21.2.17

É UM DESABAFO

Praia da Barra, Farol da Barra
Posso agora me esvaziar, tirar minhas roupas e queimar minhas máscaras. Posso deixar de lado minhas atuações e gritar para quem quiser me ouvir que agora consegui me esvaziar de mim. Meu olhar marejado, mostra exatamente como eu precisava desse desabafo. Eu mais uma vez me sufoquei, deixei que toda a certeza incerta, toda natureza corrosiva, todo sentimento mal sentido me definissem como algo que não sou. Eu fui levado pela onda, fui deixado só na praia e lamentei por ter escrito aquelas histórias.

Os sonhos que deixei partir, e aqueles que ainda nem sonhei. Todas as minhas quedas, e todos os tropeços que ainda não tropecei. Todas as minhas histórias, e todas que ainda não vivenciei. Todas as minhas feridas, e aquelas que eu ainda não consegui cicatrizar. Todos os amigos que empurrei para longe, e todos aqueles que foram embora por querer. Eu sou feito de tudo aquilo que conheci, que senti, escrevi, vi, toquei, provei, desenhei, falei, presenciei e abracei. Eu, incrivelmente, sou feito de tudo aquilo que deixei partir, vi crescer, vi aprender, vi viver, vi conquistar e vi me deixar. Sou feito de tudo que destruí, reconstruí, desejei, alcancei, lutei e por tudo que, mesmo me machucando, me fez perseverar. Fui constituído de decepção, assim como já decepcionei. Fui montado por um conjunto de gargalhadas, inclusive aquelas que eu inocentemente roubei. Fui desenhado pelo suspiro de vida, assim como já fui propriedade da dor. Sou a conjuntura da obra do meu viver, do viver de todos aqueles que me deixaram, de todos aqueles que me conquistaram, de todos aqueles que me amaram, de todos aqueles que me sentiram e de todos aqueles que simplesmente me viam como sou. Sou a caracterização da saudade, do anseio e da vontade de reencontrar todos aqueles que a morte de mim tirou. Sou a prova viva do que é possível quando se é vitimado pelo amor. Fui planejado para morrer, assim como fui presenteado com a capacidade de renascer.

Não me importo mais se for importante que me vejam no chão, pois sincero sempre será o meu coração. Eu não temo mais o morrer, pois aprendi que respirar não é viver. Se meu desalento for constantemente ignorado, eu posso conviver com o meu silêncio. E quando minhas palavras terminarem, todos que amo me deixarem, todos os meus sonhos se frustarem e o caminho desaparecer, eu estarei bem e quieto na orla da praia.