Não sei se você quer saber como me sinto, mas vou dizer como sua bagunça emocional me deixou.
Eu sempre fui e voltei, caminhei e parei, construí e destruí, gostei e desgostei. Você me conheceu exatamente assim: nômade. - Mas por incrível que pareça nem fez questão de valorizar os meus esforços de ir contra a minha natureza cigana por você. - Enquanto que eu sempre fui quem sou, você foi muitas coisas, muitas pessoas, muitos sentimentos, muita bagunça e, acima de qualquer coisa, bastante egoísta. Todos os traços que existem em mim, jamais poderão ser perfeitos. Todas as minhas características que mais te incomodam, parecem intocáveis, impossíveis de serem extintas ou alteradas. Não adianta chorar, gritar, fazer birra, me insultar e relutar para aceitar quem sou. Meu jeito diferenciado de ser, de ver, de ouvir, de sentir e de demonstrar o que sinto é legado da minha trajetória de vida. Meus sentimentos já estiveram muito confusos em relação a você, mas eu me defini quando percebi que seria impossível ir embora.
Todas as suas acusações e todos os seus medos parecem que são mais em relação a você do que sobre mim. Pode dizer que estou errado, mas mal cheguei a cometer de fato todas as atrocidades que você faz questão de colocar sobre mim. Não adianta começar a elencar meus erros agora, pois você nem sequer consegue lembrar dos meus acertos. Não me procure em suas imaginações e não tente me colocar nos seus roteiros de drama, pois há muito tempo você não me vê real, não me vê como devidamente sou. Sempre que suas ideias se distorcem a meu respeito, você coloca todos os seus medos acima do que sinto e acima de tudo que te entreguei para simplesmente me transformar na pior criatura do mundo. Pelo menos por hoje me arrependo de não ter sido um pouquinho de tudo que você disse que eu era ou ter feito boa parte de tudo que você disse que fiz.
Do que me adiantou construir castelos
Se a primeira tempestade foi capaz de derrubar
Todas as promessas e juramentos
Conseguiu colocar abaixo tudo que saiu do coração
Tudo que parecia verdadeiro e sólido
Infelizmente me enganei
Construí em solo instável
E temi quando o vento soprou
Me obriguei a assistir a areia engolir
Tudo que parecia firme e seguro

Matar o que sentíamos um pelo outro não foi uma tarefa
minha, mas, se é para sermos os dois culpados, me responsabilizo por ter dado o
primeiro passo para longe. Não foi minha intenção cortar nossa relação e muito
menos foi minha intenção ser transformado em vilão, mas confesso que ainda
espero você me procurar. Toda manhã verifico todas as minhas redes sociais na
esperança de encontrar uma mensagem. Verifico meu telefone procurando uma
ligação. Parece que você aderiu à ideia de não insistir e preferiu não mudar
por nós. Sua escolha de continuar com o passado é completamente perturbadora e
sua postura gélida e devastadora.
Tem sido complicado demais, confesso
É muito sofrido se levantar dos escombros
Tem muito o que recuperar
E muito mais a descartar
Existem feridas para serem curadas
Tem muitas lembranças descartadas
É foda demais se levantar
Depois de tudo desabar sobre você
O medo envenena a alma
A mágoa atrapalha a esperança
É cansativo ter que continuar
Depois de se frustrar
Depois de se ver no inferno
Não tem como salvar o mundo
Quando seu próprio mundo desmoronou
Quando o amor se perdeu nos escombros
Quando tudo que era sólido veio ao chão
É uma tarefa ferrada seguir pela a estrada
Tão cansado e desamparado
Tão sozinho e ignorado

Desacreditei no que me cerca
Deixei para trás o amanhã
Eu enterrei o que vivi
Matei o que vi e ouvi
Deixei meus ensinamentos de lado
Fiz da minha descrença meu palco
Meu grito de tanto faz
Minha bandeira de não aguento mais
Leia o que escrevo e escute o que tenho a dizer, mas, se possível, use seu coração para entender cada palavra e não acreditar que minhas orações não passam de falacias. Eu sei que tenho muito o que dizer e sei que muitas palavras não foram terminadas, muitas interpretações foram equivocadas e muito daquilo que era para ser puro se tronou contaminado. Sei que ainda tenho o direito de dizer que o que falo e escrevo vem do coração, vem da alma, vem de cada centímetro de tudo que sou. Leve em consideração cada texto, cada frase, cada citação, cada verso, cada rima, cada composição de amor ou de mágoa. Leia as entrelinhas, sinta a vibração de cada verdade, considere cada entonação, cada pontuação e me dê o direito de ser compreendido e não interpretado, simples e não problematizado, puro e não contaminado.
