14.3.17

ABRO MÃO DAS INTERPRETAÇÕES DAS MINHAS PALAVRAS

Leia o que escrevo e escute o que tenho a dizer, mas, se possível, use seu coração para entender cada palavra e não acreditar que minhas orações não passam de falacias. Eu sei que tenho muito o que dizer e sei que muitas palavras não foram terminadas, muitas interpretações foram equivocadas e muito daquilo que era para ser puro se tronou contaminado. Sei que ainda tenho o direito de dizer que o que falo e escrevo vem do coração, vem da alma, vem de cada centímetro de tudo que sou. Leve em consideração cada texto, cada frase, cada citação, cada verso, cada rima, cada composição de amor ou de mágoa. Leia as entrelinhas, sinta a vibração de cada verdade, considere cada entonação, cada pontuação e me dê o direito de ser compreendido e não interpretado, simples e não problematizado, puro e não contaminado.

Eu sou dono de tudo que criei. Sou o escritor de tudo que escrevi, portador de tudo que não pudi dizer. Sou cada palavra que ficou lá trás, que ficou guardada no coração do outro, sou cada letra que machucou ou reconstruiu ou devastou. Sei que o que digo tem valor, mas eu já disse muito, já fiz muito e já me cansei de tentar ser ouvido e sentido. Não preciso que me interpretem. Não preciso que me lembrem de tudo que passou. Não quero que me transformem em palavras, que peguem tudo que sou e me transformem em fábulas. Já sou palavras demais, textos demais, interpretações demais e o senhor das minhas palavras. Não sou atemporal, tenho uma validade determinada, portanto não me faça viver para sempre, não me deixe existir mais do que devo. Por favor, me deixe fora das suas palavras, não me inclua nas suas composições de dor, não me leve para longe com a sua boca, não se lembre de mim quando quiser dizer, sorrir, chorar e continuar a estar longe.

Sou minhas próprias decepções, sou minha própria morada e sou minhas próprias locuções. Sou o cansaço e a caracterização da loucura. Sou a boca que mais fala e o coração que mais se cala. Sou o ditador e a voz abafada. Eu segui meus discursos e transformei minhas palavras em pessoas. Eu compus demais e vi todos se transformarem em personagens. Eu quis ser o dono das expressões alheias e hoje assisto minhas intervenções criarem vida. Não deixei minhas palavras para transformarem e corromperem ninguém, porém todas as apropriações da minha voz dizem que são resultados de tudo que falei, escrevi. Estou farto de tanto dizer, de tanto escrever! Não quero mais usar a voz do outro, não quero mais criar uma voz para o outro, não quero mais ter que ser o senhor dos diálogos, não quero ter que ser o primeiro a jogar a primeira palavra e nem o último a ter que se arrepender de tudo que fala. Cansei-me de mergulhar em discursos de ódio, de amor, de alegria, de tristeza e de qualquer outra sensação que não seja tão eterna quanto as palavras, quanto os sentimentos que carregam as palavras. Me proíbo de estar aberto a interpretações por não merecer mais ser mal interpretado, por não querer mais ser considerado errado, por estar saturado de tantas conclusões equivocadas. Eu quero ser sentido. Quero ser real.  Quero não ter que ver mais minhas arengas serem ignoradas, meus ensinamentos se virarem contra mim e minhas verdades serem ignoradas.

Eu achei minha voz. Meu som. Minha praia. Meu modo de viver. Me encontrei em minhas próprias declarações. Eu sei que estarei seguro estando de junto das minhas palavras. Ficarei bem sem ter que ser interpretado, sem ter que pedir constantemente que me sintam, que me devolvam as características que são minhas. Se puder me sentir por mais uma vez, eu terei a minha voz e seguirei em frente. Tenha sua voz a partir de agora. Esqueça minhas palavras. Me deixe exatamente onde quero estar; sempre no tempo de cada coisa.