REFLEXÕES SOBRE A EXAUSTÃO COTIDIANA E O ENVELHECER
A recusa em sucumbir à pressão sistêmica diária e a persistência histórica diante de cenários de exaustão absoluta revelam uma das facetas mais complexas da subjetividade contemporânea: a conversão do fardo e do esgotamento em uma métrica de valor moral. Ao obliterar a possibilidade do descanso como direito legítimo, o indivíduo passa a habitar a própria exaustão. Tensionar essa romantização do cansaço e confrontar os limites do envelhecer a partir de perspectivas estruturais impõe-se, em 2026, como uma tarefa urgente de insubordinação existencial.
"A gente segue não sucumbindo, mas vai desenhando aquilo que nos encaixe, como os gatos se encaixam. É para estarmos segures, em paz, em harmonia. E se a desarmonia foi local de estadia e a loucura acompanhar o envelhecer, seremos velhos arranjos desarmônicos." — Fragmentos do registro original (16/10/2023)
1. A Romantização do Esgotamento e a Engrenagem da Sobrevivência
O que muitas vezes é lido puramente como resiliência ou heroísmo individual precisa ser analisado sob a ótica das estruturas históricas de opressão. Como discute Sueli Carneiro (2005) ao conceituar o dispositivo de racialidade, as dinâmicas de poder na sociedade brasileira impõem de forma desigual o peso do trabalho e a necessidade de uma postura permanentemente defensiva e combativa para a garantia da sobrevivência.
Essa negligência com o próprio corpo — manifestada na dor lombar que hoje ignoramos — e o amortecimento dos sentidos através de fones de ouvido no volume máximo funcionam como anestésicos imediatos contra as asperezas de um cotidiano dolorido. Contudo, essa tentativa de silenciar o presente cobra juros altos no amanhã, gerando um isolamento progressivo. O imperativo de manter-se produtivo e inabalável reflete uma lógica que penaliza o adoecimento e a vulnerabilidade, transformando o autocuidado e o repouso em privilégios inacessíveis para a maioria, que se vê forçada a negociar diariamente os limites da própria integridade física e psicológica.
2. A Transição de Valores e as Escrevivências do Cotidiano
O horizonte de possibilidades reduz-se àquilo que nos é viável reter. O ato de escolha transformou-se em um privilégio cujos critérios sofreram uma inversão radical ditada pela pressa: se antes a busca pautava-se pelo valor financeiro ou pelo status, a urgência atual prioriza o que é prático e rápido de preparar. A rotina passa a ser colonizada pela lógica da conveniência mecânica. Contudo, mesmo sob o jugo dessa engrenagem, resistem focos sutis de desaceleração e imprevisibilidade — como o desejo repentino de testar uma receita aleatória de pão ouvida no cotidiano.
Esse movimento de resgate da matéria e dos sentidos assinala um cansaço profundo em relação ao fluxo contínuo e efêmero das redes virtuais. As telas perdem sua centralidade na medida em que os livros físicos demandam ser abertos, tocados, anotados e terminados. Essa necessidade de registrar e resgatar a própria trajetória através da palavra e do toque aproxima-se do conceito de escrevivência cunhado por Conceição Evaristo (2007). A escrita e a leitura deixam de ser meros passatempos intelectuais e passam a figurar como um ato político de inscrição de si no mundo, uma recusa ao apagamento subjetivo provocado pelo ritmo avassalador da modernidade.
3. A Busca pelo Encaixe e a Aceitação da Desarmonia no Envelhecer
Embora a postura de não sucumbir permaneça, o foco desloca-se progressivamente para a busca de espaços de acomodação e proteção que ofereçam paz e harmonia, assemelhando-se à capacidade orgânica de adaptação dos felinos aos ambientes que habitam. Compreende-se, eventualmente, que se a desarmonia foi o nosso local de permanência e a perda da lucidez linear acompanhar o processo de envelhecimento, restará a aceitação de uma condition existencial singular: seremos, fundamentalmente, velhos arranjos desarmônicos.
Como assevera Simone de Beauvoir (2018), a velhice não constitui apenas um fato biológico, mas uma realidade existencial e cultural que desafia o projeto de produtividade e harmonia artificiais exigidos pela sociedade capitalista. Essa leitura ganha contornos ainda mais específicos na realidade brasileira quando tensionada pelo pensamento de Lélia Gonzalez (1984), que nos convida a desmascarar as neuroses culturais e as contradições da nossa formação socio-histórica. Envelhecer fora dos padrões de utilidade e simetria impostos pelo mercado é, por si só, um ato de insubordinação.
A realidade exterior preserva seu curso de maneira indiferente aos ritmos humanos. Diante dessa finitude, torna-se imperativo o exercício da autorreflexão e da catalogação de si. Há um acúmulo de vivências pendentes de elaboração: fotografias que aguardam legendas e despedidas que demandam um desfecho formal. O amadurecimento traz consigo a percepção libertadora de que nem tudo é sagrado, urgente ou relevante. Desmistificar las demandas externas é o que nos permite reconhecer o processo de envelhecimento não como um fardo, mas como o próprio lugar do aprendizado acumulado ao longo da caminhada.
- BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.
- CARNEIRO, Sueli. A Construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
- EVARISTO, Conceição. Da grafia-desenho de minha mãe um text de cantos beges e pretos. In: SOUZA, Florentina; LIMA, Maria Nazaré M. (orgs.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
- GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, ANPOCS, p. 223-244, 1984.
Retratos de 2026: A Cronologia dos Textos
O ano começou com reflexões profundas sobre as estruturas de poder na formação acadêmica, os tensionamentos entre a rigidez técnica e o fôlego poético, e a reafirmação do Limoções como um manifesto de escrita viva, interseccional e visceral.
Discussões cruciais que interligam a saúde mental ao racismo institucional e às dores do ambiente acadêmico, transformando a palavra em uma trincheira política de resistência contra o adoecimento silencioso e a solidão dos espaços formais.
Um mergulho na alteridade através do olhar atento sobre a adolescência, combatendo narrativas coloniais de "história única" e promovendo a necessidade urgente de uma escuta ativa diante dos traumas invisíveis e da vulnerabilidade juvenil.
Um mês denso de teorização teórica e filosófica, onde se delineou a Fenomenologia da Atipicidade e se disparou uma crítica feroz às patologizações coloniais da subjetividade, erguendo o autoperdão como um ato de legítima insurgência existencial.
O desmascaramento das falsas simetrias e violências veladas nas práticas de saúde mental institucionalizadas, oferecendo ferramentas conceituais práticas para a blindagem do ser atípico contra as agressões disfarçadas de normatividade.
A demarcação final do espaço interno do indivíduo: a escrita assumida inteiramente como quebra e desobediência, e o recuo estratégico de batalhas vazias em prol da salvaguarda e santuário do próprio Eu.
*Este ensaio foi escrito em continuidade crítica, teórica e derivativa ao texto de arquivo "VELHOS ARRANJOS DESARRMÔNICOS", publicado originalmente em 16 de outubro de 2023 e preservado na cartografia do Acervo Vivo do Limoções.
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