Eu sou dono de tudo que criei. Sou o escritor de tudo que escrevi, portador de tudo que não pudi dizer. Sou cada palavra que ficou lá trás, que ficou guardada no coração do outro, sou cada letra que machucou ou reconstruiu ou devastou. Sei que o que digo tem valor, mas eu já disse muito, já fiz muito e já me cansei de tentar ser ouvido e sentido. Não preciso que me interpretem. Não preciso que me lembrem de tudo que passou. Não quero que me transformem em palavras, que peguem tudo que sou e me transformem em fábulas. Já sou palavras demais, textos demais, interpretações demais e o senhor das minhas palavras. Não sou atemporal, tenho uma validade determinada, portanto não me faça viver para sempre, não me deixe existir mais do que devo. Por favor, me deixe fora das suas palavras, não me inclua nas suas composições de dor, não me leve para longe com a sua boca, não se lembre de mim quando quiser dizer, sorrir, chorar e continuar a estar longe.

Isso não é um discuso de ódio, então não tenha medo de ler.
Ainda lembro-me daquelas tardes gostosas que passamos juntos. Você me deixava te tocar fisicamente e me permitia acariciar sua alma. Não me esqueci de todos os nossos risos sem motivos que nos faziam ver a beleza do mundo um do outro. Por que você escolheu lembrar apenas de mim como quem nunca te fez bem? Por que fez questão de se esquecer de tudo de bom que fizemos um ao outro? Eu não sei o que te fez acreditar que o amor é sempre magoar, chorar, remoer e fazer com que o passado seja sempre presente. Eu ainda me lembro de tudo de bom que vi em você. Me lembro de todas as vezes que chorei por você. Jamais me esquecerei de todas as vezes que te entreguei a minha alma, o meu coração e minha vida. Enquanto que eu era verdadeiro demais, autentico demais, intenso demais e sofrido demais você fez questão de se tornar o oposto. Pegou suas coisas, seus sentimentos, seu coração, seu sorriso, suas emoções e trancou numa jaula de junto do egoísmo. Fez com que todos tivessem pena de você enquanto que eu engolia a seco todo o meu sofrer. Se colocou exatamente em primeiro lugar para curar em si as feridas que eu não tive culpa de criar. Disse que estava disponível para viver ao meu lado, mas quando teve a chance puxou a corda, que eu não tinha visto você colocar, e matou o meu amor enforcado.
Mais uma queda, nenhuma novidade
Mais uma decepção, não tinha coração
Mais uma expectativa frustrada, vitima da ilusão
Mais um momento só, previsível solidão
Nada fora novo, os mesmos desgostos
Não teve o que doer, tudo isso já era familiar
Não existia o que falar, nada tinha valor
Não tinha o que remoer, só restava voltar a andar
Finalizada a etapa
Ensinamentos apreendidos
Lembranças guardadas
Nova jornada.
Mamãe nunca me disse o quanto seria difícil viver
Nunca me ensinou como enfrentar os obstáculos
Nem me mostrou como juntar meus cacos
Nunca mencionou que seria doloroso ser
Que seria doído ser quem se quer ser
Mamãe ensinou a ficar na forma
A não mudar de forma
Disse que se fosse para mudar
Que continuasse com as mesmas características
Que ninguém se cria e nem se recria
Mamãe me fez acreditar que o problema estava mim
Disse que seus parâmetros eram os corretos
Que meu crescer e meu desenvolver eram equivocados
Que somente os moldes poderiam me reger
Me construir, me fazer vencer
Mamãe me disse que minha única amizade deveria ser a solidão
Ela me ensinou que quando deixamos a porta aberta
Convidamos o mal, a falsidade e a desolação
Mamãe me fez ver que não existe confiança
Que ela esteve certa e eu desorientado.
Sei que talvez seja difícil acreditar no presente, mas peço fé. Um montão de fé. Uma quantidade infinita de crença no que ainda não aconteceu. Uma quantia interminável de fé no presente, naquilo que é reconstruído ou construído. Ódio, eu sei que existe muito sobre o passado e sei também que é completamente justificável, mas é sobre o passado. Dor, sei que existe muita, mas não acredite que só você a sentiu. Eu senti muita dor. Quando passamos por situações ruins, eu vivia uma generalização de coisas ruins. Enquanto que você sofria por um motivo digno que era o nosso amor, eu sofria pelo nosso amor e por todas as demais coisas que você esqueceu. Você não foi a única a sentir dor, eu também já senti, mas voltei por acreditar no futuro que agora tem a possibilidade de se transformar em presente. Todos nós ficamos desajeitados perante sentimentos contrários. Deixamos a mágoa e a raivar nos dobrarem, mas temos como impedir que isso aconteça. Sei que podemos lidar com o que é ruim, pois tenho tentado e aprendido a fazer isso. Não vale a pena deixarmos que aquilo que é ruim dite regras e seja soberano. Parece que você não tem reparado, mas, aqui no presente, eu tenho gritado, escrito e de todas as formas tentado te mostrar que o presente não precisa permitir que o passado que tanto te assusta seja retomado, revivido e remontado. Meu único recurso efetivo para continuar aqui perante toda a problemática que assola a minha vida tem sido olhar aos céus para pedir forças. Tenho que ter que lidar com algumas das suas palavras mal colocadas que perfuram meu peito como uma sequência de facadas. Tenho que me conformar com a sua maneira estranha e distante de se importar. Tenho que obrigatoriamente me silenciar perante seus surtos de rancores. Eu não consigo levar as tenebrosidades da minha vida e ter que conviver com você me transformando em passado.
