30.11.16

AO FINAL


Decidi permanecer mais recluso e mais calado. Larguei para trás a mania de ir pegando pesos por todos os caminhos que transito e estou dando a diversos assuntos as suas devidas resoluções. Estou me preparando para partir, para deixar de ser quem sou.

Desviei minha atenção de todas as problemáticas e voltei a olhar exclusivamente para o meu interior. Minha casa está completamente arrumada e não existem mais sinais de medo ou angustias. Aparentemente algo dentro de mim se permitiu mudar, se consertar ou simplesmente deixar de existir. Me leio cuidadosamente para não permitir que qualquer detalhe passe despercebido, pois a tarefa de me superar é mais complicada do que imaginei que seria. Estou procurando qualquer vestígio de bagunça, mas tudo parece cautelosamente organizado. De fato já estou começando a não me reconhecer mais...

Eu almejei ser um pouco mais estável, eu alcancei. Eu almejei ser um pouco mais seguro, eu alcancei. Eu almejei a construção da minha própria natureza, eu alcancei. Aos poucos tenho concluído cada projeto pessoal que tinha como objetivo me transformar em gente, em poeta, em menino, em filho, em amigo e em humano. Hoje, me assistindo, consigo respirar aliviado pois a minha longa e dolorida busca pela ordem parece ter chego ao fim.

Mesmo lutando contra armas poderosas e recebendo bombardeios pesados eu já não consigo me permitir cair em pedaços. Todo esse tempo vivendo nesse fogo cruzado que sempre compôs os Meus Dias só me ajudou a aprender como agir perante as dores. Fiz errado ao contra-atacar os meus "inimigos" e fiz mais errado ainda ao me apresentar a toda espécie de malogro como um portador de rancores categoricamente entusiasta. Agi feito um desorientado por muito tempo, fui completamente Um Perdido, acreditando que minhas ações e reações estavam de fato contribuindo para a minha formação interior.  Não me arrependo e nem tenho vontade de mudar qualquer que tenha sido as minhas ações, mas o que sempre me incomoda é a contabilização de todo tempo perdido com erros primários. Sou gente.

Sempre me considerei Um Anacrônico, mas hoje estou completamente em paz com a cronologia das coisas. Consigo perceber que não teria sido tão marcante viver num outro tempo, numa outra época, numa outra geração e nem numa outra história. Parece que aprendi a valorizar a minha linha do tempo. Parece mesmo que consegui desenvolver alguma espécie de olhar mais grato e satisfeito perante algumas coisas. Sou gente em evolução.

Hoje estou Sentado na Calçada fumando o meu cigarro e não me preocupo tanto com o que poderia ter acontecido se algumas de minhas ações tivessem sido diferentes. Não preciso mais me obrigar a pensar em possibilidades de ações assertivas que já estão no meu passado, cravadas na minha história, como erradas ou somente como ações. O tempo não para, a vida não para e tudo sempre continuará andando, as pessoas andam. Sou gente que se permitiu seguir Sempre em Frente.

(...)