8.12.16

ASBESTO


Estou tentando descobrir quem me faz engolir a seco todos esses desgostos
Quero decifrar quem segura minhas mãos quando estou prestes a cair no poço
Preciso desmascarar quem insiste em me manter em pé mesmo machucado

Quero não ser impedido de me render ao holocausto
Quero ter a chance de pular da sacada
De provar a minha comida envenenada
De ver o sangue jorrar dos meus pulsos
De ver a vida fugir lentamente de mim

Não sei quem me provem cada nova decepção
Muito menos quem desenvolve cada nova tragédia
Mas sei que já não escuto mais o pulsar do meu coração
Não tenho mais ânimo para procurar pelo melhor
Estou coberto até a cabeça pelo pior de mim
Pelo pior da minha vida e da minha história
Estou sendo afogado pela minha sombria memória

Quem vai me dizer que o amargor da vida é passageiro?
Quem vai perder seu tempo me dizendo sonsas palavras de conforto?
Quem vai pegar em minhas mãos e me conduzir para outra direção?
Quem vai me emprestar um par de ouvidos para me ouvir dizer o quanto me cansei de viver?

Cansei de ser tratado feito um cachorro
Estou exausto de ser motivo de desgosto
Saturei-me de ser mantido feito uma máquina
Desenvolvi um certo medo dessa sombra
Essa treva que me obrigam a permanecer
Não consigo mais ser ignorado ou passar despercebido
Decidi caminhar além dessa delimitação

Sou criatura da vida e posso viver
Sou filho da vida e posso aprender
Sou animal da vida e posso crescer

Sou ser humano cansado e angustiado
Que nesse caminho viveu na pior
Que na garganta guarda tantas palavras
Que na vida é praticamente um nada

Já que não sou grande coisa
Então me empurre logo da sacada
Envenene de uma vez minha água
Corte rapidamente meus pulsos
E volte para a sua rotina
Que já não estarei mais aqui ao amanhecer