Eixo:

HOMOGENEIZAÇÃO DA DOR

Por Tiago Lima - 5.6.26

Fotografia conceitual de um dia de chuva e neblina visto por uma janela de quarto.
Limoções Editorial.

É como se o mundo girasse e eu me incomodasse com o movimento. Como se eu odiasse o nascer do sol, ficasse irritado com o prenúncio de um novo dia, não quisesse uma nova chance e desdenhasse do ar que respiro. Mas não dá para materializar o que se passa aqui dentro. O sentir é abstrato, é subjetivo, pertence estritamente a quem o carrega. O sentir é singular; não aceita pluralidade, não se deixa desenhar. Para quem vê de fora, parece que desisti de fazer uma prece, que escolhi o autoexílio ou que faço questão de cultivar o sofrimento. No entanto, não há semântica que explique as tempestades de um coração. A dor recusa a tradução literal: não se escreve o suficiente sobre ela, não se fotografam as angústias da mente, não se recolhem nas mãos os pedaços de um peito partido.

Como quem segue uma receita de bolo, tentam industrializar e homogeneizar o sofrimento. Exigem que tenhamos os mesmos horrores, que sintonizemos no mesmo medo e que desabemos exatamente pelos mesmos motivos. É desolador testemunhar a apatia vencer a empatia a cada amanhecer. E o pior: envelopam esse processo cosmético e o chamam de "rede de apoio", de "desabafo necessário", de amor. Não existem traços singulares para quem foi reduzido a dado estatístico, a número de amostragem, a gráficos de engajamento. Criaram uma fôrma para terceirizar a responsabilidade, utilizando a própria impotência como salvo-conduto para a negligência e para o interesse coreografado. Se até a empatia foi manipulada e atrelada ao comodismo digital, como esperar que o afeto real floresça? Querem nos convencer de que a importância se resume ao papel de ouvinte passivo, a mensagens automáticas de "tudo bem?" e a interações vazias de presença.

Teorizaram a rampa daqueles que sequer cogitam a possibilidade de apreciar a poética do amanhecer. Criaram teses sobre histórias de vida, sobre armas de batalha e sobre impossibilidades historicamente vividas. Banalizaram o peso de quem sustenta um sorriso cínico no rosto para sobreviver, de quem viabiliza a própria existência pelo suor do próprio esforço e de quem levanta da cama sem forças, arrastando o corpo. Banalizaram o legado de quem sobreviveu ao rancor, de quem dobrou o sistema e de quem escapou do apagamento físico e simbólico.

Os amigos buscam o atalho mais curto para simular acolhimento; os privilegiados demandam uma fórmula indolor para enxergar a equidade. Todos devidamente escondidos atrás do álibi da "correria do cotidiano". Enquanto isso, intelectuais de gabinete analisam, na surdina, os traços do nosso martírio. Argumentam entre si sobre a veracidade do trauma alheio e objetificam a carne e o osso. Eles precisam desesperadamente que todas as dores caibam no mesmo molde — só assim não precisarão encarar o fato incômodo de que cada número é um universo único e insubstituível.

Salve a alma de quem sabe a exata largura do sapato que calça. E que se credibilize, de uma vez por todas, o caminhar de quem precisou interromper o passo para conseguir respirar.

Originalmente publicado em 15/12/2020. Revisado e integrado ao ecossistema Limoções em junho de 2026.

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