A ÉTICA DO ESCRITO E A RECUSA DA FÁBULA

Por Tiago Lima - 8.8.26
[ acervo vivo : 11 anos de limoções ]
Este ensaio integra a cartografia comemorativa de 11 anos do Limoções — um exercício de escavação e releitura dos nossos próprios arquivos textuais e visuais. Para percorrer os contornos e as ruínas dessa jornada, visite a página do nosso Acervo Histórico.

Se há uma urgência que o tempo presente nos impõe, é a de estabelecer um limite radical entre o direito de se expressar e o fetiche alheio de interpretar. Em 2017, o Limoções lançava linhas que já tateavam esse esgotamento: o cansaço de ver a própria voz transformada em personagem, em liturgia para o consumo ou em distorção conveniente na boca do outro. Quase uma década depois, em 2026, esse diagnóstico não apenas se confirmou, como se industrializou. Escrever hoje exige, antes de tudo, uma postura de recusa.

"Me proíbo de estar aberto a interpretações por não merecer mais ser mal interpretado, por não querer mais ser considerado errado, por estar saturado de tantas conclusões equivocadas. Eu quero ser sentido. Quero ser real. Quero não ter que ver mais minhas arengas serem ignoradas, meus ensinamentos se virarem contra mim e minhas verdades serem ignoradas. Eu achei minha voz. Meu som. Minha praia. Meu modo de viver." — Do ensaio original (2017)

Historicamente, a palavra e o poder de conferir sentido a ela foram sequestrados por uma estrutura que dita quem fala e quem é apenas falado. Como nos lembra a pensadora Grada Kilomba em suas discussões sobre a Política da Voz, o sujeito que detém o privilégio do discurso tende a transformar a narrativa do outro em um objeto de estudo, uma alegoria ou, pior, uma falácia. Quando o autor negro ou subalternizado levanta sua voz, o sistema raramente o escuta com o coração; ele o esquadrinha, o problematiza e tenta encontrar ali uma "contaminação" que justifique sua tutela intelectual.

Contra essa engrenagem de apropriação, a recusa em ser interpretado transmuta-se de um cansaço pessoal em um manifesto de soberania. A historiadora Saidiya Hartman conceitua esse fenômeno ao criticar a "fabulação" — o ato violento de pegar os fragmentos de vidas e experiências reais para transformá-los em fábulas institucionais ou narrativas de conveniência. Dizer "não me faça viver para sempre, não quero que me transformem em palavras" é um eco exato dessa recusa de Hartman. É o direito sagrado de não ceder a própria subjetividade para que ela se torne propriedade do imaginário ou do arquivo do outro.

Essa autogestão do discurso não é um recuo para o silêncio covarde, mas a ativação da fala nos termos da própria sobrevivência, um princípio que Audre Lorde imortalizou ao defender a transformação do silêncio em linguagem e ação. Lorde nos ensina que a autopreservação é um ato político. Estabelecer que a própria voz tem validade determinada, que ela pertence à carne e ao momento em que foi parida, é impedir que o mercado da empatia barata ou do ódio digital use nossos escritos como munição atemporal.

Ao revisitar o passado sem permitir que ele nos engula, firmamos a nossa morada em nossas próprias locuções. Esse movimento evoca diretamente o pensamento da filósofa Sueli Carneiro ao discutir as Epistemologias do Sul e o imperativo de sermos os únicos produtores e guardiões da nossa própria verdade. Carneiro nos alerta para o dispositivo do epistemicídio — o processo histórico de negação, deslegitimação e rasura da capacidade intelectual e existencial de sujeitos subalternizados. Quando recusamos as chaves de leitura que o outro tenta nos impor, estamos operando uma desobediência epistêmica legítima. Não se trata apenas de olhar para trás, mas de demarcar que o arquivo da nossa memória não está aberto para visitação pública ou para auditorias conceituais de quem está longe. Habitar as próprias locuções significa que o nosso texto antigo não é um fóssil a ser dissecado por terceiros, mas um território soberano cuja única tradução possível é a presença de quem o escreveu. É o estancamento da hemorragia discursiva que tenta, a todo custo, transformar nossa carne em objeto de estudo e nossa história em patrimônio alheio.

A Ética do Escrito para o Limoções em 2026 se resume a isto: não criaremos mais vozes para o outro, nem aceitaremos que criem molduras para a nossa. Diante de um mundo saturado de conclusões equivocadas e arengas vazias, abrimos mão das interpretações. Exigimos o real. Exigimos ser sentidos, e não traduzidos.

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Referências Bibliográficas
  • CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não-ser como fundamento do ser. São Paulo: Aparelha/Zouk, 2023.
  • HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Eco Pós, v. 23, n. 3, p. 12-33, 2020.
  • KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
  • LIMOÇÕES. Abro mão das interpretações das minhas palavras. Publicado em 14 de março de 2017. Disponível em: <https://www.limocoes.com.br/2017/03/abro-mao-das-interpretacoes-das-minha.html>. Acesso em: 22 jun. 2026.
  • LORDE, Audre. A transformação do silêncio em linguagem e ação. In: LORDE, Audre. Irmã outsider: ensaios e conferências. Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

*Este ensaio foi escrito em continuidade crítica e derivativa ao manifesto original "ABRO MÃO DAS INTERPRETAÇÕES DAS MINHAS PALAVRAS", publicado no Limoções em 14 de março de 2017.

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