EU NÃO QUIS VER

Por Tiago Lima - 5.8.18
Eu estava cego? Como tive minha visão deturpada? Sempre fui aquele que via antes, que percebia antes, que agia antes, então como pude não ver o óbvio? Será que fechei meus olhos para não ver? Será que me enchi de ilusões e não me permiti ver?

Fui caminhando pelo vale de mãos dadas com as serpentes e me fiz acreditar que elas eram minhas amigas. Não entendo no que errei. Me apeguei ao poder da esperança para ver naqueles animais repugnantes algo de bom e o que ganhei em troca? Será que usei a esperança para camuflar a minha ideia de que poderia ser amado? Sei que usei a minha fé no lugar errado, mas por que não pude ser presenteado com a materialização das minhas expectativas? Precisava sentir o amor mesmo desacreditando que ele poderia existir naquele meio. Não era nobre o meu pensar?

Estava eu no vale caminhando com as serpentes até que elas pararam de caminhar ao meu lado e soltaram as minhas mãos. Ali entendi o que estava prestes a acontecer. A culpa era completamente minha por ter me feito cego. Fiquei imóvel e calado. Nada poderia evitar o inevitável. As mesmas serpentes que agora me enchiam de veneno foram a razão de eu ter sentido fé. As minhas convicções foram ao chão junto comigo. As minhas amigas serpentes foram embora. Agora eu me rasteja pelo chão e esperava o momento certo de chegar a hora de encontrar com a morte. Doía tanto sentir aquele veneno percorrer meu corpo e doía ainda mais o fato de eu ter me feito cego. Eu fechei os meus olhos e tentei acreditar numa ilusão.

Foi possível ver que a culpa era minha. Sempre fui um idealista e acabava fechando os olhos para o óbvio toda vez que me apegava a um sonho. Que sonho era esse? Ser simplesmente amado. Não queria nada além de dar e receber amor. Dar amor foi um objetivo que alcancei, mas do que me adiantou entregar tanto de mim se agora estou caído aqui sem conseguir nem caminhar? Eu volto a reafirmar que a culpa foi minha. Nunca existiu ninguém com um bom coração. Talvez nem eu tenha um. Já que me fiz cego, prefiro fechar os olhos e voltar a ver a ilusão. Estou prestes a morrer e quero ao menos poder acreditar que as minhas amigas serpentes conseguiram ser diferentes da sua natureza.


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