O Sentimento de Deslocamento e a Transição do Ser
O ideal seria se o processo natural de cura nos empurrasse para longe de precipícios, buracos e poços sem fundo, mas, na contramão, temos que manter o alerta ligado - e alguns de nós temos que gerenciar muitos alertas. Eu tenho trazido bastante recortes para os textos publicados aqui no Limoções, pois é assim que me vejo no cotidiano: recortado, separado. Incrível como essa característica poderia ser algo naturalmente positivo, mas me coloca ainda mais às margens daquilo que quero ou de onde devo estar. Sentir-me recortado se atrela ao sentimento de deslocamento que, por sua vez, recai sobre quem sou, me diminuindo, me deixando pequenino. Óbvio que iniciamos 2025 conversando sobre temas importantes como o autoperdão e a invalidação dos adjetivos que pessoas escarram sobre características potencialmente únicas.
A Semântica do Comportamento e o Marcador Racial
A possibilidade de estar isolado, sozinho, muitas vezes foi apontada como uma consequência do meu próprio comportamento. Um comportamento definido como seletivo, autoritário, inflexível, severo, rude, rígido, exigente e - por fim - um comportamento de pessoa branca. Chegamos num trecho que, provavelmente, fará com que alguns desistam da leitura. Entretanto, a conclusão da análise do meu comportamento - nesse exato momento - já está fechada. Comportamento de pessoa branca: chegar em espaços, ocupar espaços, ser lida pelo olhar de credibilidade - diferentemente de uma pessoa que está atravessada por um marcador racial. O uso da palavra comportamento em excesso é proposital - não foi uma falta de sinonímia.
O Pacto Narcísico e a Inviabilidade do Silêncio
Este texto está em construção desde que ocupei um local de pertencimento. Tive que concluir o processo violento de ocupação, de realização pessoal e de retomada de fragmentos de sonhos. Esse processo envolveu aprender sobre como ocupar, se apresentar e se desenvolver em locais e como se relacionar com pessoas que não me viram como outra pessoa, mas como algo. Eu quero chamar a atenção para a objetificação do meu corpo e o uso recorrente de adjetivos para destituir e descredibilizar no local "correto" dentro daquilo que chamamos de paquito narcísico da branquitude.
Cida Bento define o que vivi na teoria, pois a prática lançada sobre mim é impossível de ser definida. A exclusão feriu e ativou o modo de defesa existente na maior parte de nós que não estamos na potência da leitura privilegiada. Estar em alerta é o que sobra para mim e para todes os outros que não estão no pacto. Individualidade. Solidão. Quem teme os que possuem os privilégios, infelizmente, tendem a se esconder. Não, não me escondi. Não caibo na possibilidade de estar em silêncio. Serei o problema, meu comportamento será o problema - e isso está compreendido, mas jamais será aceito.
Você aceitou?
Leia também no Limoções:
O SER INATOREFERÊNCIAS:
BENTO, Cida. Entrevista concedida à Revista Trip. São Paulo, 2020. Disponível em: <https://revistatrip.uol.com.br/>. Acesso em: 01 fev. 2026.
MARTINS, J. C.; BILSKY, E. Psicologia: uma introdução. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
Nota editorial: Ensaio crítico que articula a psicologia comportamental com a denúncia racial do pacto da branquitude. Integra o acervo de Comportamento e Ensaios do Limoções.
Nota de atualização (2026): Texto revisado para preservação de memória e adequação técnica à nova estrutura editorial do portal.
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