Alguns trabalhos que já apresentei aqui no Limoções fizeram ou fazem parte da minha trajetória como pessoa comum. Alguns trabalhos ficam na linha do tempo do meu viver, lembranças de melodias e letras que me refazem tomar sentido dentro da minha própria história. Afunilando um pouco meu contato com outras obras, vejo como imperativo sinalizar aqui a importância da música. Quem me conhece - e lê o que escrevo - sabe que sou o fã #1 de álbuns musicais que possuem conceito, causa, inferências e referências e delineiam histórias ou outras causas.
Quando cheguei ao rap como ouvinte, depois de tomar liberdade etária para confrontar meus pais - que possuem estigmas sobre o gênero -, me deparei com rimas e versos que gritavam a periferia, que exigiam olhar para a periferia ou que simplesmente duelassem sobre quem tem o cordão de ouro maior. Todos esses artistas e trabalhos são importantes e atemporais, e isso é inquestionável. Como toda produção preta (ou uma produção branca com cara preta), a cena musical do rap preenchia os subúrbios das ruas de cidades grandes como São Paulo. A divisão geográfica da capital São Paulo em Centro, Zona Leste, Zona Sul, Zona Norte e Zona Oeste atribui ritmos e visões diferentes, mantendo a pluralidade de um gênero musical marginalizado. E foi assim que me encontrei na cultura Hip-Hop, entendendo inclusive a cultura do mestre de cerimônias (MC). Meus ouvidos ouviam desabafos, gritos, movimentos de insatisfação popular e também ouviam histórias daqueles que movimentam o Brasil - os trabalhadores. Esse processo da música, por meio de um gênero musical naturalmente politizado, me ajudou a compreender meu lugar, minha história e me incentivou a encontrar as minhas referências.
Tomo a tarefa de falar sobre música, um álbum, mas retomo a regra: não analiso o trabalho por completo. Bora ao que interessa!
Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino Artes
AmarElo (2019) - Emicida
"Muriquinho piquinino, muriquinho piquininoPurugunta aonde vai, purugunta aonde vai" - Dona Onete
"OKEram rancores abissais (mas)Fiz a fé ecoar como catedraisSacro igual Torás, mato igual coraisTubarão voraz de saberes orientaisMeu cântico fez do Atlântico um detalhe quânticoBusque-me nos temporais (vozes ancestrais)Num se mede coragem em tempo de pazEstilo Jesus 2.0 (carai, Jesus 2.0)Caminho sobre as água da mágoa dos panguaQue caga essas regra que me impuseramEra um nada, hoje eu guardo o infinitoMe sinto tipo a invenção do zeroNão sou convencido (não), sou convincenteAí, vê na rua o que as rima fizeram" - Emicida
"Presentemente eu posso meConsiderar um sujeito de sortePorque apesar de muito moçoMe sinto são e salvo e forteE tenho comigo pensadoDeus é brasileiro e anda do meu ladoE assim já não posso sofrer no ano passado..." Belchior/Majur
"[...] Mano, rancor é igual um tumor, envenena a raizOnde a plateia só deseja ser feliz (ser feliz)Com uma presença aéreaOnde a última tendência é depressão com aparência de fériasVovó diz: Odiar o diabo é mó boi (mó boi)Difícil é viver no inferno, e vem à tonaQue o memo império canalha que não te leva a sérioInterfere pra te levar à lona (revide)..." - Emicida
"Quando Ismália enlouqueceuPôs-se na torre a sonharViu uma lua no céuViu outra lua no marNo sonho em que se perdeu..." - Montenegro/Alphonsus
"Paisinho de bosta, a mídia gostaDeixou a falha e quer medalhade quem corre com fratura expostaApunhalado pelas costaEsquartejado pelo imposto impostaE como analgésico nós posta queUm dia vai tá nos conformeQue um diploma é uma alforriaMinha né uniforme" - Emicida
"Noêmia de Souza chamava de lume" - Emicida
"[...] Podem desterrar-nos,levar-nospara longes terras,vender-nos como mercadoria,acorrentar-nosà terra, do sol à lua e da lua ao sol,mas seremos sempre livresse nos deixarem a música!Que onde estiver nossa cançãomesmo escravos, senhores seremos;e mesmo mortos, viveremos.E no nosso lamento escravoestará a terra onde nascemos,a luz do nosso sol,a lua dos xingombelas,o calor do lume,a palhota onde vivemos,a machamba que nos dá o pão!..." -
Importe seguir falando sobre a faixa e o contraste que ela possui com o poema de Nôemia. Carregada por carinho e afeto, a canção contrasta com o pedido de Souza em seus versos: "mas seremos sempre livres se nos deixarem a música!". Musicalizar e recitar, transformar as linhas fortes da autora em amor e carinho, fazendo brilhar a importância de um movimento que o álbum trabalha do início ao fim: amor. E podemos usar o verbo "amar" para referenciar uma causa: a resistência._______________________________
Finalizo pelo começo do álbum. "Principia" abre AmarElo com as participações de Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira e Pastoras do Rosário. A música é uma oração do início ao fim, mesmo tendo uma oração "oficial" realizada pelo Henrique Vieira ao término da faixa.
"Com o cheiro doce da arrudaPenso em buda, calmoTenso, busco uma ajudaÀs vezes me vem um salmoTira a visão que iluda, é tipo um oftalmoE eu, que vejo além de um palmoPor mim, tu, Ubuntu, algo almoSe for pra crer no terrenoSó no que nóis tá vendo memoResumo do plano é baixo, pequenoMundano, sujo, inferno e venenoFrio, inverno e serenoRepressão e regressãoÉ um luxo ter calma, a vida escaldaTento ler almas pra além de pressãoNações em declive na mão desse BarrabásOnde o milagre jazSó prova a urgência de livrosPerante o estrago que um sabre fazImersos em dívidas ávidasSem noção do que são dádivasNo tempo onde a única que ainda corre livre aqui são nossas lágrimasE eu voltei pra matar, tipo infartoDepois fazer renascer, estilo um partoEu me refaço, farto, descartoDe pé no chão, homem comumSe a bênção vem a mim, repartoInvado cela, sala, quartoRodei o globo, hoje tô certo de queTodo mundo é um" - Emicida
"Vejo a vida passar num instanteSerá tempo o bastante que tenho pra viver?Não sei, não posso saberQuem segura o dia de amanhã na mão?Não há quem possa acrescentar um milímetro a cada estaçãoEntão, será tudo em vão? Banal? Sem razão?Seria, sim, seria se não fosse o amorO amor cuida com carinho, respira o outro, cria o eloNo vínculo de todas as cores, dizem que o amor é amareloÉ certo na incertezaSocorro no meio da correntezaTão simples como um grão de areia" - Pastor Henrique Vieira
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