Você está vendo a curadoria do eixo:
Escritos
O cotidiano sob a lente do detalhe. Crônicas de observação que buscam narrar os atravessamentos invisíveis do dia a dia, transformando o ordinário em registro de memória.
A ÉTICA DO ESCRITO E A RECUSA DA FÁBULA
Se há uma urgência que o tempo presente nos impõe, é a de estabelecer um limite radical entre o direito de se expressar e o fetiche alheio de interpretar. Em 2017, o Limoções lançava linhas que já tateavam esse esgotamento: o cansaço de ver a própria voz transformada em personagem, em liturgia para o consumo ou em distorção conveniente na boca do outro. Quase uma década depois, em 2026, esse diagnóstico não apenas se confirmou, como se industrializou. Escrever hoje exige, antes de tudo, uma postura de recusa.
A sociedade do cansaço vende o protagonismo como o ápice da realização humana, a coroa de quem "venceu por esforço próprio". Mas esse brilho, visto de perto, revela-se falso. O protagonismo contemporâneo transformou-se em uma condenação à performance ininterrupta, um fardo disfarçado de autonomia onde o indivíduo é forçado a ser o empresário, o operário e o carrasco de si mesmo. Ser o ator principal desse palco saturado muitas vezes significa apenas carregar a culpa absoluta por engrenagens estruturais que ninguém consegue controlar. O palanque do sucesso é, frequentemente, um lugar de profunda solidão e exaustão mascarada de triunfo.
|
| Foto de yuna huang na Unsplash |
A caixa de entrada do e-mail é um deserto digital onde o vento arrasta apenas respostas automáticas — quando há respostas. Para quem observa de fora, o diploma emoldurado na parede do quarto parece uma promessa cumprida; para quem o encara todas as manhãs, transformou-se em um monumento ao que poderia ter sido. É o registro em papel timbrado de uma competência que o mercado decidiu ignorar.
|
| Foto de Danny Greenberg na Unsplash |

Queria ser prático na resposta dessa pergunta, mas sou um aglomerado de certezas - no mesmo nível que sou um amontoado de questões. O fato é que eu procuro me preencher, dificultando o acesso, desfortalecendo o vínculo e inconscientemente arrumando maneiras de não precisar expectar aquilo que não tive. Machucar. A gente se machuca quando tenta acessar o outro e ele está em outra frequência. Eu penso no meu local hoje como um grande vale tomado por neblina. Não vejo direito e não quero que me vejam. Como não sei quem e/ou o que caminha/transita pelo meu vale, vou me defender de tudo que puder. Essa é a palavra: defesa. Quando a gente caminha o suficiente para se perceber vulnerável, a gente também se torna capaz de perceber o que a vulnerabilidade causa e o quanto precisamos estar preparados para repelir tudo que acompanha essa condição. Estar vulnerável deveria ser uma condição transitória e não uma história de vida, mas nem sempre as coisas ocorrem como deveriam.
Estamos adultos. Estamos para sempre aprendendo. Estamos entendendo a solitude e para sempre aprenderemos sobre como cultivar relações. Estamos em condições de vulnerabilidade - ou somos colocados ou nos colocamos. Seja como for, a responsabilidade deve movimentar o mundo, deve seguir seu curso e deve ser implacável com aquilo que não tem potencial de somatória. Chego na parte do texto em que menciono a potência de deixar para trás pessoas. Não seremos capazes de acessar todos os corações e não saberemos voltar todas as vezes que formos repelidos. E não deve ser um objetivo de vida ser aceito, ser absorvido ou ser acolhido compulsoriamente. Nem todos estarão preparados para adentrar condições que não sejam regidas pelas regras impostas pela normatividade. A vida deve ser implacável e as pessoas também seguirão suas próprias condições e imposições para estar, para ser, para simplesmente delinear as condições seguras para existirem como adultos saudáveis. E o adulto saudável de outrem é um conceito singular, uma definição única para cada pessoa.

