DESPENCADO


É impossível contar quantas vezes ameacei ir embora sem qualquer pretensão de voltar. Eu não conseguiria contabilizar quantas foram as vezes que tive minhas asas cortadas ficando impossibilitado de voar. Não consigo ao certo dizer quantas vezes tive que sobreviver de migalhas que eram jogadas a mim no meu carcere. Jamais poderei ao certo dizer quantas notas tristes e dolorosas cantei enquanto eu permanecia sob custódia de acontecimentos pretensiosos.

Eu não aguentei viver naquela gaiola. Não pudi resistir ao ver meu espaço sendo delimitado por quem continuaria do lado de fora assistindo meus anos passarem. Eu tinha vontade de voar novamente rumo à minha história, rumo ao conhecido, rumo ao sabor da saudade e ao sentimento de amor que me esperavam longe daquela cela. Eu não havia feito qualquer mal. Não havia cometido qualquer afronta. Não havia voado por lugares não meus. Eu almejava ter a oportunidade de voar para casa, para o lugar de onde vim, para um lugar que me acolhesse de verdade, para a terra que não fosse delimitada por grades, para a água fresca, para o calor do sol e para a brisa em meu rosto. Eu só queria poder viver, não sobreviver.

Balancei a gaiola. Fui ao chão, despenquei.
Vamos conversar?