O DIREITO AO ABISMO E O PODER DA PALAVRA
Entre a aceitação da dor e a resistência contra o vazio contemporâneo
![]() |
| A beleza não exige o sol; há uma verdade profunda que só floresce sob o peso do céu cinzento. |
A Redenção pela Infelicidade
Com o passar do tempo, fui deixando de lado o medo da infelicidade. Deixei de acreditar que minha tristeza conseguiria me descaracterizar, me destruir ou me abafar. De um tempo para cá, tenho preferido viver as minhas dores, sentir cada um dos meus medos e degustar o sabor das minhas mágoas. Talvez eu precisasse mesmo me conformar e aprender a conviver com as lágrimas que escorrem pelo meu rosto, com as noites em claro pensando nos meus fracassos e com as frustrações que vivo diariamente.
Eu deixei de ver o dia ensolarado e me sentir culpado por não carregar um sorriso no rosto. Cansei de tentar descolorir meus dias para que eles fossem encaixados nas minhas dores e parei de tentar justificar cada uma das minhas mágoas. Não preciso mais buscar alimento para as minhas inquietações porque agora tudo parece devidamente justificado, vivido, absorvido e acertado. Não sou tão feliz quanto ontem e nem sei se serei tão feliz amanhã, mas sei que tenho o direito de viver as minhas aflições sem temer qualquer espécie de discurso encorajador ou a alegria de outrem que sempre me fazia sentir náuseas. Está tudo bem; eu posso caminhar pela vida de mãos dadas com a tragédia, com o desânimo, com o medo, com a angústia e com a insegurança.
A Ética da Realidade Interna
Não quero mais me dedicar integralmente ao fardo pesado de ter que me encontrar, me reconstruir ou me descaracterizar. Só preciso conviver com a escuridão que reside em mim, com as podridões que tentam me fazer pequeno, com os receios que querem me ver longe do caminho, sozinho e desamparado. Parece ser possível ser filho da aflição, ter um coração quebrado, ter energias negativas rondando cada uma das minhas esperanças e incertezas tentando devorar meus sonhos. Não parece mais errada a opção de aceitar conviver com o pior da vida, o pior de mim e com todos os piores pesadelos que atrapalham minha fé de funcionar.
Escolho caminhar com os pés no chão, sentindo o medo, a dor, a tristeza, a mágoa, a angústia e a aflição por ter cansado de comprar a ideia da transcendência feliz, da harmonia plena e da paz de espírito forjada por quem precisa provar que é feliz. Escolho ser o sentimento que me alcança hoje por ter me cansado de tentar engolir a mentira de que a felicidade e a tristeza são inimigas naturais. Sou triste. Sou infeliz. Sou uma pessoa normal.
O Vitrinismo da Atualidade
Desde que fui apresentado ao mundo da leitura, passei a me preocupar com o enriquecimento do meu vocabulário. Gosto de buscar palavras e significados; gosto de acrescentar sinônimos que quase não são utilizados em poemas e escritos. A língua, pelo menos no meu ponto de vista, não pode perder sua capacidade de ultrapassar gerações. Mas o que fazer quando todos ao seu redor parecem desinteressados com relação ao fato de que o mundo tem se tornado cada vez mais monossilábico?
Essa foi a pergunta que me alcançou certo tempo atrás. Não sei se de fato vivo no tempo certo, mas me incomodo muito com a superficialidade dos discursos e com o empobrecimento da língua como meio de diálogo. Já é sabido que as metamorfoses linguísticas e os jargões regionais também formam a dialógica em contextos sociais e culturais, mas será que sabemos ao certo o que tudo isso significa? O mundo parece estar caminhando para a criação de um novo dialeto: algo mais prático, que não demande tanto esforço mental e nem sequer careça de interpretação. As abreviações, os emojis e as opiniões sem embasamento roubam o espaço da leitura e do pensar. A língua vai perdendo valor, sentido e significados.
A Resistência pelo Pensamento
Neste mundo cheio de frieza, imediatismo e abreviações, tem se tornado escasso o interesse pela leitura e pelo simples desejo de possuir um livro em mãos. Na era do digital, a única coisa que parece tentar conduzir ao pensar são meia dúzia de produções audiovisuais que surgem pela necessidade de questionamento. Ainda vemos as inúmeras tentativas de diálogo levantadas por aqueles que acreditam no poder da fala serem derrubadas pela maior parcela da população, que não está disposta a viver o empoderamento do leitor, do interpretador, do pensador. As pessoas não parecem mais querer ter sobre o que falar, transparecendo uma necessidade sobrenatural de apenas "mostrar" algo. O vitrinismo da atualidade é vazio e sem valor; o desejo de compartilhar é cinza e frio.
Desde que fui apresentado ao mundo da leitura, passei a ler, a escrever, a fotografar e a criar maneiras de não me perder no imediatismo do mundo superficial em que tenho vivido. Sou colecionador de grandes desabafos, importantes poesias e sou escritor de textos importantes demais para serem abafados pela superficialidade do contemporâneo. Fica o questionamento: será que é possível viver enquanto a língua morre e a superficialidade cresce?
LIMA, Tiago. VIVA A INFELICIDADE. Limoções, 2019.
LIMA, Tiago. O VITRINISMO DA ATUALIDADE. Limoções, 2019.
PENTAPRISMA
Curadoria poética e crítica de Tiago Lima e Olívia Vieira. O desvio da luz como método de pensar com imagens.
Acessar Acervo CompletoProdução Intelectual
Acesse artigos científicos, ensaios acadêmicos e obras literárias publicados em veículos externos.
Ver Publicações ExternasImagens sob curadoria de Tiago Lima e Olívia Vieira. Acervo completo no Flickr.


0 comentários