Como eu poderia exigir empatia ou compreensão? Não ando sendo o mais empático ou o mais compreensivo do mundo, então não quero estar no local em que me vejo cobrando, querendo e expondo minhas necessidades. Estou no mesmo mundo que todos ao meu redor, mas só me vejo, só me escuto e só faço questão de me sentir. Egoísmo ou não, egocentrismo ou não, estou preso naquele lugar que somente eu tenho acesso. Desisto da narrativa de estar com quem se importa, pois eu tranquei a porta, mesmo estando no mesmo mundo daqueles que querem me acessar, me tocar, me afagar. Eu guardei a chave e não me recordo o local. Não facilitei, não dei o braço a torcer, então estou aqui com meia dúzia de palavras na cabeça, mas na companhia do silêncio.
Não esperei que fosse dar certo aquelas expectativas que não nasciam de mim, mas rodeavam meu agir e cerceavam meus passos. Não lembro a última vez que experienciei o reboliço que uma expectativa causa ao nascer, ao ser nutrida e ao culminar naquilo que se desenha ao final do expectar. Hoje o silêncio abraça e me refaz por inteiro diante daquilo que assumo não ter controle, não ter poder, não ter influência. Silenciei o que não cabia em mim, coloquei no silencioso aquilo que queria transbordar, tudo que queria me deixar para acessar o mesmo mundo em que coexisto com todos aqueles que simplesmente insistem em tentar me acessar.
E as palavras também estão entrando em silêncio. Nas possibilidades contidas no dizer, eu não sei mais se me lembro de como é falar, assim como estou me esquecendo aos poucos como é escrever. Já deixei as palavras faladas para me dedicar às palavras escritas, mas percebi que não adianta ser lido quando não se permite acesso. Já deixei as palavras escritas para extravasar o sentir, para materializar aquilo que percorre o meu corpo, mas respingou dor em quem estava ao meu redor tentando de alguma forma mostrar o restante do mundo que não conheço. Acho que já não faço mais questão de conhecer o que está além das histórias que já escrevi e das palavras que já falei. Estive exposto com discursos e análises sobre tudo que pensei sentir, então já estive acessível na minha própria vulnerabilidade. Já me tocaram e não me recordo de ter sido recíproco.
Estou no mesmo mundo que os demais, mas eu existo em mim, apenas eu posso conviver com meia dúzia de palavras ou simplesmente existir no meu silêncio.
Talvez não seja viável relembrar ou retomar determinadas lembranças, mas já parou para pensar que aquilo que evitamos é o que mais nos chama a atenção? Olhar para aquilo que evitamos pode ser desconfortável, mas também possui significados. Temos uma pergunta nesse parágrafo e eu gostaria de dizer que não adianta postergar o encontro (ou reencontro) com uma sensação deixada de lado. E percorrer a vida por meio de lembranças também nos ensina que resistir ao desconforto ou ressignificar aquilo que tomamos como evitável é algo que vai acontecer. Seja num dia de melancolia, num dia de introspecção, num dia de solidão ou num período de humor rebaixado, a memória se fortalece diante daquilo que nos possui significados.
Se pensarmos numa conexão, veremos que estamos conectados com o nosso passado, mas não estamos sendo alimentados por ele. A gente sai do nosso local de conforto todos os dias, mesmo que não pareça. Não estamos estagnados no mesmo local, significando a mesma coisa para o universo. Tenho certeza de que você, assim como eu, se sente diferente de ontem e possui uma conexão via lembrança daquilo que significou ontem e anteontem. Estamos em composição e essa é a uma aventura em que percorremos a vida por meio de lembranças que possuem o poder de instigar nossa memória e projetar nosso passos para aquilo que vem como amanhã.

