SOU O RESULTADO FINAL

Por Tiago Lima - 7.12.23

Eu ainda não morri. Começo esse parágrafo com uma frase óbvia, mas que precisa ser reforçada por mim e para mim praticamente todos os dias. Existindo e perseverando, perdendo ou ganhando, aprendendo ou só se machucando, eu ainda estou aqui. Parece que estou num descompasso, portanto o tempo e os acontecimentos desencontram-se das minhas pequenas expectativas. Todos os dias eu reparo meu descompasso e repasso em voz alta os objetivos que eu tinha antes de descompassar. Não sustentou-se a tentativa de permanecer no anonimato, tanto que não se fala em outra coisa que não seja meu descompasso. 

Conheço a dor, conheço o rancor, conheço o gosto amargo e azedo de cada novo dia, assim como reconheço de longe a apatia e o desinteresse. Aprendo todos os dias com as emoções e sentimentos evitados por quem se sente contrariado pela tristeza. Caibo em espaços que nunca imaginei estar e sinto coisas que já senti antes. Eu deveria saber me comportar diante da exclusão, assim como soube me comportar diante da dor. Sei que parece tudo bem mórbido, mas é um recomeço difícil. A gente precisa do começo para recomeçar - nem sempre, eu sei. Gosto de pensar que aqueles passos que dei ainda permanecem nos locais por onde passei, mas não me responsabilizo pelas marcas que eu criei em mim e deixei por aí. Eu deveria me responsabilizar pelo passado ou somente deixar o passado no passado?

Parece que estou tendo um devaneio. Anos se escondendo dos valentões e depois de adulto ainda tem valentões me amedrontando. O sistema massacra pessoas que queriam ser invisíveis, pois o destino não deixa passar em branco quem desejou. Louco. A minha existência faz barulho e eu sequer me planejei como um arranjo. De fato, arranjaram uma melodia para os passos que dou, e eu descreveria como melancólica, dramática e obscura. Na maior parte das vezes que estou arranjado como música é exatamente quando só me deixo tocar e, num bom tocador de disco, toco para todos. O disco passa pelas mãos de outrem antes de chegar até a vitrola. Um processo complexo de gravação, em um estúdio quente, com harmonias e desarmonias: ali estou eu, sou a música, o resultado final.

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