O QUE SEI SOBRE A SOLIDÃO?

By Tiago Ferreira - 5.2.21


Quando falamos em solidão qual é a primeira coisa que te ocorre? A quem interessa que aceitemos a solidão como parte integrante e necessária de um amadurecimento psicológico e emocional? Compreender a solidão é uma necessidade? Ver a solidão como algo construtivo é uma imposição? A aceitação da solidão ocorre de maneira orgânica ou precisamos ser submetidos a situações que nos façam questionar sua necessidade? Bom, não tenho certeza das respostas para todos esses questionamentos, mas, diante da minha possibilidade e lugar de diálogo, pretendo discorrer sobre a temática para além das superficialidades impostas por filosofias baratas de amor próprio e aceitação que ocorrem como uma enxurrada na internet.

Para compreender os processos que envolvem a solidão como uma viabilizadora de descobertas, eu tive que mergulhar em companhias e vivenciar o entrosamento em todas as suas possibilidades - tudo de forma orgânica. Não pretendo discorrer esse parágrafo de maneira a justificar minha optativa para uma vida mais reclusa utilizando a decepção e/ou frustração com relacionamentos em qualquer uma de suas potencialidades. Entretanto, preciso trazer para o nosso diálogo a forma como a qual uma vida social impositiva e regada de superficialidades viabilizou meu distanciamento daquilo que eu precisava ver, ouvir, falar e perceber sobre minha própria existência. Tenho debatido por aqui sobre as minhas considerações de relacionamentos saudáveis, assim como tenho trabalhado, por meio da escrita, as minhas investidas para o autoconhecimento, mas não foi apenas mergulhando em relacionamentos que fui capaz de estabelecer meus critérios de reciprocidade e de amor próprio. Dentro das inúmeras relações que tive a chance de experienciar fui aprendiz e professor, sempre me deparando com determinados obstáculos a respeito da minha natureza de ser. Meus critérios para uma reciprocidade concreta e consolidada sempre pareceram estar no meu inconsciente, e isso me fazia cobrar do outro o que eu estava dando. Vivi inúmeras situações nas quais eu precisava constantemente ponderar a respeito da empatia e da necessidade de se devolver a altura o que eu entrega. Eu já estava sozinho. É uma questão de avaliação que fui capaz de desenvolver a partir das minhas tentativas de diálogo e com base na minha insistência didática que me fazia aproximar da solidão como uma via concreta e segura de conhecimento e autovalorização..

Eu não conseguiria falar de solidão sem mensurar a relação que conecta esse sentimento com a exclusão. Eu já fui alcançado por essa visão e vivenciei momentos doloridos e impossíveis de serem descritos. Para experimentarmos um pouco das convenções sociais nos vemos obrigados a investir tempo, esforço físico e psicológico. Não estamos preparados para sermos questionados a respeito do que somos e sobre o que pensamos, assim como nunca fomos ensinados a considerar que a rejeição é uma possibilidade. O fato é que esses esforços para nos encaixarmos e nos tornarmos importante e/ou parte de algo é concebido com a intenção de reconhecimento. Queremos ser naturalizados e bem quistos a todo custo. Ser excluído e/ou rejeitado por carregar em si algo que não pode compor determinado meio social é uma realidade que carrego comigo desde sempre. Nos meios familiar, escolar e profissional somos constantemente rejeitados e analisados por olhares que buscam por incompatibilidades, e são esses mesmos olhares - apáticos - que não consideram nossas potencialidades. Apesar de a exclusão e rejeição serem aplicadas em todes que respiram e vivem, sabemos que esse aspecto da solidão está diretamente relacionado aos marcadores raciais, de sexualidade e de gênero. Ninguém é obrigado a aceitar a rejeição como uma ferramenta social de conexão seletiva entre as pessoas, porém, para falarmos a respeito desse processo com mais propriedade, precisaríamos abrir outro diálogo. O fato para o qual eu gostaria de chamar a atenção é que a rejeição e exclusão são respostas imediatas ao meio no qual não devemos permanecer. Se esse tipo de análise seletiva busca a redução da nossa existência e o questionamento agressivamente explícito e/ou velado daquilo que somos, portanto não podemos sustentar as investidas para sermos aceito naquele meio. É óbvio que eu escrevo tudo isso como alguém que compreendeu esse processo e deixou de lado a necessidade de ser incluído em determinados contextos, mas sei bem que esse processo é dolorido e possui o poder de nos influenciar negativamente.

Para além da visão de solidão como uma ferramenta romantizada de jornada de autocuidado, vivi as minhas descobertas entorno desse assunto de maneira compulsória. Mergulhar nesse sentimento foi uma imposição das minhas atribulações diárias, das minhas análises constantes, da minha instabilidade emocional e das falcatruas que a vida preparou sem considerar a minha humanidade. Doeu pra cacete me sentir sozinho em determinados momentos. Se jogarmos no Google "definição de solidão" logo encontraremos links que direcionam a temática para algo nem sempre feliz ou construtivo - e fico até que satisfeito e me sinto representado por não ser de cara o triunfo do autoconhecimento que o Instagram tenta nos fazer acreditar.

PRIMEIRA PARTE

(...)

continuamos em breve essa conversa.

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