Perdão, Autoperdão e a Literatura de Stefano Volp
![]() |
| Stefano Volp. 225 páginas. Galera Record. 2023. |
Perdão. Quero começar essa resenha falando sobre tudo que rodeia a palavra perdão. Durante anos atribuí inúmeros significados ao ato de perdoar e o principal deles era o esquecimento. Aos poucos fui descobrindo que eu não portava solitariamente essa perspectiva. O rancor, ou seja lá como você chama aquilo que te deixa ressentido, nos confunde, nos desorienta e faz com que o tempo de resolução de uma coisa seja prolongado. Quanto mais tempo se decorre para a ação de perdoar ser perpetrada, mas sentimentos questionáveis prolongam o caminho até o ensejo do perdoar. E foi recentemente que consegui perceber e aprender mais sobre outra face do perdão - o autoperdão. Agora, se perdoar outrem já uma tarefa complicada, imagina se perdoar.
SINOPSE
É com essa reflexão que trago ao Limoções a obra "nunca vi a chuva" do incrível Stefano Volp. Só para deixarmos claro e bem evidente, a obra e o autor são da nossa literatura. A literatura contemporânea tem se destacado com evidentes talentos como Conceição Evaristo e, sem sombra de dúvidas, Stefano Volp. O gênero da obra me arrebata e me faz ler com a maior tranquilidade, e me causa aquele efeito comum em alguns leitores - começar uma leitura hoje e terminar amanhã. Volp nos apresenta a narrativa em primeira pessoa com um personagem comum da Europa e os meandros que envolvem a vida da burguesia ao qual ele está inserido. Não tenho certeza se foi proposital, mas o autor fez questão de deixar nas entrelinhas aquele questionamento que nós pobres já ouvimos falar: "dinheiro traz felicidade?". Sem grandes entregas de detalhes (para não comprometer sua leitura), a história vai mostrando aos poucos as características emocionais e psicológicas do primeiro protagonista - esse é quem sempre escreverá as cartas, mesmo tendo a narrativa outro protagonista.
PERTENCIMENTO E LUGAR NO MUNDO
O que é um lar? O que é uma família? Onde está descrita a conceituação de pertencimento no mundo real? Sem perder a naturalidade, as questões transversais dos marcadores sociais também cerceiam a narrativa em "nunca vi a chuva". Podemos ver marcadores como consciência de classe, capacitismo, questões raciais, debate rápido sobre o submundo das drogas e suas consequências, as fragilidades de um sistema de saúde e outros debates levemente inseridos na obra. A capa e a contracapa nos trazem uma informação importante sobre o trabalho: se trata de dois irmãos. Não preciso mencionar que os dois estão em realidades diferentes e possuem condições físicas distintas, apesar de parecem iguais na arte da capa.
A gente costuma a relacionar o ver com a capacidade dos nossos olhos, juntamente com nosso cérebro, de processar aquilo que vemos. Através da visualização nos tornamos capazes de interpretar e até mesmo de atribuir valor. Em "nunca vi a chuva" a gente vai aprender que enxergar pelos olhos não é a única forma de visualizar.
Lucas, nosso protagonista adolescente, ainda vive os desafios de regular o que sente, apesar de já ter definido em seu inconsciente - e demonstrado em ações - que o amor perpassa qualquer característica física em seu irmão Rafael. Com início numa curiosidade complexa sobre o irmão, o narrador e escritor das cartas descumpre regras e traça mentiras importantes para assim começar a trazer para o consciente os verdadeiros significados de suas ações. Stefano deixou claro nas informações sobre a obra que se trata de dois irmãos, então eu posso dizer que as cartas nos apresentam dois mundos distintos, duas famílias distintas e um enredo que tem por característica parecer ter sido escrito realmente por um adolescente.
Quando juntos, os irmãos passam a se conectar de maneiras diferentes, mas sempre considerando os limites e fragilidades um do outro. O que me chama a atenção na obra é que juntos começam a tomar decisões. Raramente contrariados por seus responsáveis, as decisões tomadas são quase que o fôlego que a obra precisa para se tornar singular. Volp abre e fecha histórias secundárias com muita facilidade. Na verdade, todos os personagens apresentados são a história dos dois irmãos.
Lucas tem a tarefa de mergulhar no mundo do irmão Rafael. Eu poderia dizer que esse tipo de desenrolar seria um tipo de reparação, ainda mais se considerarmos todos os marcadores transversais que se aplicam quando a história chega ao Brasil.
Por fim, recomendo a leitura, assim como recomendo a valorização da nossa literatura contemporânea e preta. Essa resenha poderia ter ido além, mas, sinceramente, eu teria te contado toda a história.
Você está no eixo editorial
CAFÉ
Explore mais produções deste eixo em nosso acervo.
Acessar Eixo CompletoVocê está no eixo editorial
Resenha
Explore mais produções deste eixo em nosso acervo.
Acessar Eixo CompletoNota de Apoio e Permanência
Manter o Limoções como um espaço de pensamento crítico exige recursos. Sua contribuição financeira é o que impede a interrupção deste trabalho.

0 comentários