15.11.16

SE EU NÃO FOSSE MAIS EU



Ontem eu tive uma ideia importante, mas como estava ocupado com alguns afazeres deixei a ideia ir embora. Toda vez que algo bom sai de mim e eu me permito perder esse algo bom, me pergunto do que sou feito eu. Quando eu começo a questionar a minha existência, e isso acontece frequentemente, pergunto-me: por qual razão você ainda não entendeu o motivo de você simplesmente ser você? Algumas vezes minha pergunta faz sentir-me bem comigo mesmo e por outras vezes ela me deixa ainda mais perturbado com o fato de eu ser eu.

Estou preso em perguntas sem respostas e preso em minha própria existência sem razão, sem querer estar preso em mim. Muitas vezes me permito ficar fissurado na frase "se você não fosse você", que me esqueço de qualquer outra certeza que tenho sobre mim, sobre a minha vida ou somente sobre qualquer coisa.

Não estou bem. Questionar-me nesse aspecto nunca me deixa bem, mas é algo aparentemente inevitável para mim. Se eu não fosse eu não teria que ter suportado pesos maiores que a minha capacidade e não teria que ter suportado muitas dores sozinho. Me sinto cansado demais sendo eu e toda vez que estou quase recuperado das tragédias que me assolam, logo me canso de seu eu novamente. Ser eu em determinadas circunstâncias parece ser um martírio, um castigo ou algo muito ruim de se descrever.

Não me lamento de ser quem sou e não questiono os acontecimentos que marcaram a minha trajetória. O meu questionamento é simples: como seria a minha vida se eu simplesmente pudesse escolher não ser eu? Talvez fosse mais feliz e menos dramática. Fosse mais leve e menos pesada. Talvez eu pudesse ter mais momentos felizes do que traumas.

Se eu conseguisse sair de mim, será que as pessoas ainda me reconheceriam? Se eu não fosse mais eu a minha fisionomia mudaria? Como posso eu pensar em mudar de vida ou de história se há vinte anos vivo a minha vida e escrevo a minha história?

Eu tenho tanta coisa para fazer e para dizer, mas só diria e faria se eu não fosse eu. Me preso nesse eu que por vezes é muito limitado. Se eu não fosse eu, talvez estaria internado num manicômio. Se eu não fosse eu, talvez nem existiria. Se não fosse eu, talvez eu estivesse feliz agora.

Se eu simplesmente pudesse não ser eu, conseguiria viver a vida sem medos e seria inteiramente eu sem pensar em consequências.

Infelizmente não posso deixar de me lembrar, sei que se eu não fosse mais eu perderia toda a minha experiência de vida. Eu correria o risco de sentir dores já sentidas e não poderia mais contar a história dessa vida que vivo, pois ela já não seria mais minha.