Dizem que o silêncio de quem some ocupa mais espaço do que qualquer barulho que a cidade saiba fazer. Quando uma cadeira fica vazia na calçada, o bairro inteiro parece segurar o fôlego. As perguntas vêm em rajadas, disfarçadas de rotina, mas carregam o peso de quem procura um nome nos editais, nas telas frias de busca ou no pior dos boletins. Sumir é deixar um rastro de pontos de interrogação no peito de quem fica nos portões, esperando o estalo de um passo conhecido.
O pior de sobreviver a uma tempestade silenciosa é que, quando o céu finalmente limpa, você percebe que a praia está vazia. Cruzar o deserto de si mesmo, domar os bichos que habitam o escuro e decidir, contra todas as estatísticas, continuar respirando, é um trabalho solitário. Mas o verdadeiro teste começa no dia seguinte. Quando os portões se abrem, a liberdade tem o gosto estranho de uma calçada onde ninguém mais espera. Os que perguntavam pelo paradeiro mudaram de rumo, os telefones silenciaram e o cenário que antes clamava por presença agora aprendeu a caminhar sem ela.
Existe uma violência sutil no olhar de quem fica. Uma linha invisível de suspeição que se deita sobre o corpo de quem conseguiu voltar inteiro. É como se a cura precisasse de um carimbo, de uma prova constante, de um exame de sangue diário impresso na testa. Olham para as mãos firmes e procuram o antigo tremor; olham para os olhos limpos e buscam a névoa de outrora. Ser livre, para o entorno, muitas vezes parece um blefe. O valor dessa reconstrução, que custou cada gota de suor e cada noite em claro no chão frio da renúncia, não se mede nas réguas comuns. É uma riqueza interna que não faz barulho, um ouro fundido no isolamento que ninguém ao redor consegue enxergar ou validar. Para eles, você ainda é o risco, nunca o milagre.
Nessa solitude de quem venceu a própria guerra, a dor muda de formato. Não é a saudade do que foi, nem o luto pelas companhias que se perderam no caminho. É a nostalgia do amanhã. Uma saudade dolorida daquilo que ainda poderá ser, o peso abstrato de um futuro que foi resgatado das cinzas, mas que ainda não tem paredes, nem teto, nem nomes para preenchê-lo. É o vislumbre de uma vida normal, com um café sem pressa, um trabalho sem vigília e um domingo sem fantasmas, que se sabe possível, mas que ainda se desenha como uma linha tênue no horizonte.
Andar pelas ruas com o peito leve, como quem cumpriu uma promessa feita no escuro para si mesmo, torna-se o único norte. Se não há ninguém na calçada para estourar os rojões do réveillon ou celebrar a colheita, a cura se basta. O corpo liberto aprende a ser sua própria testemunha. Sabendo o preço exato de cada passo dado de volta para a luz, ele caminha firme, carregando a certeza de que a maior dignidade não está em ser visto pelo mundo, mas em conseguir, finalmente, olhar-se de frente.
*Este ensaio foi livremente inspirado e provocado pelas costuras poéticas de "Chapa", de Emicida.
[ FENOMENOLOGIA DA ATIPICIDADE ]
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