Quem sou eu? Me perguntei esses dias se depois de tanto tempo valeria a pena rever quem sou. Passei uma vida metido em guerras que sempre acabavam ferindo quem eu sou ou era. O tempo, em algumas vezes, se mostrou favorável ao acelerar o processo de cicatrização de algumas feridas, mas mesmo antes de me recuperar, novos machucados já drenavam minhas forças. Mais uma vez me enganei ao pensar que estava pronto para me manter firme. Por diversas vezes cheguei a ignorar meus próprios pensamentos, minhas próprias vontades. Me encontro preso nesse belo fim de mundo e não convivo com a frustração de nunca ter tido uma oportunidade de mostrar quem realmente sou. Num atípico ato de rebeldia, me obriguei a lembrar de como é ser livre. Nunca desejei que tudo viesse fácil e que o mundo estive aos meus pés, mas sempre almejei ser quem quisesse ser. Existem tantas diferenças entre moldes, rótulos e etiquetas, porém prefiro continuar não me enquadrando. Por milhares de vezes repensei sobre quem deveria ser. Fiquei tempo demais me construindo e até agora não consegui terminar essa construção. Com certeza devo ter errado no planejamento, ou simplesmente nasci para não ser aceito. Fugi de mim para assistir de fora os rumos tomados por um mísero cego mal vestido e totalmente desnorteado. Será que posso dizer que tentei? Será que posso tentar de novo? Será que fiz o que era certo? Se não for eu, quem dirá o que é certo ou errado? Me calei! Me isolei! Pelo menos posso dizer que diversas vezes tentei ser eu. Pelo menos tive várias chances para evitar ser apagado. Diversas coisas, tantos sentimentos, muitas lembranças me machucaram por tanto tempo, mas agora não ligo mais e sobreviverei com um olhar brando de quem não deve nada para ninguém. Voltei para mim e tive que analisar se tudo estava bem... Não, não está nada bem! Se não posso ser quem quero ser, como posso continuar a viver? Desculpe-me se cheguei a rotular, mas num mundo onde a belíssima "arte de se encaixar" é tão importante, acabei conduzido pela falta de bom senso coletivo. Por um tempo fiquei desestruturado e encurralado pela falta de coragem e totalmente preso pela insegurança. Não pude ficar parado e não pude assistir nada acontecer. O tempo passou e continua passando rápido demais. O que eu sou ou o que fui quase foi totalmente apagado pelas atitudes ditatoriais de quem pensa que pode intitular severas regras para a criação de péssimos escravos desmotivados. Não sei se recuperarei as tonalidades originais do meu eu interior que, mais uma vez, está cavando sua própria sepultura para fugir da destruição provocada por forasteiros. Isso não deve ser considerado como uma vitória dos ditadores, mas sim uma vergonha pois estou livre para ser quem quero ser! Adeus maldita ganância que tenta implantar falta de caráter em tantas pessoas. Adeus hipocrisia barata que tenta corromper a originalidade e autenticidade de cada pessoa que consegue coagir. Viverei me reinventando. Viverei me libertando. Viverei me doando. Viverei me descobrindo e morrerei como quem decidir ser. Nunca uma ditadura decidirá como devo ser, ou pelo menos enquanto estiver em meu juízo perfeito.
Esses dias olhei para trás e, no extremo silêncio, pude ver um longo rastro de dor. Distante de toda alegria, fui perdendo o orgulho de ter conseguido chegar tão longe. Nunca é fácil, não será simples e nada será tão diferente do que um dia foi. Os sorrisos que camuflaram a dor eram apenas quebra-galhos que me livraram de tantas perguntas. Muita coisa foi antecipada por pura burrice e o que aconteceu antes do tempo foram apenas erros irreversíveis. Numa visão voltada para uma realidade alternativa, pude ver um contentamento interno e externo que me fazia enxugar as lágrimas.

Ter uma única certeza que se resume em sombras sempre será característica de um coração pesado. A única certeza que tenho é que quando tudo fica difícil - e tudo ficará difícil alguma vez - o que me revitaliza é saber que me mantive eterno numa simples fotografia. Toda coleta de imagens relacionadas a mim, foram feitas para eu mesmo e para que nunca me perca em memórias confusas ou em florestas emocionais cheias de armadilhas. Meu olhar sempre permaneceu atento para conseguir decodificar as mudanças mais singelas de "pessoas interiores" que um dia foram chamadas por mim de personalidade. Meu coração sempre esteve partido e mais uma vez o tempo se congelou para que essa característica se mantivesse firme em todos os retratos. Nunca fui de fácil acesso, mas alguém sempre me guardou num baú longe de toda ação do tempo para que simplesmente eu pudesse durar para sempre. Como uma foto, sempre fui "levado" para todos os lados afim de sempre ser a companhia de alguém. Num certo dia de fúria fui rasgado em centenas de pedaços e mesmo sem perspectivas tive que me remendar. Se as más lembranças estão intrinsecamente presas em cada pedaço de mim, acredito que continuarão comigo até a minha morte. Eu sei que as palavras doem e elas sangram e fazem sangrar, mas quem nunca sangrou não deve ter vivido uma verdadeira vida. Em meio a essa hemorragia causada pelo sofrimento, a essência de cada foto sempre conseguiu suturar todo tipo de ferida.
Meu lugar até hoje não descobri onde é, mas sei que dentro de mim as bandas da minha "terra interior" me aguardam. Percebi que por mais uma vez me deixei de lado na história e, com certeza, existem tantas saudades nesse mero sonhador que tive que pedir para a felicidade passar rápido e não zombar de mim. Diga felicidade, por que você prefere ficar ao meu redor e fazer participações rápidas pela minha vida? Você poderia simplesmente não existir ou talvez ficar para sempre nela. Eu sei que posso esperar, mas precisarei aprender a lidar com isso, e tenho a plena certeza de que você não terá tempo para me esperar. Desejei tanta alegria que quando percebi que uma história inteiramente feliz não existia, senti meu coração pipocar de duvidas. Depois de cada decepção abro um sorriso para expressar o contentamento e/ou conformação de um "alguém" que simplesmente adora se iludir.