7.10.17

DOIS ANOS APÓS "E A PRIMAVERA ERA DEPOIS DE AMANHÃ..."

"E A PRIMAVERA ERA DEPOIS DE AMANHÃ..." é um trabalho fotográfico idealizado por mim, Tiago Lima, e realizado em parceria com Olívia Vieira. Esse trabalho foi publicado aqui no Limoções em 28 de setembro de 2015 e, dois anos depois, decidi falar sobre o que mudou desde lá.

"E a Primavera era depois de amanhã..."

Lembro-me como se fosse ontem como a inspiração para esse ensaio chegou até mim. O Limoções estava prestes a nascer e eu, como sempre ansioso e zeloso por tudo que me dedico a fazer, buscava trabalhar para fazer com que a estreia do que apelidei como "o projeto da minha vida" fosse inesquecível. Foi exatamente nesse momento da minha vida que percebi que o inesquecível para mim estava na simplicidade de cada coisa. Quando entendi esse meu contentamento pelo simples e objetivo, pude acreditar que o meu primeiro trabalho fotográfico para o Limoções deveria ser algo que transparecesse isso logo de cara. Eu já conhecia o lugar, que inclusive me tocou poeticamente desde a primeira visita, e era somente contar para a Olívia, que na época era a fotógrafa oficial do LM, e fazer acontecer. E assim foi!

"E a Primavera era depois de amanhã..."

Poesia! "E A PRIMAVERA ERA DEPOIS DE AMANHÃ..." sempre foi pura poesia, tanto que para discorrer a justificativa do trabalho escolhemos um poema bem famoso de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa; "Quando vier a primavera".

O que acontecia comigo naquele momento? O que mudou?

Estar em meio a natureza sempre foi para mim uma espécie de recurso de fuga. Sempre que eu precisava corria para o meio do mato sem pensar duas vezes e lá - sozinho - eu tinha a certeza de que não estava só. Dois anos atrás fui submetido a uma série de situações que desconstruíram e destruíram muita coisa em mim. Eu estava em um estado em que viver não era mais viável e nem uma opção. O pior de tudo é que eu não conseguia e nem me arriscava a procurar ouvidos amigos para desabafar sobre meus tormentos, porque eu me atribuía uma culpa por tudo que tinha me acontecido sem ser de fato culpado e, por isso, passei a temer o olhar das pessoas. Foi justamente durante esse período que nasceu a ideia do LM e, posteriormente, a ideia do trabalho fotográfico. Essas fotos me mostram bem sereno e bem conectado com vida porque nesse momento eu busquei na natureza um recurso que eu já conhecia: a capacidade de regeneração e a possibilidade de continuar seguindo um curso se adaptando a todas as mudanças. Minha imagem aliada àquele trabalho - naquele momento - sempre contemplou a proposta de Alberto Caeiro que consistia em nos fazer entender que "a vida tem que seguir independente de qualquer coisa" e que "o mundo não pretende parar de girar porque não estamos bem". Parece ruim e fria a proposta do autor, mas ela me trouxe até aqui.
  "E a Primavera era depois de amanhã..."

dois anos depois de entender e aceitar essa interpretação, continuei a buscar na natureza aquele mesmo recurso - a fuga - e ela tem me mostrado que pode e quer me entregar muito mais que isso. Comecei a ver vida como aquela "luz no fim do túnel", pois existem períodos que sou assombrado por lembranças sombrias demais e em outros momentos sou submetido a novas dores que me fazem perder o sentido, então, quando estou prestes a morrer, consigo enxergar nessa luz a força para continuar.Também escolhi continuar acreditando na premissa de Alberto Caeiro, tanto que vários laços foram rompidos nesses dois anos com pessoas que eu pensei que não viveria sem e continuo aqui - vivinho da silva. De lá pra cá investi bastante nessa visão e tenho aprendido e apreendido muito, não com as pessoas, mas com cada detalhe que a natureza de cada coisa deixa visível nos momentos difíceis. É incrível como esse trabalho me mostrou como uma primavera tímida que caminhava para ser pomposa e colorida. Hoje eu consigo dizer que caminhei direitinho para essas cores e toda essa riqueza. Sou naturalmente um curso que seguiu e continuará seguindo, porque, mesmo vivendo cada inverno meu no hoje, serei primavera depois de amanhã.


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