Talvez seja bom partir do final, ou talvez seja preciso entender que, em onze anos, o "final" é apenas um ponto de interrogação que insisto em transformar em vírgula. Eu, Tiago Lima, fundador e mantenedor deste espaço, convido vocês a olharem comigo para estes onze ciclos. Não se trata apenas de uma contagem cronológica, mas de um exercício de paciência e resistência, em que o mantra de Emicida e Gil — viver é partir, voltar e repartir — deixou de ser letra de música para se tornar o projeto arquitetônico da minha própria vida e deste site.
Quando fundei o Limoções, entendi que a escrita dissidente não poderia ser um luxo ou um passatempo; ela precisava ser o lugar onde lavo a alma enquanto o mundo, frenético, nos pede apenas produtividade. Durante mais de uma década, este espaço assumiu um compromisso social inegociável: ser uma alternativa ao fluxo que esvazia os significados. Ser dissidente, aqui, é um ato de teimosia contra a padronização das ideias. É insistir em uma escrita que não se curva a métricas, algoritmos ou ao "costume da tragédia" que tentam nos impor como normalidade.
"Viver é partir, voltar e repartir. Mas ouça de alguém que nasceu num tapume: é só na escuridão que se percebe os vagalumes." — Emicida & Gilberto Gil
Recentemente, o Limoções atravessou transformações que refletem essa nossa maturação. A estruturação dos nossos Eixos foi o passo necessário para dar ordem ao pensamento complexo, criando trilhas onde o leitor pode transitar entre a teoria, o afeto e a crítica. A mudança de nossa identidade visual, representada pelo novo logo, não foi uma alteração de fachada, mas a afirmação de uma face que hoje é mais autêntica e conectada com o que o projeto se tornou.
Sinto um orgulho profundo ao olhar para nossa trajetória de autonomia. Persistir por onze anos sem financiamentos externos, sem curvar-se às normativas que frequentemente tentam domesticar o pensamento, é o que torna o Limoções uma voz singular. Esta autonomia é, por si só, um posicionamento político. Em tempos de "caixas de entrada" cheias de ruído, escolhemos a clareza da fresta de sol. Esta é a nossa vitória: a de continuar produzindo ciência e literatura fora dos eixos tradicionais, mas com o rigor e a densidade que a nossa gente merece.
Nesta caminhada, como as crianças na colina da canção, pergunto frequentemente: "Avô, o que você achou da gente?". Não busco a aprovação de um sistema que nos ignora, mas o diálogo com quem, como nós, encontra vagalumes na escuridão. O Limoções é o acobertamento necessário para que a vida não seja devorada pela pressa ou pela superfície. Ao longo desses anos, vi conceitos, ideias e pessoas passarem, mudarem, e o Limoções permaneceu — não como um monumento estático, mas como um organismo vivo. Aprendi que, para continuar, é preciso estar disposto a desconstruir o que já foi, para então repartir o que sobrou de essencial.
Que os próximos anos sejam, ainda, um desdobrar dessa areia de ampulheta que insiste em criar novas formas sobre o papel. Obrigado por repartirem este caminho comigo. O Limoções continua sendo o meu convite diário para que sejamos, todos nós, mais humanos, mais rebeldes e, acima de tudo, mais presentes na construção do nosso próprio tempo.
Retratos de 2026: A Cronologia dos Textos
O ano começou com reflexões profundas sobre as estruturas de poder na formação acadêmica, os tensionamentos entre a rigidez técnica e o fôlego poético, e a reafirmação do Limoções como um manifesto de escrita viva, interseccional e visceral.
Discussões cruciais que interligam a saúde mental ao racismo institucional e às dores do ambiente acadêmico, transformando a palavra em uma trincheira política de resistência contra o adoecimento silencioso e a solidão dos espaços formais.
Um mergulho na alteridade através do olhar atento sobre a adolescência, combatendo narrativas coloniais de "história única" e promovendo a necessidade urgente de uma escuta ativa diante dos traumas invisíveis e da vulnerabilidade juvenil.
Um mês denso de teorização teórica e filosófica, onde se delineou a Fenomenologia da Atipicidade e se disparou uma crítica feroz às patologizações coloniais da subjetividade, erguendo o autoperdão como um ato de legítima insurgência existencial.
O desmascaramento das falsas simetrias e violências veladas nas práticas de saúde mental institucionalizadas, oferecendo ferramentas conceituais práticas para a blindagem do ser atípico contra as agressões disfarçadas de normatividade.
A demarcação final do espaço interno do indivíduo: a escrita assumida inteiramente como quebra e desobediência, e o recuo estratégico de batalhas vazias em prol da salvaguarda e santuário do próprio Eu.
*Este ensaio celebra o marco de 11 anos de existência do Limoções, reafirmando o compromisso com a escrita autônoma, dissidente e o constante repartir de saberes.
Você está no eixo editorial
Escrita e Autoria
Explore mais produções deste eixo em nosso acervo.
Acessar Eixo CompletoNota de Apoio e Permanência
Manter o Limoções como um espaço de pensamento crítico exige recursos. Sua contribuição financeira é o que impede a interrupção deste trabalho.
0 comments