1.11.17

DOIS ANOS APÓS WALKING ON FALLEN LEAVES

WALKING ON FALLEN LEAVES
Há exatos dois anos WALKING ON FALLEN LEAVES era publicado aqui no Limoções. Esse trabalho também foi idealizado por mim e realizado com o apoio da Olívia Vieira. Para compor a justificativa desse ensaio, na época, utilizamos um poema de Cecilia Meireles - Canção de Outono - que além de dar voz às fotografias também foi analisado por nós. 

"Tu és folha de outono 

Voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim. 
E vou por este caminho, 
certa de que tudo é vão. 
Que tudo é menos que o vento, 
menos que as folhas do chão..."



Hoje, dois anos após a publicação, venho analisar o que mudou desde a produção e publicação desse trabalho. Será que ainda concordo com a interpretação do poema de Cecilia? Será que ainda me identifico com as visões e filosofias de dois anos atrás? Senhoras e senhores, convido-lhes a rever esse trabalho com uma interpretação atual e sentimentos que optaram por se reinventar.
WALKING ON FALLEN LEAVES
Esse período da minha vida considero bem marcante, pois nesse exato momento eu não tinha com o que me preocupar. Minha atenção estava toda voltada ao Limoções e a todas as ideias de trabalhos que me bombardeavam sem parar. Mas, como eu ainda era Tiago, dezenas de sentimentos me regiam e me norteavam e foi com Cecilia Meireles que naquela época eu comecei a flertar sobre visões de como me sentia em relação ao tratamento que eu recebia das pessoas para os meus sentimentos, minhas palavras, minhas fotografias e minha aparência.

O trecho da publicação original do trabalho "[...]Mas até que ponto evitamos uma possível decepção se mesmo plantando coisas boas somos tão decepcionados e temos nossas expectativas pisoteadas por gente que não consegue compreender os objetivos de um coração tão altruísta." me ajuda a ver como era complicado aceitar que todos estamos propensos a decepções e como isso é completamente inevitável e natural. Quando plantamos coisas boas, naturalmente esperamos colher coisas boas. Mas nem sempre é assim. Hoje é possível ver com clareza que quando plantamos algo no coração de alguém ou plantamos algo com alguém (uma amizade por exemplo) estamos sujeitos a cultivar aquela semente com quem nos deu espaço e/ou parceria para cultivar algo. Nunca coube - e não caberá - somente a um fazer com que as coisas aconteçam. Por isso é difícil acreditar em altruísmo quando se trata de conviver, pois estar no meio das pessoas é não estar preparado para não sentir, não falar, não reparar, não se entristecer e assim vai. 

Ora, vejamos bem: quando conseguimos ver que nossas expectativas não passam de expectativas, fica impossível permitir que uma nova dor nasça quando o que esperamos não acontece. Não é sobre deixar de acreditar e/ou ser racional demais. É sobre manter-se com os pés no chão. É sobre como o que eu penso e espero é mais sobre mim do que sobre o outro. Eu teria motivos para me sentir decepcionado se minhas expectativas sobre mim não se contemplassem, se minhas visões sobre mim estivessem equivocadas, se minhas convicções não fossem tão convictas e se eu desacreditasse em mim. Essa história de "expectativas pisoteadas por gente que não consegue compreender" de fato ficou em 2015. Foi bem dolorido, mas compreendi e aceitei que não importa se eu tenho ou não a compreensão dos outros perante ao que acredito, ao que sinto, como me vejo ou até sobre o que escrevo. Eu sou absoluto para mim e não preciso me submeter a dar explicativas para auxiliar na compreensão do outro sobre tudo que sai de mim ou morre em mim.

WALKING ON FALLEN LEAVES  
"Nas características de Meireles é possível perceber que a mesma é centrada na assimilação de que tudo possivelmente passa e de que o "caminhar" do tempo sempre consegue nos ajudar a adormecer as ilusões e dores. A escritora também não se vê "presa" em questões cronológicas, mas sempre esteve numa especie de deserto sem cores. Assim sou eu; anacrônico por natureza, fujo das cores e da felicidade, pois tudo sempre desbota e no final a felicidade sempre é passageira."


Esse trecho me faz ficar muito bravo comigo, com o que eu era ou no que acreditava em 2015. Desde quando fugir das cores por que em algum momento tudo se desbota é o correto? Essa minha visão não está de um todo errada, mas me pergunto o que eu perdi quando deixei de viver as cores, o que foi tirado de mim quando eu evitei colorir, o que se desvencilhou de mim quando bati o pé e preferi não viver as cores? Eu nunca vou saber. Não saberei porque passei tempo demais tendo tempo de não querer viver tudo que me era proposto. Colorido ou não, hoje eu consigo ter coragem para enfrentar cada momento. Não me defino mais como primavera e nem como inverno, pois, no tempo de cada coisa, posso viver, sentir e sonhar cada promessa da vida. E não tenho mais razões para me preocupar com o modo que as coisas irão terminar. Estou aqui para viver, para ser vivido, e se terminou bem ou mal - feliz ou triste - tudo foi aprendizado, apreendido e serviu para crescer.

Hoje, de fato, passei a me centrar na mesma linha de pensamento que Cecilia: "a mesma é centrada na assimilação de que tudo possivelmente passa e de que o "caminhar" do tempo sempre consegue nos ajudar a adormecer as ilusões e dores.".

WALKING ON FALLEN LEAVES
'Percebemos esse traço de decepção com a presença de palavras como amor, choro, e mundo. Como sabemos, a poesia não consegue chegar em corações fechados e Cecilia queixa-se exatamente disso: ela simplesmente foi ou é invisível para um grande numero de pessoas. Esse sentimento de dor relacionado a ser invisível nunca poderei compartilhar com Meireles. Para mim ser invisível é uma dádiva, pois jamais terei de me adequar para ser aceito ou jamais serei rejeitado por tentar ser aceito."

Minha cara Cecilia Meireles, hoje posso dizer que entendo completamente sua dor ao queixar-se sobre o modo como sua poesia não consegue e/ou não conseguiu tocar alguns corações. Sinto com você essa dor, mas, infelizmente, nunca terei o poder para forçar a chegada da poesia em corações secos e mortos. Minhas palavras não são invisíveis. Minhas palavras, geralmente, são usadas para me atacar. A minha dor em relação a minha poesia ser invisível está no fato de que quem amo - ou de quem passou pela minha vida - sempre ler minhas composições para se buscar nelas, para procurar motivos para me odiar. Enquanto que minhas palavras são lidas, as interpretações delas parecem equivocadas. Eu, que sou o autor, sempre pareço invisível, porque aparentemente é bem mais fácil me interpretar no texto de uma maneira que não fui interpretado enquanto falava. Os sentimentos parecem não existir e minha proposta, enquanto escrevia um desabafo, sempre acaba ignorada. Seria eu invisível ou teria eu poder com as palavras?


Clique aqui e confira na íntegra o trabalho completo e justificado.
Conheça a fotógrafa.

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