Conheço a dor, conheço o rancor, conheço o gosto amargo e azedo de cada novo dia, assim como reconheço de longe a apatia e o desinteresse. Aprendo todos os dias com as emoções e sentimentos evitados por quem se sente contrariado pela tristeza. Caibo em espaços que nunca imaginei estar e sinto coisas que já senti antes. Eu deveria saber me comportar diante da exclusão, assim como soube me comportar diante da dor. Sei que parece tudo bem mórbido, mas é um recomeço difícil. A gente precisa do começo para recomeçar - nem sempre, eu sei. Gosto de pensar que aqueles passos que dei ainda permanecem nos locais por onde passei, mas não me responsabilizo pelas marcas que eu criei em mim e deixei por aí. Eu deveria me responsabilizar pelo passado ou somente deixar o passado no passado?
Parece que estou tendo um devaneio. Anos se escondendo dos valentões e depois de adulto ainda tem valentões me amedrontando. O sistema massacra pessoas que queriam ser invisíveis, pois o destino não deixa passar em branco quem desejou. Louco. A minha existência faz barulho e eu sequer me planejei como um arranjo. De fato, arranjaram uma melodia para os passos que dou, e eu descreveria como melancólica, dramática e obscura. Na maior parte das vezes que estou arranjado como música é exatamente quando só me deixo tocar e, num bom tocador de disco, toco para todos. O disco passa pelas mãos de outrem antes de chegar até a vitrola. Um processo complexo de gravação, em um estúdio quente, com harmonias e desarmonias: ali estou eu, sou a música, o resultado final.

Eu poderia simplesmente deixar que o mundo fosse devorado por monstros, mas eu ainda estaria nele. Eu poderia deixar que os vilões tomassem o protagonismo da história, mas eu ainda estaria nela. Eu poderia deixar que existisse um final infeliz, mas eu estaria nele. A história que me coloca como herói é unilateral, é escrita de forma a vetar meus pitacos de escritor, minhas considerações de protagonista, minha potencial habilidade de roteirista. A história que me escalou como herói, me deixou heroico sozinho, sem uma liga, sem justiça, sem chance de formar um clã ou um instituto de super-heróis. Não sei se estou numa história em quadrinhos ou numa superprodução de cinema, mas tenho a certeza de que cansei de acabar salvando o mundo.
Eu poderia me demitir da história, mas não sei quais são as cláusulas do contrato. Eu poderia entregar aos vilões as minhas fraquezas numa bandeja, mas não conseguiria deixar a história com vida. Eu poderia tentar ter um surto, me afastar dos estúdios, poderia ser cancelado na internet, poderia deixar a pinta de bom moço. Se por um dia eu pudesse deixar de lado meu papel de herói, iria viver como alguém que conseguiu relaxar, que teve a chance de baixar a guarda, que caminhou sem medo, que saiu sem hora pra voltar, ou que resolveu não voltar para casa. Eu dormiria todas as noites sem me preocupar com o dinheiro do vínculo empregatício e deixaria de ser sondado pelo futuro que ainda desconheço.
07/julho/2022

O homem que sou coube no espaço que construí. Sem pegar tijolinhos da obra do vizinho, sem cimentar o chão com a areia do vizinho e sem cobrir o meu telhado com as telhas do vizinho. Construí o local que caibo hoje e me encontrei dentro da possibilidade de expansão. A vida, já descrita e definida aqui inúmeras vezes, é uma expansão constante entre saberes, deveres, lições, apreenderes, ensinamentos e tantas outras demandas que possuem como base a troca. Troca de locais, troca de pensamentos, troca de informações e troca de tudo aquilo que se movimenta ao nosso redor.
O homem que sou está comportado no seu próprio espaço - e isso inclui falar sobre sua própria existência sem a resistência de ser mal interpretado. As histórias possuem tantas versões, mas não é na suspeição do trajeto de outrem que conseguimos caracterizar a validação da nossa própria história. O respeito está dentro do conceito da existência, tendo que obrigatoriamente se curvar diante de tudo aquilo que fugiu de uma possível normatividade. O homem de respeito que sou aprendeu a caber na pluralidade e encontrou na diversidade abrigo para significar a existência. Os trejeitos que carrego em mim são meus, o meu tom de voz é meu, meu cabelo me pertence e eu existo dentro do meu próprio espaço.
Pensei em ser aquilo que sempre quis ser e mirei nas minhas próprias tratativas, organizando as minhas próprias demandas, meus próprios anseios. Saber se ponderar, se categorizar, se posicionar e se definir. Se definir para longe da rigidez, fortalecido por valores reais, reivindicando espaços, fortalecendo a minha própria percepção de casa. O homem que sou se construiu e se descontruiu, se viu intitulado em cartaz e provedor da sua própria sanidade.

