PERMANECER NÃO É SORTE: IMAGEM, AGÊNCIA E A ÉTICA DA RESISTÊNCIA

Por Tiago Ferreira - 27.1.26

Imagem, agência e a ética da resistência


Este ensaio se estrutura a partir da recusa como gesto político e da permanência como prática de agência. Não se trata de uma negação impulsiva nem de um rompimento puramente afetivo, mas de uma decisão elaborada no tempo, sustentada pela consciência crítica dos mecanismos de silenciamento, apagamento e instrumentalização do corpo e da palavra. A recusa de voltar não encerra o diálogo: ela redefine os termos da existência. Aqui, permanecer em si é um ato de resistência.

A noção de agência, tal como formulada por autoras e autores negros, é central para compreender o movimento que atravessa este trabalho. Para bell hooks, resistir é reescrever a si mesmo fora das narrativas impostas, produzindo espaços de auto-definição mesmo em contextos de opressão simbólica.¹ Nesse sentido, o ensaio não busca redenção nem reconciliação; ele afirma a autonomia como prática cotidiana, silenciosa e inegociável.

A fotografia, neste projeto, não opera como testemunho passivo. Ela atua como tecnologia de permanência. O corpo enquadrado não solicita autorização, nem oferece explicações. Ao contrário, ele sustenta a própria presença no espaço, deslocando a lógica do olhar que consome para a lógica do olhar que reconhece. Esse gesto se aproxima daquilo que Frantz Fanon compreendia como a reconstrução da subjetividade frente às forças que tentam fragmentá-la: existir plenamente é romper com a posição de objeto e reassumir a condição de sujeito histórico.²

O cenário — marcado por silêncios, sombras, vazios e intervalos — não é pano de fundo neutro. Ele participa ativamente da narrativa visual como extensão do corpo. A escuridão, aqui, não representa ausência ou derrota, mas território de elaboração. Permanecer na própria escuridão significa rejeitar a dependência da luz do outro, isto é, da validação externa, do afeto condicionado e da narrativa que exige explicação constante. Como propõe Achille Mbembe, a resistência contemporânea não se dá apenas no confronto direto, mas na capacidade de inventar modos de existir fora das economias do controle e da captura.³

Esse entendimento dialoga diretamente com a afirmação já presente na escrita do próprio autor: “NÃO FOI SORTE — FOI LUTA, É RESISTÊNCIA” (Limoções, 2019). A frase não funciona como slogan, mas como eixo epistemológico. Ela desloca a experiência da sobrevivência do campo do acaso para o campo da historicidade. Existir, aqui, não é resultado de benevolência, mas de enfrentamento contínuo — pessoal, ancestral e simbólico.

Composição visual focada na presença e na permanência do corpo negro, recusando narrativas de invisibilização. Fotografia de Olívia Vieira. Cenário de sombras e intervalos, onde o corpo atua como tecnologia de resistência e reconstrução da subjetividade.
O ensaio também se constrói a partir do reconhecimento de uma experiência de invisibilização relacional, na qual o sujeito foi reduzido à função decorativa, à coadjuvância afetiva e ao silêncio. Contudo, essa constatação não se converte em confissão nem em denúncia espetacularizada. Ela se transforma em método. As imagens recusam o excesso de dramatização e optam pela contenção, pelo gesto mínimo, pelo enquadramento que não implora leitura. Essa escolha dialoga com a ética da opacidade defendida por Édouard Glissant, para quem o direito de não ser totalmente decifrado é condição fundamental de dignidade.⁴
A permanência, portanto, não é imobilidade. É sustentação. Sustentar uma escolha diante das tentativas recorrentes de reapropriação simbólica do passado. Sustentar um corpo que não se explica mais. Sustentar um olhar que não busca convencer. O tempo, nesse percurso, não apaga — ele capacita. Capacita a coexistir com a solidão sem carência, com a memória sem submissão e com a multiplicidade sem fragmentação.


Este ensaio não documenta um afastamento. Ele institui um limite. E é nesse limite — firme, silencioso e ético — que a imagem se torna linguagem de resistência e a escrita, exercício de agência.

__________________________________

Referências conceituais (implícitas no texto)

¹ hooks, bell. Talking Back: Thinking Feminist, Thinking Black.
² Fanon, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas.
³ Mbembe, Achille. Crítica da Razão Negra.
Glissant, Édouard. Poética da Relação.

PENTAPRISMA

Curadoria poética e crítica de Tiago Lima e Olívia Vieira. O desvio da luz como método de pensar com imagens.

Acessar Acervo Completo

Produção Intelectual

Acesse artigos científicos, ensaios acadêmicos e obras literárias publicados em veículos externos.

Ver Publicações Externas

Imagens sob curadoria de Tiago Lima e Olívia Vieira. Acervo completo no Flickr.

VEJA TAMBÉM ESSES DAQUI

0 comentários