28.9.15

"E A PRIMAVERA ERA DEPOIS DE AMANHÃ..."

Quando Vier a Primavera
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
"E a Primavera era depois de amanhã..."

Esse poema de Alberto Caeiro foi a grande inspiração para um ensaio fotográfico desenvolvido em parceria com minha grande amiga fotógrafa Olivia Vieira. A sintonia do autor com a natureza simplesmente coincide com a minha. A nossa maior ambição era simplesmente não quebrar a cabeça e fazer algo simples, assim como o autor explícita sobre simplicidade em suas duas primeiras estrofes.

"E a Primavera era depois de amanhã..."
Quando a proposta foi a mera simplicidade, decidimos mostrar um lado meu que simplesmente foge do sofrimento evitando pensar, porque, como o autor nos propõe, parar de pensar seria a maneira mais eficaz de evitar sofrimentos. Escolhemos a natureza como cenário propositalmente, pois a mesma não pensa e por decorrência disso vive um ciclo conjunto e não individualizado. Nesse ciclo da natureza, a mera ausência de alguma coisa não interfere na evolução da vida restante. Deduzo eu que seja por isso que um pensamento que parece "triste" provoca uma grande alegria no autor. A natureza, obviamente irá ignorar minha morte e é essa certeza que me faz sentir parte dela.  Aceitar o destino é um ponto importante para o autor, pois sua visão de mundo não permite que nós lutemos contra o mesmo. Simplesmente deixamos que ele cumpra sua meta em nossas vidas sem discordar, e essa visão eu não compartilho com Alberto Caeiro.

"E a Primavera era depois de amanhã..."

Não acabou aqui! Veja mais no Flickr. Esse ensaio fotográfico teve a direção de Olívia Vieira. Conheça mais sobre essa fotógrafa de mãos cheias visitando seu instagram. Trabalho capturado na cidade de Bragança Paulista, no interior do Estado de São Paulo.