Eu sei o que vejo diante do espelho, mas mas não posso ver aquilo que não está diante de mim. São tantos de mim que eu não temo, pois não há razões para temer o que fui para mim. Sou o que significo para mim, então não tive o interesse de ouvir os significados poderiam ser para mim. Tão pequeno quanto um botão de rosas e tão colorido quanto um beija-flor, eu não destemi aquilo que tinha que me causar medo.
Me vejo longe do lugar que estive, assim como me vejo distante do lugar que queria estar, mas onde chegarei se parar de andar? Ando por compreender que a vida é aquilo que dura, aquilo que perdura em sorrisos, que circunda a esperança do amanhã e potencializa a história de mim que ainda nem escrevi. A busca pela paz se cruza com a guerra. A guerra faz da paz o principal objetivo. Cotidiano de guerrilheiros cansados, de soldados com mentes cansadas e corpos pesados. A paz afaga aqueles que se deslocam da guerra e que permanecem percorrendo o lutar. A gente sabe onde chega quem se vê diante do espelho e sabe o que gostaria de dizer.
As possibilidades são infinitas, mas um único colchão comportou a dimensão. Palavras não ditas, pôr-do-sol não fotografado, café requentado, um comprimido de antidepressivo. Amontoa todos os saberes para treinar os jeitos, os sorrisos, o caminhar, o falar e tudo aquilo que será lido por quem observar a excentricidade que apenas recobre a vida. Todos os dias um dia desconhecido nasce e pensamos que nos conhecemos o bastante para sermos os mesmos de ontem. Se o dia nasce, a gente nasce com ele. O que descobrimos no nascimento de hoje?

As palavras são atemporais, mas definha quem as escreve. Acaba o coração do poeta, envelhece o cérebro do cronista e termina a criatividade do dramaturgo. A vidinha se baseia em textos bons, medianos e ruins, assim como também desenha personagens que marcarão a obra e se vê na obrigação de exterminar personagens que não serão palatáveis o suficiente. Estou usando analogias que se aproximam da vida que vivemos, pois tenho certeza de que alguns períodos dessa existência chamamos de capítulo.
Pensar na vida como história nos coloca em qual local da produção? Somos desde a criação até a execução? Parece uma análise interessante, mas me soa como irrelevante. Tenho as minhas certezas sobre o vivenciar da minha própria história. Uma tentativa de homicídio diária. Seja pelos sonhos que terão que esperar mais um pouco, seja pelos sonhos que deverão ser redesenhados, seja pelos sonhos que não deveriam ser sonhados. A vida de alguns é a violência que a novela explora em requintes de detalhes, mas, isolando meu caso e minha história, o final deveria ser uma manicômio, uma comunidade terapêutica, uma clínica de repouso num bairro chique. A história que eu supostamente estou escrevendo está numa linha tênue entre estar lúcido para a minha dramaturgia autônoma ou louco para deixar como legado as palavras que registrei antes de encerrar o espetáculo.
Como se eu pudesse entrar num ônibus, sentar ao oposto do sol, encostar minha cabeça no vidro, com meu fone tocando, sentindo os solavancos, me vejo dentro de um abraço. O abraço quentinho do cotidiano enlouquecedor, cotidiano que reconhece a linha tênue que é estar aqui e não estar. E a dissolução das minhas histórias acontece na mesma linha tênue que fizeram meus personagens não serem palatáveis: é seguro e/ou cansativo ficar ao lado de quem está na minha tênue?