5.10.16

ME APAGUEM


Assim que a vida me abandonou, não tive ninguém segurando as minhas mãos. Quando alguns sonhos se desmancharam, não tive um ombro para desabafar. Logo que minha alegria ficou por um fio, quem eu amava fez questão de cortar o fio.

Precisei de ajuda e de amparo, mas tive que mendigar atenção, compreensão e amor. Tentei subornar o amor oferecendo partes extras do meu coração, tentei roubar a atenção expondo minhas palavras e fiquei de joelhos aos pés da compreensão explicando o que me ocorria.

Hoje eu só queria que alguém me apagasse. Eu só queria que alguém apagasse as luzes da minha cidade e me riscasse do mapa. Eu fiz o que pude para não cair junto com a minha esperança. Fiz o que me foi proposto, vivi cada minuto da minha existência e ainda vivi por vezes a existência do outro, o sofrimento alheio. Se alguém pudesse dizer aos meus inimigos que não ligo para o ódio deles, eu poderia descansar sem me preocupar em me tornar uma presa fácil. Se meus inimigos se tocassem que o ódio deles não é reciproco, eu ficaria em paz na minha cidade. Se alguém transmitisse aos meus amigos que estou completamente decepcionado, eu talvez pudesse ser entendido e lembrado.

Já que fiquei sem qualquer caracterização de amor terceirizado, prefiro permanecer isolado e concentrado na minha incerteza. Preciso procurar em mim razões para voltar a seguir a vida com leveza sem dar tanta credibilidade para a tristeza. Dor e medo compartilhados, mas sem nenhum retorno eu continuei com dor e com medo. Mil razões para deixar de viver e dois mil motivos para não continuar essa longa jornada. Quatrocentas espécies de tormentos e muito amor equivocado ou meramente descartável. Por fim, por tudo aquilo que resta de mim, prefiro apagar as luzes da minha cidade e permanecer sozinho e calado. Por todas as minhas tentativas frustradas é que quero me ver apagado e sem qualquer espécie de coração quebrado.

Eu farei corretamente o que agora me foi proposto. Não seguirei em frente sem antes apagar da minha mente as minhas tentativas frustradas de me sentir seguro. Partido ao meio e sem qualquer pestanejo eu me esvaziei de mim e me rendi ao escuro perfeito, ao silêncio da incerteza.

É por mim, é pelo o que sobrou de mim, que apagarei as luzes da minha cidade para dormir um pouco mais sozinho, para passar um pouco mais de tempo com os espinhos e para degustar um pouco mais do amargor da minha existência.

Artur Cacossi