A INSUBORDINAÇÃO DA FALHA: QUANDO O ERRO SE TORNA LIBERDADE

Por Tiago Lima - 19.8.26
[ ensaio crítico : insubordinação, política e liberdade ]
Como o discurso da resiliência e a moral da redenção capturam o direito ao erro e despolitizam o sofrimento? Este ensaio integra a linha de investigações do Limoções sobre as estruturas de controle e normatividade, propondo o erro não como desvio ético, mas como recusa radical do apaziguamento. Para acessar nossos debates sobre subjetividade e afeto, explore nossa categoria de Perspectivas Críticas.

O direito ao erro, no entanto, permanece sendo um privilégio seletivo. Enquanto a sociedade exige uma performance de redenção impecável daqueles que ela mesma empurrou para a margem, a hipocrisia floresce nas entrelinhas da tolerância. Falam em acolhimento, em diversidade e em espaços de fala, mas, na prática, qualquer desvio da cartilha de comportamento esperada ou qualquer fissura na armadura da resiliência é prontamente penalizado com o ostracismo.

Fotografia abstrata em movimento (motion blur) sobre fundo esverdeado e frio, com traços incandescentes e desfocados de luz amarela e vermelha cortando a cena, simbolizando a fricção, a instabilidade e a recusa da nitidez padronizada.
Foto de Jr Korpa na Unsplash. A estética da fricção: o ruído e a instabilidade como recusa da nitidez institucional.


Quando reivindico o meu direito de ter errado, não estou buscando uma carta de alforria moral, nem operando sob a égide do perdão institucional. Estou afirmando que o processo de sobrevivência não segue manuais de etiqueta social. A classe média intelectualizada gosta de consumir a narrativa da superação desde que ela venha acompanhada de um arco dramático bem comportado, com início, meio e fim, preferencialmente encerrado com uma lição de moral edificante. Quando a dor se recusa a ser palatável, quando o erro não se converte em crescimento esteticamente aceitável, o sistema retira o tapete.

I. A FALHA COMO DESOBEDIÊNCIA À NORMA

O que chamo de erro não foi um desvio ético, mas uma falha de adaptação ao que esperavam de mim. Esperavam o silêncio, a gratidão pela migalha de reconhecimento, a docilidade de quem aceita o seu lugar na base da pirâmide. Ao recusar o papel de coadjuvante na minha própria exclusão, fui classificado como difícil, agressivo ou instável. É curioso observar como o rótulo de instabilidade é colado com facilidade sobre corpos que não se encaixam na norma, como se a nossa sanidade fosse um serviço público sujeito a fiscalização constante.

Não há, portanto, como dissociar o trauma da política. A insistência em tratar as feridas do exílio, o exílio de que falava Abdias, como questões meramente terapêuticas e individuais, é uma manobra deliberada para despolitizar o sofrimento. Se o problema está dentro de mim, a solução é interna, individual, um ajuste de comportamento que não ameaça o status quo. Mas o problema não reside exclusivamente no indivíduo. Ele reside na estrutura que, cotidianamente, força o sujeito a se deformar para caber em espaços que não foram desenhados para a sua existência.

"Não devo desculpas pela intensidade da minha resposta a um ambiente que tentou me apagar. Se houve excessos, eles foram a medida exata da minha resistência contra o esvaziamento do meu ser. A maturidade que reivindico hoje não é a da pacificação cínica, mas a da clareza: a compreensão de que, diante de um mundo que nos nega a humanidade plena, o erro é, muitas vezes, o único exercício legítimo de liberdade." (Tiago Lima)

II. RECONCILIAÇÃO E HONESTIDADE HISTÓRICA

A reconciliação que proponho, após a publicação dos primeiros rascunhos, não é com a sociedade, mas com a honestidade da minha própria história. Não devo desculpas pela intensidade da minha resposta a um ambiente que tentou me apagar. Se houve excessos, eles foram a medida exata da minha resistência contra o esvaziamento do meu ser. A maturidade que reivindico hoje não é a da pacificação cínica, mas a da clareza: a compreensão de que, diante de um mundo que nos nega a humanidade plena, o erro é, muitas vezes, o único exercício legítimo de liberdade.

Quem teme o erro teme a própria autonomia. Prefiro a integridade das minhas cicatrizes à perfeição falsa daqueles que, por medo de perderem o lugar à mesa, nunca ousaram tropeçar contra as cercas que lhes impuseram. O Limoções não é um espaço para o conforto, e a minha trajetória também não será. O encontro, hoje, só é possível se houver o reconhecimento de que, para muitos de nós, a existência sempre foi, e continuará sendo, uma forma de insubordinação.

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