QUANDO DECIDI SER NEGRO


Eu só fui me identificar como negro aos 19 anos de idade. Antes disso, mesmo vivendo entre negros, eu não queria e nem imaginava ser um. Eu cresci entre baianos - e minha avó materna era pretinha -, mas eu não tive contato profundo com as origens do meu povo, com histórias dos meus ancestrais e muito menos se falava em ser negro. Todos eles, inclusive minha própria mãe, vieram da Bahia mas simplesmente viviam como se aquilo não passasse de uma mentira. O contato mais próximo que tive com as minhas raízes, antes dos 19, foi na culinária. Minha avó e minhas tias não conseguiam ignorar quem eram e de onde vinham quando se tratava de cozinhar. Minha mãe não gosta de mencionar que é baiana e diz - sem pestanejar - que não tem vontade alguma de voltar a sua terra natal. Ela justifica que a razão para tal desprendimento foram as dificuldades enfrentadas por eles na época - dificuldades que fizeram com que todos migrassem para outro estado. Cresci sendo filho de uma negra com um branco, vivendo entre negros, comendo como branco e completamente sem qualquer conhecimento sobre a cultura da minha gente.

Em meio a essa dificuldade de acesso a informações que possibilitariam a compreensão e formação como ser humano pensante, custei a constatar que ser negro no Brasil é uma questão que está além de optar em ser negro. Tardei a aprender que ser é uma questão política e de determinação. Optar por fazer parte desse processo de aceitação e valorização é ter forças para trazer na pele um processo histórico de escravidão e de racismo estrutural que formou uma população sem identidade, marginalizada e subjugada. Depois que compreendi tudo isso ficou claro as razões pelas quais minha mãe, meus tios e meus avós optaram por não nos envolver nas raízes de nosso povo.

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Veja o ensaio fotográfico "Originário".

A figura do negro foi completamente associada ao negativismo que, de certa forma, encaro hoje como uma proteção esse período em que fui sujeito a não poder ser e nem a conhecer minhas origens. Meus avós não queriam que fossemos pretos além da pele porque conheceríamos o olhar da discriminação em todos os aspectos. Ser nordestino, preto, do cabelo crespo e ainda morar no subúrbio não poderia resultar em medo e vergonha de ser o que se era. Minhas tias, desde de jovens, foram vetadas de assumir seu cabelo crespo. Meus tios, desde jovens, possuíam ídolos e heróis brancos. Mesmo que seja cruel e difícil de aceitar que para ter um pouco de dignidade fosse necessário impedir seus filhos de serem o que nitidamente eram, compreendo que meus avós almejaram uma vida de qualidade para seus filhos e trilharam um caminho de negação que é tão doloroso quanto o de se viver aquilo que é.

Entre negação e desinformação, mal sabíamos que o racismo não faz acepção. Ele não é direcionado apenas para aqueles que optaram por assumir sua identidade e passa despercebido por aqueles que estão na escuridão do não ser. Hoje compreendo claramente que o processo de construção da minha identidade nos espaços em que vivo passou pela influencia daqueles que pensam e falam sobre mim. Antes eu não me via como negro e nem como pardo, mas me especificavam como pardo, mesmo eu imaginando ser branco. A minha construção foi ter voz quando eu optei por me autodeclarar. Foi nesse momento que minha identidade deixou de ser influenciada pelo o que meus professores, pais, tios e qualquer outra pessoa me atribuía. Meu ser deixou de ser o que o outro queria para ser parte das minhas crenças e convicções. É exatamente por portar essa ideologia de autodeclaração que tive que investir em pesquisas sobre minhas origens e me forçar a conhecer todas as vertentes que consegui encontrar na minha árvore genealógica (e não é uma tarefa fácil tendo parentes que não portam sua identidade). O racismo nunca esteve preocupado com a minha formação ou com a quantidade de genes do meu pai (branco) que carrego comigo, então esses estudos me fortalecem para enfrentar a discriminação quando ela se apresenta em suas diversas formas.  

Hoje, depois de me libertar dos estigmas sobre o meu povo, me assumo como negro. Desde 2015 que trago em minha cabeça meus lindos cabelos crespos que formam um belo emaranhado de nós e cachos que, sem sombra de duvidas, me conectam com a ancestralidade do meu povo. A cada nova luta - atribuída a mim por ser quem sou - me sinto mais escuro, mais preto e completamente pronto para ter voz. Imagino que essa sensação de liberdade e força teriam motivado meus avós se eles tivessem se permitido dar um passo além do medo. Enquanto aos meus tios, alguns ainda preferem negar - mesmo com muitas situações apontando suas identidades - e ainda transmitem os ensinamentos do "cárcere" aos seus filhos. Não posso culpá-los, porque sei que o processo de libertação não é tão simples quanto muitos dizem por aí que é. Sei o quanto é complicado se libertar dos ensinamentos mergulhados no não ser, não ouvir, não falar e não querer.

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