SOBRE ASSUMIR A AUTORIA DA PRÓPRIA HISTÓRIA

Por Tiago Lima - 31.8.26
[ acervo vivo : 11 anos de limoções ]
Este ensaio integra a cartografia comemorativa de 11 anos do Limoções — um exercício de escavação e releitura dos nossos próprios arquivos textuais e visuais. Para percorrer os contornos e as ruínas dessa jornada, visite a página do nosso Acervo Histórico.

Idealizar a vida como uma obra de arte perfeitamente protegida por vidros blindados e sensores de presença é o primeiro passo para o autoexílio. Quem constrói uma existência inteiramente baseada na ilusão da infalibilidade passa os dias vigiando as próprias fronteiras, sob o pânico constante de que qualquer vento inesperado mude a rota ou desfigure o planejamento original. O problema dessa proteção absoluta e neurótica é que ela nos rouba o chão: na tentativa desesperada de nunca parecer um derrotado aos olhos do mundo, abre-se mão da nossa própria e caótica humanidade.


Se encontrar na paz do batalhar exige uma mudança radical e profunda de perspectiva: deixar de operar como o espectador passivo que chora o plano desfeito para se tornar, finalmente, o escritor do seu próprio livro. Ser o autor da própria história, contudo, não significa ter o controle absoluto sobre o enredo. O mundo, com suas injustiças estruturais, acidentes de percurso e contingências brutas, frequentemente rasga nossas páginas mais bonitas e nos obriga a rascunhar capítulos inteiros sob o peso incômodo da frustração.

A autoria real se manifesta precisamente naquilo que escolhemos fazer com o manuscrito rasgado. Quando fracassamos em acumular as vitórias protocolares que a cultura da performance espera de nós, a nossa primeira e dolorosa reação é questionar o nosso local no passado, no presente e no futuro — como se a derrota operasse um apagamento completo da nossa identidade no mapa da existência. Mas o livro continua sendo seu, e a beleza do conjunto da obra inclui, necessariamente, a presença das ruínas.

A sagacidade colhida pelo caminho — esse envelhecer simbólico da alma que independe dos anos acumulados na certidão de nascimento — nasce justamente quando paramos de guerrear cegamente pela vitória e passamos a guerrear pela preservação da nossa história. É compreender que os recomeços compulsórios, embora muitas vezes profundamente injustos, são exatamente os parágrafos densos onde a nossa dignidade se recusa a silenciar ou morrer.

Escrever a própria vida é ter a audácia poética e política de assinar embaixo tanto dos palácios que conseguimos erguer com muito esforço quanto das cinzas que fomos obrigados a limpar sozinhos. Significa entender, no fim das contas, que o êxito não se traduz em um destino dourado onde a gente chega para finalmente ser feliz, mas reside na paz indescritível de conseguir se reconhecer, por inteiro e sem remorsos, em cada linha torta que ficou para trás.


*Este ensaio foi escrito a partir das provocações e releituras do texto original "MAS SE ENCONTRAR É MELHOR NA PAZ", publicado no Limoções em dezembro de 2024.

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