Já tentei mesmo quando parecia não existir mais tentativas. Já me obriguei a pensar positivo. Já estive inclinado a acreditar na "lei da atração". Já tenho uma coleção de lições aprendidas com os ensinamentos encontrados pelos caminhos que já trilhei. Já apreendi o que precisava sobre os momentos que coleciono. Já me vi obrigado a acreditar que tempestades são passageiras e que a primavera é a única estação validada como sinônimo de alegria. Já acreditei que não encontraria a alegria e que deveria abraçar a dor como o sentimento que regeria minha existência. Já formulei sobre o chorar, já escrevi sobre a dor, já fotografei a incerteza, já transformei em audiovisual tudo aquilo que tomei como certeza e já falei mais do que tinha palavras disponíveis. Já me senti vivo o suficiente para me ver como invencível e já reconheci a fragilidade da minha existência. Já busquei sinônimos para descrever o sentir e embelezar as palavras que já expus por aqui. Já discorri mais vezes sobre a alegria do que questionei sua existência. Já finalizei relações e já compartilhei empreitadas importantes sobre as convenções sociais por meio da escrita. Já troquei de profissão, já me formei, já questionei minhas próprias escolhas e já estive onde nem sequer imaginei.
Hoje me considero realizado. Tive a chance de realizar feitos que jamais imaginei e sustento com orgulho todas os meus equívocos, mas não consigo mais deixar que as considerações de outros corações e as palavras de outras bocas me façam querer viver para além das minhas próprias satisfações. Não estou errado por me sentir no fim do caminho, por me sentir realizado, por ter a certeza de que contemplei o ciclo proposto para o meu existir, por considerar que estou escrevendo as últimas palavras da minha própria história. Estou envenenado. O veneno percorre minhas veias, atua no meu sistema nervoso, manipula meus hormônios e tenta me fazer reconsiderar. Estou envenenado pelo medo daqueles que ainda não compreendem o término das histórias reais, que não são capazes de imaginar o encerrar de caminhadas reais, o término justo de guerras não suas e as possibilidades contidas na história que permanecerá viva mesmo com um coração sem pulso. Hoje me vejo completamente realizado - e não consigo atrelar a realização da minha história aos sentimentos que tive a chance de conhecer ao percorrer da caminhada.
Hoje percebo que a realização também pode estar conectada com a coragem. O fim não se pauta exclusivamente pela dor e não flerta com as percepções de fracasso - que depositam sobre as atitudes de coragem - aqueles que ainda não compreendem o fim como uma verdadeira possibilidade. Quero existir e fazer uso dessa existência em todas as suas potencialidades. Preciso fazer o que considero imperativo sem deixar abertura para que utilizem as acusações póstumas forjadas pelo conceito de egoísmo como uma ferramenta de invalidar a minha decisão de finalizar o livro. Cansei de novos capítulos e estou farto de ter que projetar nas próximas páginas a esperança. Recuso a esperança. Invalido o poder do "esperançar" sobre a vida que vivo hoje. Tiro da esperança o poder de fazer nutrir aquilo que desconheço. Tiro da esperança o poder de tentar me fazer querer novos sonhos. Tiro da esperança a necessidade de me fazer sentir culpa. A esperança não tem méritos aqui.
Quero ser culpado pelos méritos que carrego. Quem decide os méritos que tem é aquele que se tornou capaz de reconhecer seus próprios deméritos. Tenho palavras o suficiente para me colocar num pedestal, para me classificar como uma santidade, para me considerar intocável, para ter a certeza de que sou parte do divino e que sou portador de uma autoestima jamais vista antes. Não me recordo de colecionar méritos utilizando a esperança como combustível e nem tenho memórias de que manipulei meus sofrimentos acreditando que o amanhã teria a responsabilidade de ser melhor. Carrego meus troféus com a lembrança exclusiva de que eu sabia que precisava viver aquele agora. Vivi o agora. Vivo o agora. Eu vivi o agora. Meu corpo vive o agora. Minha mente viveu o agora. Minhas palavras escreveram sobre o agora. Eu chorei no agora. Eu gargalhei no agora. Questionei o agora. Não quero aceitar o amanhã. Não aceitei o amanhã.
Ainda que minha imagem esteja para sempre atrelada ao sofrimento, escolho ver diante do espelho o reflexo daquilo que considerei vitória. Ninguém me ensinou a vencer, assim como nunca fui ensinado sobre as potencialidade contidas no perder. Eu venci tudo aquilo que esteve projetado sobre mim e venci sobre tudo aquilo que absorvi sobre mim. Em tantos momentos fui as projeções e em tantos outros eu somente me projetei. Sou de verdade. Fui de verdade. Sendo aceito por ser quem se é ou tendo que aprender a ser desprezado por ser aquilo que espontaneamente se tornou, não deixei jamais de ser. Tenho méritos - e isso me deu o direito de não temer a finalização da minha própria história.
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