"HÁ PORTAS QUE SÓ SE ABREM POR DENTRO"

Por Tiago Lima - 30.6.23

Tirei de mim e do mundo a possibilidade de questionar o meu cansaço. Tenho direito de me sentir cansado. Todo cansaço que carrego em cada pedaço de mim é inteiramente meu, pertence a todas as versões de mim que precisei sustentar, precisei construir, precisei externalizar para o mundo. O mesmo mundo que hoje me cobra agilidade do direito resguardado para descanso, é o mesmo que cobrou diariamente a entrega de resultados, me fez dia após dia me sentir cansado. É contraditório parar e pensar que "descanso" hoje para me "cansar" amanhã. Parece que estou, de forma imatura, questionando a vida adulta. Ao contrário do que parece, estou contrapondo a proposta de ter que "descansar" para reiniciar o "cansaço".

O que chamamos de cansaço na contemporaneidade? A sobrecarga no trabalho? A dificuldade de conciliar o trabalho e os estudos? A sobrecarga atribuída indiscriminadamente no ambiente acadêmico? A insegurança alimentar? Qual é o nome do seu cansaço? Trazendo para a primeira pessoa, eu diria que o meu cansaço é uma junção de muitos dos itens questionados acima e hoje ele está materializado. Dor, angústia, sofrimento, apreensão, insegurança, trauma e tantas outras (im)potencialidades capazes de imobilizar circundam o existir de alguém - nesse caso eu - que precisou ser vencido pelo cansaço do mundo. É, no mínimo, contraditório pensar como potencialidade aquilo que nos arranca de sentidos positivos de potência, mas, sem cometermos analises unilaterais, o ruim também se apresenta como possibilidade. Mesmo que seja uma vez na vida o cansaço venceu, sendo ele confirmado em muitas das suas facetas. De todo modo, me faz necessário nomear aqui aquilo que o cansaço também tira de mim no sentido exclusivo de existência: a humanidade. Mas, como bem nos disse Rilke sobre o nosso próprio produzir e nosso externalizar diante daquilo que ainda aprendemos sobre nós

"[...]Não escreva poesia de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma forma grande e emadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobrem tradições boas, algumas brilhantes..." (RILKE, 1903).

Hoje vejo com clareza onde as (im)potencialidades me deixaram. Estou comigo e desfrutando da escrita para deslocar do meu local aquilo que tenta conviver comigo no mesmo espaço - sempre considerando a materialização do sentir em (im)potências na mais pura sinceridade e na cronológica de seu próprio tempo. Desse local, por vezes confortável, discorro sobre aquilo que chamo de rancor, de alegria, de força e visualizo a minha própria existência. Parece poesia - apesar de visualizar essa possibilidade como algo ligado diretamente ao ato de escrever -, mas se trata da possibilidade de situar o meu cansaço. Hoje, por vezes, vejo como ferramenta essencial o direito de me acusar, me apontar diante do espelho para tentar visualizar que tenho falhado como aquele que busca aquilo de que sente falta, naturalizando e abraçando aquilo que está em mim (RILKE, 1903).

Como parte de um sistema, de uma engrenagem que torna insignificante minha existência, visando apenas o produto que tem potencial de sair das minhas mãos, questiono se o cansaço é viável para que eu resista a tudo aquilo que encontra o meu desacreditar. Estar em pé amanhã para produzir, cansar amanhã depois de produzir, deitar amanhã para fingir que descansou e acabar acordando para produzir. Eu sigo sustentando uma tratativa pautada em marcadores. Minha existência coexiste com palavras que precisam levar em consideração o território que estou, a cultura que cultuo, o grupo social que me absorve e a geografia que me cerca (SILVA, 2021). Meu cansaço não está só, mas eu deveria criar uma rede de pessoas cansadas? Já existem equipamentos e ferramentas, assim como já existem profissionais responsáveis por auxiliar o processo de encontro ao descanso. Mas ainda me questiono: vivemos para nos cansar daquilo que vivemos?

Estou aqui e a partir de agora iremos explanar o cansaço. Hoje, de maneira bem poética, nomeio o meu cansaço de depressão. Como bem disse Mãe Preta: "há portas que só se abrem por dentro".

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RILKE, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta: A canção de amor e de morte do porta - estandarte Cristóvão Rilke. 14. ed. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1986. 109 p.23

SILVA, Liziane Guedes da. Relações de gênero e escutas clínicas. 1. ed. Salvador - BA: Editora Devires, 2021. cap. Vozes Negras Femininas: Ecoam Poéticas e Aquilombamentos Subjetivos, p. 119-139.

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