Eixo:

RESENHA: AVUÁ | EMICIDA

Por Tiago Lima - 24.6.26

Avuá (part. Rael, Kamau, Coruja BC1, Drik Barbosa e Fióti)
Contexto: Desfile LAB na SPFW 2016 / Coletividade e Ocupação

Imagem ilustrativa da capa da canção Avuá de Emicida, Rael, Kamau, Coruja BC1, Drik Barbosa e Fióti. Na imagem o desenho de um passáro com um microfone e os nomes dos artistas.
Capa da canção Avuá.

Escutar "Avuá" exige de nós a compreensão de que o voo, em sua essência mais profunda, é um projeto de construção coletiva. A faixa não se encerra em uma colaboração técnica entre Emicida, Rael, Kamau, Coruja BC1, Drik Barbosa e Fióti; ela opera como um manifesto coral que materializa a escrevivência teorizada por Conceição Evaristo. Ao fundir a narrativa individual com a experiência histórica da pele, a canção nos transporta para um cenário onde o destino deixa de ser uma imposição externa para se tornar o vento controlado por quem decidiu ser, simultaneamente, o grão e o avião.

"Tipo a Chimamanda, trago informação Lindas flores do gueto, sou flor do gueto Estrela do meu show, hei Triunfo pra nós, viva o povo preto"

A sofisticação lírica da obra reside no diálogo orgânico que estabelece com o pensamento negro global. Não há aqui um uso fortuito de nomes; há o reconhecimento de uma linhagem intelectual e política. Quando a voz de Drik Barbosa invoca a consciência de Chimamanda ou quando o eco da resiliência de Maya Angelou surge na metáfora do pássaro livre, percebemos que a "trincheira das ruas" foi ressignificada. A coragem de "avuá" é, portanto, uma ferramenta de cura e emancipação, permitindo que o horizonte deixe de ser uma fronteira excludente para se tornar o ponto de partida de uma prosperidade que não pede licença para existir.

"Disseram que eu não deveria sonhar Sonhei alto que nem Maya Angelou Sou pássaro livre e tô pra cantar Mulher do fim do mundo Eu sigo e vou"

O ápice desse "bololô" de fé e estilo materializou-se no desfile da LAB na SPFW de 2016, um momento de ruptura estética e política. Ver o triunfo de Raissa Santana sendo celebrado sob esses versos é a prova de que a maior beleza produzida pela periferia reside na força da caneta e na capacidade de ocupar espaços historicamente negados. "Avuá" nos ensina que a vitória individual só encontra sua plenitude quando se torna uma reparação histórica coletiva. É o compromisso ético de levar o ninho inteiro para o topo do horizonte, provando que, se a rua é a base, o céu é, por herança, o nosso novo quarteirão.

"Que meu brilho alcance as nuvens Sem tirar meus pés do chão E se acaso notar relâmpago Sou eu andando de avião"

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