ENQUANTO A VIDA ACONTECE

By Tiago Ferreira - 4.4.21


Enquanto a vida acontece, eu tenho planejado maneiras de permanecer em pé. E é tudo tão louco que já faz certo tempo que não recebo qualquer palavra de conforto. As pessoas desistiram de tentar me acompanhar, cansaram de tentar entender as minhas tentativas e abandonaram a camaradagem que nutriam por mim. Enquanto assisti pessoas deixando de querer estar ao meu lado, eu fui desenvolvendo minha percepção de solidão. O fato é que - em algum momento - eu cheguei a imaginar que era possível estar completamente sozinho. Não creio que estive errado, mas tenho tentado perceber qualquer potencial sinal que indique uma nova tentativa de alguém em criar qualquer tipo de conexão comigo. Não sei mais como é ser reparado por alguém, mas me lembro bem de como é ser deixado de lado. Acho que em determinados momentos a gente precisa deixar partir aqueles olhares cansados, aquelas palavras desgastadas, aqueles corações que já desistiram e aqueles sorrisos que já não sorriem mais. Parece que esse é o fluxo da vida: as coisas simplesmente acontecem.
Enquanto a vida acontece, eu tenho desenvolvido meus próprios métodos de permanecer vivo. Não sei ao certo o que é a vida, não sei qual é o meu propósito e não sei em qual grau de satisfação pessoal ela começa valer a pena. Faz um certo tempo que desisti de escrever sobre alguns aspectos do viver, assim como escolhi me abster de desvendar as potencialidades que me esperam para além dos meus próprios domínios. Me sinto meio cansado de ficar por aí investigando coisas, lendo pessoas, analisando possíveis reações e tentando desvendar coisas para além do que me propus viver. Me sinto dono daquilo que já tive a chance de conquistar, mas isso não me impede de entristecer ao lembrar de tudo aquilo que precisei abrir mão para continuar onde estou. A vida não se baseia em andar, andar, andar, andar e andar para obter aquilo que queremos. Não estamos constantemente em movimento e nem sempre encontraremos novos caminhos quando nos sentirmos perdidos. Se perder, sair da trilha, ter medo de andar, pausar o caminho, diminuir os passos, se cansar, parar para se perceber, desistir de uma caminhada e tirar um tempo para respirar são possibilidades que também compõem a vida. Estou aprendendo a lidar com os métodos que desenvolvi para permanecer aqui, mas também estou aprendendo que a vida não se resume apenas ao que sou, a onde estou e até onde estou disposto a suportar. Parece que finalizei a minha saga de juventude que consistiu em sair por aí coletando supostos aprendizados para me vangloriar num projeto de envelhecer sábio

Enquanto a vida acontece, eu fui transcrevendo o pouco que tive a chance de observar. Nem sempre me vi como protagonista, e isso me faz ter ainda mais certeza de que já faz bastante tempo que encontrei o meu lugar. E não precisa chamar de casa, não precisa retomar o conceito de lar, não precisa buscar apoio no passado e não precisa se preparar para fazer um balanço do seu próprio legado. Tomei para mim a verdade absoluta de que meu lugar é onde eu simplesmente existo. Ele não precisa ser confortável, estar arrumado e ter uma boa aparência. Meu lugar precisa ser real para mim, precisa significar algo para quem sou, precisa abrigar a imensidão que me comporta, precisa ter espaço para a grandeza do meu silêncio, tem que acomodar todas as palavras que eu não falei, precisa estar sempre comigo e me abrigar quando eu estiver inseguro. Não gosto de imaginar o meu lugar como algo fixo, como um prédio imóvel, como um cômodo cheio de significados, um quarto cheio de livros empoeirados ou uma caixa que me impede de enxergar o que existe para além de mim. E não foi fácil definir o lugar onde estou, ainda mais se eu considerar os lugares que já estive, mas aprendi que um lar, uma casa, uma residência não pode existir sem a originalidade do seu projeto. Estou confortável por aqui. Ainda tiro e coloco coisas do lugar. Ainda pinto paredes, mudo fotografias de molduras, não encontrei uma capa legal para as almofadas do sofá. Ainda não sei se vou ter disposição para ser pai de plantas, não sei se usarei coberta ou edredom e não escolhi ainda se vou querer uma cortina em tons terrosos na sala. Estou me fazendo caber no espaço que delimitei. Enquanto a vida acontece, eu escolhi me fazer lar, me chamar de casa própria.

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