10.8.17

PRESSÁGIO

Por um instante sentei-me e apenas consegui deixar minhas angustias a uma distancia razoavelmente segura de mim. Por um momento consegui sentir meu rosto sendo tocado pela brisa gelada da linda manhã de inverno que eu conseguia contemplar enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto. Mesmo que fosse por um curto período de tempo eu me sentia capaz de aceitar que tudo estava bem, que tudo ficaria bem e que era o tempo de acreditar que, ao menos naquela manhã, eu estava seguro estando longe dos meus temores.
Foi como das outras vezes em que eu me encontrava cercado de destroços e sem qualquer capacidade de idealizar uma saída, uma arrumação ou uma limpeza. Eu conhecia exatamente aquela sensação que eu estava vivendo. Era como estar sendo tocado pela paz e foi como se tudo de ruim não pudesse chegar até mim. Eu sabia que viveria aquela sensação tempo suficiente para conseguir lembrar que era possível estar seguro e vivo enquanto tudo desabasse ao meu redor. Eu sabia que viveria aquilo tempo suficiente para conseguir assimilar que eu poderia sentir a brisa enquanto chorava, enquanto estivesse sofrendo. Eu conseguiria viver com a dor e aprenderia, perante cada obstáculo, a transpor barreiras. Conseguiria aceitar que perdi quando acreditava que havia nascido para ganhar, que simplesmente não consegui alcançar o alvo, que não tive dezenas de sonhos realizados.
Era um presságio. O tempo me convidava a continuar a viver. A vida me chamava para correr todos os riscos de ser feliz, de me sentir vivo. Eu não queria sair dali, mas não queria também viver me esquivando das balas perdidas, das dores engendradas, da alegria sincera, da paz momentânea e do amor. Mesmo que o tempo e a vida tivessem me apresentado primeiramente a dor, eu simplesmente não poderia escolher deixar de tentar conquistar tudo de bom que meus olhos já viram, meus ouvidos já escutaram, minha pela já sentiu e jamais poderia deixar de dar ao meu coração uma razão para ele pulsar rapidamente, alegre ou aterrorizado.
Eu não quis parar de chorar e também não fui capaz de parar de admirar aquela linda manhã de inverno. Sei que não senti dor apenas uma vez e sei que sentirei mais e mais vezes. Nunca serei capaz de conseguir viver sem chorar.