Então agora é tarde para te ajudar a entender
Nada que não é envenenado por nós, tem a capacidade de morrer
Cada coisa que acreditamos, queremos bem e construímos
Só consegue morrer se nós decidirmos matar
Então agora não posso mais te ajudar a compreender
Nada daquilo que você decidiu matar está morto
Você deu tempo de crescer raízes, cultivou bem sua árvore
Só não conseguiu apreciar o amargor dos frutos dela naquela estação
Então agora não quero mais te ajudar a aceitar
Que de uma árvore bonita e grande fui transformado em erva daninha
Que todas as demais vezes que meus frutos eram doces e mataram sua fome serviram de alguma coisa
Não quero mais te ajudar a acreditar que uma estação não tem o poder de derrubar uma plantação
Então agora você não precisa mais lembrar
Que sou árvore velha, centenária
Que cruzou caminhos parecidos dezenas de vezes
Sei o que é acreditar, sei o que é passar por cada estação
Minhas raízes são bem profundas.
Você deveria ter entendido
Sua cena já terminou
Você não tem mais falas
Não tem mais espaço
Suas interpretações são passado
Você deveria ter aceito
Seu tempo já passou
Você não tem mais como ficar
Não existe o que você fazer aqui
Seus sentimentos não importam mais
Você deveria ter percebido
Sua vontade de ter o impossível
Te fez foi colocar num perigo
Quem faz questão de se bem colocar
Deve estar preparado para as consequências
Que no seu caso é matar, é estar morto
É destruir o que toca
É desacreditar
É morrer só.
Eu vi quem chorava
Sei exatamente quem estava ali
Conheço os motivos das suas lágrimas
Entendo todos os porquês das suas mágoas
Sei quem te feriu, te fez sofrer e te matou
Sei cada detalhe, cada estrofe e cada momento de terror
Eu sei exatamente quem lamentava
Quem custava a acreditar que havia caído ali para chorar
Quem se afogava em lágrimas enquanto questionava a solidão
Enquanto que na dor fazia força para não trazer ao chão seu coração
Sei exatamente quem se segurava, se remoía e sentia dor
Sei quem estava ali jogado e rejeitado e em completo abandono
Eu não sei esconder o que vi
Você estava só e cultivando o pior que te entregaram
Vendo o pior que fizeram questão de te mostrar
Eu vi claramente você derrubando suas lágrimas preciosas
Enquanto acredita em mentiras inescrupulosas
Sobre sua natureza maravilhosa.
Quando eu disse que não ficaria
Você não acreditou
Continuou a crer que eu ficaria
Você sorriu e gargalhou
Deu tudo de si a mim
Fez de mim o seu amor
Me transformou no que não era
Quando eu te disse que partiria
Você desconversou
Não quis acreditar e ignorou
Eu não menti
Peguei as minhas coisas
Destruí o que estava em pé
E parti

Sim, é verdade
Sempre lutei sozinho
Sim, é real
Sempre chorei no final
Sim, é factual
Sempre fiquei calado
Sim, eu tenho o direito, não creio mais
Eu sei que não é sobre o amanhã
Sei também que não é sobre o que vem depois
Eu tenho o direito de não acreditar
No pior ou no melhor que existe
Tenho o direito de cair e levantar
O direito de desacreditar na vida
De não querer mais brincar de viver
Dizem por aí que quando estamos tristes procuramos meios de esquecer de tudo a nossa volta. Mas sabe quando aquelas drogas do cotidiano não funcionam mais? Então o que fazer? Não sei. Na verdade o que bebi pra esquecer, o que fumei pra esquecer, o que ouvi pra esquecer, o que sonhei pra esquecer e o que fiz não adiantou e não adiantará mais. Morrer. Talvez seja a tal droga que me ajudará. Isso. Eu escolho morrer. Cansei de viver no piloto automático, cansei de desligar os aparelhos pela manhã para sozinho respirar, cansei de abrir os olhos e no fim devo ter cansado de lutar. Vida, se o seu plano era contra mim, você foi muito bem sucedida.
As vezes é melhor acabar antes do fim. Talvez essas palavras soem estranho para você que está lendo, mas sua falta de compreensão, talvez, te levará para o mesmo caminho que o meu. Viver sempre me fez tão mal que sempre foi normal acordar desejando terminar com tamanho sofrimento. Agora vou me atirar do último andar e me espatifar em centenas de pedacinhos lá embaixo. Desejo boa sorte para quem tentará entender o que me levou a decisão de tentar voar, porque eu não vou deixar resquícios pra ninguém. Pensando bem, agora vou comer, sozinho, um grande pote de doce de leite.
26/11/14
