SÓTÃO


Se eu pudesse simplesmente dizer algo que ninguém jamais disse, talvez me sentiria passageiramente satisfeito. Se eu conseguisse simplesmente ser um escritor melhor, talvez eu tivesse um pouquinho de reconhecimento. Eu simplesmente só queria inventar uma nova modalidade de escrita. Talvez eu também queira aprender a compor uma nova palavra. Eu gostaria de ter a habilidade de rimar num poema e me adequar aos gêneros textuais existentes. Eu gostaria de ter uma nova fonte de inspiração. Eu também poderia escrever coisas que viessem da minha imaginação.

Ainda sou basicamente jovem, mas me sinto velho e gasto. Sou inseguro demais para realizar qualquer sequencia de passos, qualquer planejamento para o futuro ou simplesmente fazer qualquer promessa.

Eu tenho um nome, mas prefiro me manter anônimo. Não sei o que posso dizer de mim, mas não costumo ter muitas qualidades, muitas conquistas ou muitas amizades.

Sou simplesmente aquelo que o tempo deixou para trás. Que muitos fizeram questão de esquecer. Que poucos valorizam. Que quase ninguém vê. Que a maioria prefere contradizer. Sou simplesmente aquele que foi colocado no canto da sala, foi guardado no sótão e fui esquecido ao lado dos enfeites de natal.

Adormecido cá estou, sem nome, sem amor, sem reconhecimento, sem voz, sem talento, sem novidades, sem sorriso, sem marcas de expressão, sem coração, sem motivação e sem o que de mim se desvencilhou. Sei não, mas parece que estou meio conturbado, revoltado, triste ou estressado. Estou qualquer coisa que mexa com o sistema nervoso central.

Sou muitos dentro do passado, mas sou completamente pouca coisa no presente. Olhos brilhantes e mente criativa que simplesmente quase passam despercebidos. Se eu entregasse ao mundo o meu coração e mostrasse a todos a capacidade da minha imaginação, ninguém lembraria de mim na próxima estação.

Se a vida é um vai e vem, por qual razão eu fui e não voltei?
Se a vida é uma lição, por qual razão não aprendi a lição?
Se a cada manhã tudo se faz novo, por qual razão cheiro a mofo?

Se um dia eu descobrir as respostas, coloco minha cara no sol. Se num outro momento eu conquistar o que almejo, eu saio do sótão para dizer o que vi e ouvi enquanto todos me ignoravam.