WALKING ON FALLEN LEAVES

Com uma temática anacrônica, trabalhamos mais uma vez baseados num poema. A autora escolhida foi Cecilia Meireles (1901-1964), escritora brasileira modernista. Esse ensaio foi um dos mais intensos que já produzimos. Depois de três longas noites gravando um curta metragem, nos sentimos inspirados e demos inicio a captura de imagens numa plantação de eucalipto aos pés de uma montanha na cidade de Pedra Bela, no interior do estado de São Paulo. O cansaço e a notória "incorporação" do personagem para a gravação do curta me ajudaram a sentir mais intensamente a proposta de Cecilia no poema escolhido; Canção de Outono.

WALKING ON FALLEN LEAVES

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?


E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...


Tu és folha de outono
Voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...


Cecilia Meireles - Canção de Outono

WALKING ON FALLEN LEAVES

Folhas secas, pessoas dormindo, coração, saudade e, talvez, uma decepção... Qual é o outono que Cecilia nos propôs?

Lendo o poema percebemos uma ligação da escritora com a realidade do mundo em que vive e da vida humana. Essa "atmosfera" de dor explicitada nos versos: "[...]De que serviu tecer flores/pelas areias do chão/se havia gente dormindo/ sobre o próprio coração?" nos propõe as decepções vividas pela a autora que por sua vez sempre se entregou, mas de contrapartida nem sempre recebeu o que esperava e/ou merecia receber. Como Cecilia, por varias vezes me dediquei a causas e pessoas sem esperar nada em troca, é claro. Mas até que ponto evitamos uma possível decepção se mesmo plantando coisas boas somos tão decepcionados e temos nossas expectativas pisoteadas por gente que não consegue compreender os objetivos de um coração tão altruísta. Nas características de Meireles é possível perceber que a mesma é centrada na assimilação de que tudo possivelmente passa e de que o "caminhar" do tempo sempre consegue nos ajudar a adormecer as ilusões e dores. A escritora também não se vê "presa" em questões cronológicas, mas sempre esteve numa especie de deserto sem cores. Assim sou eu; anacrônico por natureza, fujo das cores e da felicidade, pois tudo sempre desbota e no final a felicidade sempre é passageira. Em relação ao titulo do poema, nos chamou a atenção simplesmente por não fazer somente uma mera referencia ao outono como estação climática. Percebemos esse traço de decepção com a presença de palavras como amor, choro, e mundo. Como sabemos, a poesia não consegue chegar em corações fechados e Cecilia queixa-se exatamente disso: ela simplesmente foi ou é invisível para um grande numero de pessoas. Esse sentimento de dor relacionado a ser invisível nunca poderei compartilhar com Meireles. Para mim ser invisível é uma dativa, pois jamais terei de me adequar para ser aceito ou jamais serei rejeitado por tentar ser aceito.

WALKING ON FALLEN LEAVES

A interpretação desse poema se resume ao fracasso da autora e a harmonia da natureza, que se renova a cada outono. O que ela tinha de bom o vento levou como as folhas secas num tipico dia de outono. Mas, com certeza, somente o tempo cicatrizara as feridas provocadas pelas decepções e somente a próxima primavera será a encarregada de dar vida ao que o outono tirou.

"O outono passado levou consigo tudo o que de mim ele pôde levar. A primavera trouxe numa linda manhã o que eu precisava para me reinventar. Como na natureza, nós humanos acabamos não só por acabar, mas são nossos restos mortais os responsáveis por fertilizarem o solo para a germinação de uma nova vida." 

WALKING ON FALLEN LEAVES

Você pode conferir esse ensaio completo no Flickr. Esse trabalho foi desenvolvido em parceria com minha grande amiga fotógrafa Olivia Vieira. Conheça mais sobre ela visitando seu Instagram. Trabalho capturado na cidade de Pedra Bela, veja como chegar até lá e se aventure desvendando as belezas desse simpático município.

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