A VACA ENFURECIDA

Nunca conheci quem tivesse sido perseguido por uma vaca enfurecida.
Todos os meus conhecidos nunca tiveram audácia para se enfiar no mato.

E eu, tantas foram as vezes, já estava acostumado a me aventurar em lugares desconhecidos, perdidos ou esquecidos para tentar uma boa captura fotográfica.
Era uma quarta-feira de verão, mas, no dia anterior, a previsão anunciou
uma quarta-feira de outono...
O sol foi escaldante desde as oito horas da manhã e o vento 
sempre muito marcante desde dias atrás.
Estávamos numa cidade de interior que já nos olhava de maneira estranha por trajarmos vestes de alguém que está percorrendo o mundo para a captura fotográfica perfeita.
Andamos praticamente a cidadezinha inteira a procura do cenário inédito, da iluminação adequada e fugíamos dos olhares desconfiados de quem não estava acostumado com tal cena: um rapaz e uma moça vestidos de maneira estranha invadindo a pequena cidade de interior.
Sentimos fome e comemos um delicioso pão com mortadela que fora comprado num mercadinho simpático que possuía um banheiro desgraçado pela falta de higienização.
Naquele momento, a maçã e a banana, levadas por mim, também entraram no cardápio.
Sentados na sombra, logo abaixo da cobertura de ferro do mercadinho, começamos a lutar contra o sono.
Depois de alguns minutos de um belíssimo e merecido descanso, levantamos e continuamos a busca por "cenários perfeitos"...
Minha amiga de jornada para aquele dia, lamentava a frustração de não ter conseguido visitar a praia durante suas férias, mas ela já estava bem bronzeada, ou melhor, muito mais que bronzeada naquela altura do dia; por volta das três horas da tarde.
O trabalho foi produtivo e o dia muito cansativo...

- Não sou o cidadão ideal nem a figura tradicional do bom moço de família, mas sou bom no que faço e não tenho medo dos olhares recheados de puro preconceito e discriminação.

Logo no final da tarde, quando nossos pés já doíam, nos sentamos num caminho de terra no meio do mato para realizarmos alguma captura ou para descansarmos.
Queríamos paz e vento refrescante. Queríamos esquecer as queimaduras solares que haviam nos transformado em aberrações mal bronzeadas.
Mas foi em vão. Todos paravam para ver a presença ilustre de dos jovens sentados com uma câmera nas mãos.
Mas foi em vão. Todos nem sequer sabiam disfarçar a indignação sem fundamento.
Nos mantivemos firmes por ali durante alguns minutos, mas precisávamos nos conduzir até o encontro do transporte público.
Quando nos levantamos, avistamos uma vaca ao longe.

Não nos preocupamos, era só uma vaca.

- NÃO corre! Ela está enfurecida por causa de seu bezerro!

O animal nos avistou e conduziu-se enfurecida até nós.
O primeiro alvo da vaca - que estava acompanhada da sua cria - foi eu.
Confesso que foram segundos aterrorizantes, mas segui a instrução;
Saí do caminho - quase caí em um buraco - e não corri.

- Nessa altura os trabalhadores rurais já gargalhavam pela nossa desgraça...

De repente, a vaca avista outro alvo mais interessante: minha amiga de jornada.
Ela, infelizmente, não conseguiu seguir as instruções - vitima do pânico -.

- Lamento profundamente não ter tido a oportunidade de registrar o momento único...

O exaltado animal deu inicio a uma perseguição incrivelmente aterrorizante e parecia que a qualquer momento conseguiria alcançar minha companheira de passeio.
Ela corria. A vaca corria.
Não existia possibilidade de nada ser feito.
Eu assistia a cena de longe ao mesmo tempo que corria logo atrás.
Foram os minutos de mais adrenalina em anos de existência.


- Uma mãe tomada pela raiva, nunca foi uma boa coisa.

Por fim, acabou tudo bem. A jovem da cidade conseguiu chegar a um lugar seguro,
Aprendemos a sair do caminho de uma mãe vaca que está acompanhada de seu bezerro e
Concluímos que aquela cidade era pequena demais para nós.