MARGENS, TÍTULOS E PERMANÊNCIA: UM ENSAIO SOBRE VIOLÊNCIA SIMBÓLICA E FORMAÇÃO
Sobre trajetórias acadêmicas, exclusão e permanência
"Para Zaluar e Leal (2001), a violência que ocorre no ambiente escolar possui duas dimensões: a primeira, representada pela violência física e a segunda, representada por palavras ou atos que negam, oprimem ou destroem psicologicamente o outro. Dessa forma, embora a violência física tenha uma materialidade incontestável, é importante atentar para a dimensão moral das agressões que ocorrem entre os muros da escola e em seu caráter essencialmente simbólico e imaterial, bem como para o fato de que as práticas violentas no ambiente escolar não estão circunscritas às regiões precárias ou escolas públicas, atingindo também as escolas particulares em áreas privilegiadas (OLIVEIRA, 2008; SPOSITO, 2001)."
Grupos marginalizados e pessoas com características diferentes daquelas consideradas normais são destaques em espaços e figuram papéis importantes, viabilizando a interpretação e/ou leitura de outrem com base nos conceitos de rejeição ou aceitação. A aceitação do marginalizado é a forma menos comum dentro das convenções sociais, pois características marginalizadas são características questionáveis. A rejeição, comum e corriqueira, pauta e conduz a passagem e/ou permanência dos marginalizados dentro das convenções sociais e de espaços específicos. A lógica é sempre muito clara: marginal precisa permanecer às margens. Portanto, vamos usar uma das definições de:
"marginal
adjetivo
[Figurado] Que foi excluído da sociedade ou prefere viver fora dela."
O marginal como figura socialmente regulada
Não se enquadrar ou ser destaque. Quem está às margens vive extremos importantes sobre competências profissionais, acadêmicas, emocionais e psicológicas. A meta é sempre ser melhor que outrem — essa é uma condição estabelecida veladamente para aqueles que precisam cumprir o percurso do viver e almejar os méritos, as notas, os reconhecimentos e tudo aquilo que se faz necessário para possibilitar um futuro junto daqueles que não estão às margens. E é por esse prisma que se enxerga o marginal, pois ele precisa se empenhar mais, se entregar mais, se envolver mais e, por fim, ser mais testado, provocado e colocado em exposição. É uma ambivalência: é preciso se destacar, mas, quando se está em destaque, é necessário desocupar o palanque para alguém que naturalmente deveria estar ali.
Meritocracia, títulos e o mito da escolha universal
Percursos marginais no acesso à formação superior
Diferença, não pertencimento e poder
“Identidade não é uma política. A política começa quando você descobre que sua própria experiência não é a única.”— Haider, 2018, p. 23
Quando se fala em queda no ambiente acadêmico, fala-se de derrubada. Não há preparo institucional para acolher quem não se encaixa nos parâmetros das convenções sociais. A trajetória na graduação se aproximou de experiências vividas no ensino fundamental: bullying, perseguição sistemática e o ego ferido de alguns docentes produziram tensões e desconfortos constantes. Ser bom ou comprometido não constitui falha de caráter, mas parte da própria natureza.
Deixando desafetos de lado, chama-se atenção para quem deveria ser referência. Após a experiência de tornar-se professor, ser reconhecido como tal e ter valor afirmado por quem importa, o olhar se torna crítico e desconfiado diante de muitos que ocupam cadeiras na docência, na gestão e na direção.
Permanecer como gesto político
O percurso acadêmico narrado não se apresenta como exceção, mas como sintoma. Sintoma de um sistema que se afirma meritocrático, mas seleciona, exclui e hierarquiza corpos, vozes e trajetórias a partir de critérios racializados, classistas e normativos. O marginal, ao adentrar espaços formativos, não é avaliado apenas por desempenho, mas testado em sua permanência, legitimidade e direito de existir naquele território.
A universidade, enquanto instituição que deveria operar de forma crítica e emancipatória, frequentemente reproduz violências simbólicas. A negação do pertencimento, o silenciamento das diferenças e a patologização de trajetórias não normativas impactam diretamente a saúde mental de sujeitos marginalizados. Lélia Gonzalez já apontava o racismo como estrutural, cotidiano e institucional, operando exclusões naturalizadas nos espaços de poder e saber.
Nesse sentido, a permanência de sujeitos negros e periféricos na academia não se dá como concessão, mas como enfrentamento. Permanecer, concluir, ensinar e produzir conhecimento a partir dessas experiências constitui gesto político: reinscrever corpos historicamente marginalizados nos circuitos de produção de saber.
Ao deslocar o olhar da exceção para a estrutura, reafirma-se que a presença desses sujeitos não deve ser tolerada como benevolência institucional, mas reconhecida como direito. Não há neutralidade onde hierarquias raciais organizam a vida social. Há disputa de narrativas, de espaços e de legitimidade. Mais do que ocupar lugares, é preciso transformá-los — mesmo quando os muros já foram atravessados.

