tribunal de domesticação."
O que se desenha, portanto, é um sequestro da subjetividade. Reduz-se o indivíduo à sua dor, e nega-se a ele o direito mais básico do consumidor e do cidadão: o de exigir um serviço que preste.
A Ética como Limiar Inegociável
O clínico que atende por um valor reduzido frequentemente veste a capa do salvador. Diante disso, ele não suporta o paciente que tensiona a relação de poder. Se o sujeito em atendimento for um corpo politizado, ciente de seus direitos, ou um indivíduo atípico que se recusa a ser fragmentado, o "valor social" cobra o seu preço real: exige-se a submissão em troca do desconto. O diagnóstico de desvio ou a patologização da autonomia tornam-se, então, mecanismos iatrogênicos para restabelecer a simetria que o profissional julga ter perdido ao "fazer o bem".
Uma clínica que se pretende ética não pode operar na lógica do "é o que tem para hoje". O sujeito em vulnerabilidade não necessita de um privilégio existencial ou de um olhar piedoso que desconsidera os determinantes sociais e históricos que moldam sua psique. Ele exige a estatura mínima do respeito técnico. Quando a psicologia e a psiquiatria tradicionais oferecem um cuidado rebaixado, desatualizado e discriminatório sob a rubrica do social, elas não estão cuidando; estão operando como aparelhos ideológicos de manutenção da opressão, usando a técnica para infligir novos traumas.
O "valor social" não pode ser a moeda de troca que compra o direito do profissional de exercer sua própria vaidade ou seu racismo sutil sem ser questionado. A Ética do Cuidado só existe onde há o reconhecimento do Outro em sua total complexidade e dignidade.
Se a segurança e a firmeza de um corpo politizado e atípico causam desconforto no setting terapêutico — seja ele pago a preço de ouro ou a valor social —, o problema jamais estará na estrutura de personalidade do paciente. Está na patologia do olhar de quem diagnostica. Enquanto a clínica popularizada não entender que o sofrimento psíquico é também um fato político, continuará criando alienação em escala industrial. E, contra a alienação, nossa única resposta possível continuará sendo o grito de liberdade da nossa própria insistência em existir sem pedir desculpas.
1 Narcisista: No contexto clínico tradicional, refere-se a um padrão de grandiosidade e necessidade de admiração. Aqui, o termo é criticado por ser usado de forma banalizada para patologizar a autoestima e a imposição de limites saudáveis por indivíduos de grupos minorizados.
2 Iatrogenia: Estado de doença, efeito adverso ou complicação causado pelo próprio tratamento médico ou pela intervenção de profissionais de saúde, seja por ação, omissão ou erro de diagnóstico.
Referencial Teórico:BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989.
FANON, Frantz. Peles Negras, Máscaras Brancas. Rio de Janeiro: Fator, 1952.
LIMA, Tiago da Silva. Uma crítica à psicopatologia colonial. Limoções, 2026. Disponível em: <https://www.limocoes.com.br/2026/04/a-soberania-do-ser-sob-o-rotulo-do.html>.
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