REOUVIR

Por Tiago Lima - 28.4.20

Não deixamos de seguir por caminhos diferentes daqueles em que acreditávamos, assim como não abrimos mão do direito de desbravar o que já era conhecido. O novo não é o foco por agora. O desconhecido não é almejado. O que já ouvimos, o que já lemos e o que já dissemos não é relevante no atual. O que é palpável já foi objetificado e desvalorizado, assim como foi exposto como troféu naqueles dias de conquista. São verdadeiros os dias de vitória, são reais as respostas das perguntas, são certeiras as decisões tomadas e são cheirosas as flores que desabrocharam para a nova estação.

Estagnados. Parados. Quietos. Assim é a visão que brota em meio ao desaconchego do antigo, do já conhecido, de tudo aquilo que já foi vivido. Não estamos vivendo um replay, não estamos rebobinando a fita e nem sequer vivemos um sonho. O universo nos apresenta o direito de conhecer o conhecido. Estamos sendo surpreendidos pelo o que já vivemos. O olhar que já passou despercebido, busca qualquer sinal de importância, qualquer característica mística, qualquer que seja a justificativa, desconfia. O espaço de tempo é grande, é imenso, mas finito. Passamos tempo o suficiente para perder a contagem do tempo. Deixamos o espaço em segundo plano, enquanto preenchíamos todos os cantos de objetificação. Bagunça. Arruma. Acumula. Percebemos o que não tínhamos percebido e recebemos de volta a chance de ver o que não quis ser visto.

Quem não conhece os passos que deu deve se preocupar com o que não viveu? Quem não reconhece os lugares que passou deve se preocupar com o que não viu? As histórias que não contamos e os sonhos que não sonhamos pertencem a outrem. As músicas que não ouvimos e as vezes que não sorrimos pertencem a alguém. O que se foi constituído pela negligencia e forjado pela ausência de detalhes deve ser revivido. Parece que chegou o momento de nos rever, reouvir, refazer, se desfazer. Qualquer que seja a dúvida ou qualquer que seja a resposta, deixemos que os detalhes refaçam a nossa história.

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